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Como foi formado o Antigo Testamento?

14 de julho de 2012

Quando Paulo fala que toda Escritura é inspirada, a qual parte do Velho Testamento ele se referia? Os livros da Lei? Os Profetas? Pois os diversos grupos religiosos Judeus aceitavam diferentes escrituras: havia os que aceitavam somente a Lei (Pentateuco); outros a Lei e os Profetas; outros consideravam os livros históricos e poéticos, mas não necessariamente os afirmavam ser soprados por Deus. Há ainda os escritos apócrifos, o que dizer deles? Se você fala que toda as Escrituras são sopradas por Deus, seriam estas as da Bíblia da tradição evangélica (ou seja, os 66 livros) ou os da tradição católica (73 livros)?

Caro leitor,

Os dois principais grupos religiosos dos tempos de Jesus eram os saduceus e os fariseus. Os saduceus não criam na ressureição e somente consideravam o Pentateuco inspirado, enquanto os fariseus criam na ressureição, e criam na inspiração da Lei (Pentateuco), dos Salmos (livros poéticos) e dos profetas. Jesus se alinhava doutrinariamente com os fariseus, pois pregava a ressurreição e fez repetidas citações da Lei, dos Salmos e dos profetas.

Em suas palavras finais, antes de sua ascenção aos Céus, o próprio Jesus confirmou a inspiração destas Escrituras quando disse:

São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos. (Lucas 24:44 – grifos acrescentados).

Portanto, Jesus testifica a respeito da inspiração da Lei, dos profetas e dos Salmos e somente o seu testemunho já encerraria esta questão. Mas há evidência histórica suficiente para que entendamos que o Canon judaico era um conjunto fechado de livros, bem definido na tradição hebraica desde os tempos de Malaquias. O historiador judeu Flavio Josefo, em sua obra “Contra Apion” (1:8), nos informa que

… nós [os judeus] não temos uma multidão de livros entre nós, discordando e contradizendo-se mutualmente (como os gregos), mas temos somente vinte e dois livros … cinco deles escritos por Moisés, que contém suas leis … e desde a morte de Moisés até o reinado de Artaxerxes, Rei da Pérsia, que reinou depois de Xerxes, os profetas que vieram depois de Moisés registraram todos os feitos de seus tempos em treze livros. E os quatro livros restantes contém hinos dedicados a Deus, e preceitos de vida.

Portanto, Josefo esclarece que os livros considerados inspirados pela comunidade judaica foram produzidos em um período aproximado de mil anos que compreende os tempos de Moisés (1400 a.C.) até os tempos do fim do cativeiro babilônico (440 a.C). Esdras, Neemias, Ester, Ageu, Zacarias e Malaquias foram os últimos escritos produzidos nesta época que marcou o fim da atividade profética em Israel. Assim, depois de Malaquias, nenhum outro escrito possuiu a mesma autoridade que os demais, como esclarece o historiador judeu:

… desde os tempos de Artaxerxes nossa história vem sendo escrita de forma detalhada, mas não é considerada por nossos antepassados como tendo a mesma autoridade que os escritos anteriores, por que não há sucessão profética desde estes tempos.

Os manuscritos apócrifos – Tobias, Judite, I e II Macabeus, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruque e adições nos livros de Ester e Daniel (a História de Susana e de Bel e o dragão) – foram produzidos de dois a três séculos após este período, e somente foram misturados ao Cânon judaico quando foram traduzidos para o grego juntamente com os manuscritos sagrados, para a composição da versão grega da Bíblia conhecida como Septuaginta, ou LXX (séculos III – II a.C.).

O número de livros do Canon judeu (22) citado por Josefo difere dos atuais 39 livros do Antigo Testamento porque a contagem dos livros na época era diferente. Livros que em nossas Bíblias estão separados eram muitas vezes escritos em somente um pergaminho. O Talmude e a versão de Áquila das Escrituras (tradução grega pós Septuaginta, popular entre os judeus que se opunham à LXX), sugerem a divisão dos livros do Antigo Testamento como veremos abaixo:

Os “cinco de Moisés”:
1) Gênesis
2) Êxodo
3) Levítico
4) Números
5) Deuteronômio

Os “treze livros proféticos”:
6) Josué
7) Juízes + Rute
8 ) Samuel e Reis
9) Crônicas
10) Isaías
11) Jeremias
12) Lamentações
13) Ezequiel
14) O Livro dos 12 (Profetas menores: Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageus, Zacarias e Malaquias)
15) Jó
16) Ester
17) Daniel
18 ) Esdras + Neemias

Os quatro de livros de hinos e preceitos:
19) Salmos
20) Provérbios
21) Cânticos
22) Eclesiastes

Estes são os atuais livros da Tanack, a Bíblia judaica – a qual os reformadores protestantes tomaram como modelo, pois aos judeus foram confiados os oráculos de Deus (Romanos 3:1-2). De acordo com a Enciclopédia Judaica, a única discrepância entre a contagem de Josefo e a de alguns rabinos é que estes contavam o número de pergaminhos como 24, ao separar Samuel de Reis e Esdras de Neemias. Entretanto, os livros apócrifos nunca foram considerados pela comunidade judaica como inpirados, sendo conhecidos pelos judeus como obras culturais e folclóricas somente. Ainda de acordo com a Enciclopédia Judaica, os rolos contendo os apócrifos não constavam nas bibliotecas do Templo e das Sinagogas, sendo chamados pelos judeus de sefarim ha-ḥizonim, ou seja, os livros de fora.

Portanto, tanto o testemunho de Jesus quanto a história corroboram a idéia de que quando Paulo atestou quanto à inspiração das Escrituras ele, sendo judeu, tinha um conjunto específico de livros veterotestamentários em mente.

© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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