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A Plenitude dos Tempos

16 de junho de 2013

Globalização, revolução tecnológica, PAX ROMANA e um profundo sentimento de desilusão marcaram o contexto em que o Cristianismo nasceu. Qualquer semelhança com nossos dias atuais, não é mera coincidência.

Paulo escreveu às igrejas da Galácia que “vindo, porém, a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho” (Gl 4:4). Nesta expressão singular – a plenitude dos tempos – Paulo resumiu aqueles longos séculos da atividade soberana de Deus nas nações dos homens, atividade essa necessária na preparação do mundo para a vinda de Jesus, o Messias. É muito interessante que a inscrição colocada na cruz de Jesus tenha sido escrita em hebraico, latim e grego (Jo 19:20). E essas três culturas, mais do que qualquer outras, prepararam o solo para o abundante florescimento da videira messiânica no primeiro século.

Em primeiro lugar, os hebreus em sua dispersão levaram consigo, para todo lugar, o entendimento de um único e verdadeiro Deus – Jeová. Também, estava profundamente arraigada em seu entendimento a expectativa do Reino do Messias no fim dos tempos. O Messias era, na verdade, a esperança de Israel e a luz dos gentios!

Em segundo lugar, a cultura grega contribuiu com sua incomparável língua, falada em todo o mundo conhecido daquela época, inicialmente como meio de proclamação apostólica oral (kerygma) e, mais tarde, como meio de instrução apostólica escrita (didaquê). Também a decadência moral da cultura grega na sua exploração do melhor das habilidades humanas na arte e na literatura, na filosofia e na ciência, serviu apenas para provar a sabedoria do poeta Bonar: “Tudo o que a minha alma provou, deixou apenas um vazio deprimente.” O caminho estava claramente preparado para a declaração ousada do Evangelho: “Há somente Cristo: Ele é tudo em todos” (Cl 3:11).

Em terceiro lugar, a contribuição da cultura romana para a “plenitude dos tempos” consistiu na unificação de todo o império romano, até um conjunto desordenado de nações herdado dos gregos. Através de sua rede de transporte, seu sistema de comunicações e correios, através de sua cultura, leis e governo militar, Roma consolidou e misturou a ‘farinha” de toda a massa da humanidade para que pudesse ser mais facilmente “levedada” pelo Evangelho de Cristo. Jesus realmente nasceu na plenitude dos tempos. Um mundo decadente e falido estava então realmente preparado para ouvir a declaração ungida do Senhorio sublime de Cristo dos lábios daquele pequeno grupo de homens que Jesus pessoalmente discipulou e depois enviou por todo o mundo como porta-vozes de sua redenção universal.

Fonte:

Schmitt, Charles P., “Raiz em uma Terra Seca”, Uma Nova Visão da História da Igreja. Impacto Publicações.

Devolvendo a "sacolinha" aos pobres

21 de julho de 2012

THE CHRISTIAN POST – Somente passar a sacolinha durante os cultos de domingo para cumprir o orçamento não era suficientente para os líderes de uma pequena igreja no estado do Mississippi.

Então, dois anos atrás, o pastor e os líderes da Igreja Batista Traceway na cidade de Clinton começaram a orar sobre a melhor forma de servir a sua comunidade. Após dois meses de oração e jejum, eles ouviram de Deus que deveriam dar todos os dízimos e ofertas alçados pela igreja e doar aos pobres por todo um ano.

“No final de 2009, nossa liderança estava orando para saber qual a melhor maneira de representar Jesus Cristo em nossa comunidade. Essencialmente, nossa oração era: Deus, o que podemos fazer para que quando as pessoas olhem para nós elas vejam a Ti?” Explicou o Pastor da igreja, John Richardson, em entrevista ao The Christian Post.

“Quanto mais oravamos mais sentiamos Deus nos dizendo: “Se vocês querem me apresentar para a sociedade tornem-se generosos, porque Eu Sou generoso”, explicou Richardson. “A forma como nós interpretamos que poderiamos realizar a vontade de Deus foi em doar todos os nossos dízimos e ofertas aos mais carentes por um ano.”

Apenas 50 pessoas, muitas delas de natureza transitória, freqüentam regularmente Igreja Batista Traceway fundada seis anos atrás. No entanto, de Abril de 2010 a Abril de 2011, a igreja foi capaz de doar US $ 60.000 para pessoas carentes na comunidade – disse Richardson que relatou sua experiência na generosidade em um livro chamado Giving Away the Collection Plate (Doando a Sacolinha), lançado em Junho de 2012.

“Tudo o que era depositado no ofertório era doado para as mães que haviam sido abusadas por seus parceiros, que passavam por situações difícieis – que praticamente viviam somente com as roupas do corpo, pessoas que tentando se libertar de vícios, ou que perderam seus empregos, aos que enfrentam despejos por não poderem pagarem suas hipotecas, indivíduos com altas dívidas  de tratamento médico, etc “, explica o Pastor Richardson.

Quando questionado sobre como a Igreja foi capaz de operar sem rendimentos provenientes de dízimos, Richardson disse: “Foi um processo interessante.”

“Quando os líderes da Traceway ainda buscavam entender como administrariam a visão que Deus  lhes havia dado, uma outra igreja nos procurou e disse que se sentiriam honrados se a Igreja Batista Traceway começasse a se reunir no outro prédio desta igreja que não estava  sendo utilizado. Nos ofereceram as instalações sem cobrar taxas de aluguel, água ou luz.”

“Nós também cortamos o que pudemos de nosso orçamento”, disse Richardson. “Pedimos a outros de fora de nossa comunidade que fizessem uma doação única e especial à Igreja. Não aconteceu do dia para a noite, mas ao longo de um ano, notavelmente Deus proveu para cada uma das necessidades orçamentarias da igreja” continuou Richardson.

O pastor explica que uma vez dado início ao projeto de generosidade da Igreja, os frutos se fizeram visíveis na Igreja e foram demonstrados por aqueles que foram abençoados financeiramente pela comunidade. A Igreja soube de um homem na cidade que havia passado por um ano extremamente difícil, em que sua esposa o deixou, marcado por muitas dificuldades financeiras e “uma coisa atrás da outra aconteceu.” Depois que o motor de sua velha minivan se fundiu enquanto ele a dirigia, a Igreja “começou a caminhar com ele [em sua jornada espiritual] e acabou comprando-lhe uma picape em ótimas condições,” disse Richardson. Mais tarde, este homem, hoje um membro ativo da Igreja, contou-lhe como ele deu seu testemunho a um mendigo que se encontrava do lado de fora de um restaurante de fast food.

“Josh foi guiado por Deus a abordar este mendigo. Ele é uma pessoa introvertida, mas naquele dia se levantou de sua mesa, conversou com o mendigo por um minuto, trouxe-o para dentro e o fez sentar-se à uma mesa. Ele não somente lhe ofereceu uma refeição, mas sua dignidade também. Essa é a coisa. Somos generosos porque Deus foi generoso conosco e outros seguem seu exemplo. Foi maravilhoso ver como as pessoas começaram a crescer na fé porque estavam praticando a generosidade e se aperfeiçoando na sua imitação de Deus.”

Richard relata alguns pontos marcantes deste projeto:

“Quando você realmente começar a viver generosamente, especialmente se você sabe que é algo que Deus lhe pediu para fazer, isso abre seus olhos para o quão incrivelmente generoso Deus é para nós”, disse ele.

“A generosidade não é apenas uma boa coisa a se fazer. É provavelmente, a resposta para o maior obstáculo espiritual que temos hoje para nos tornar discípulos. A generosidade ao próximo carente é um antídoto para a ganância. A generosidade ajuda você a imitar os caminhos de Deus e tornar-se mais como Ele. É um pedaço enorme do processo de discipulado que a maioria das igrejas perdeu.”

O livro de Richardson é destinado a ajudar igrejas e cristãos a pensar mais sobre ser generosos. “Trata-se de levar os líderes de igrejas a um lugar onde comecem a olhar para o dinheiro e se perguntarem: Estou vivendo como se esse dinheiro pertencesse a Deus ou pertencesse a mim?”

Fonte: The Christian Post via Púlpito Cristão. Tradução de Wesley Moreira, revisão de @paoevinho.

Espero que outros possam se inspirar neste belo exemplo, que foi um projeto de um ano, e torná-lo um estilo de vida permanente de suas comunidade. A generosidade sacrificial está no cerne da reforma que Deus quer operar em nossa geração. Sem tocar nas finanças da Igreja, qualquer mundaça será superficial. Recomendo a leitura do texto “Falta-te uma coisa …“. (P&V)

Como foi formado o Antigo Testamento?

14 de julho de 2012

Quando Paulo fala que toda Escritura é inspirada, a qual parte do Velho Testamento ele se referia? Os livros da Lei? Os Profetas? Pois os diversos grupos religiosos Judeus aceitavam diferentes escrituras: havia os que aceitavam somente a Lei (Pentateuco); outros a Lei e os Profetas; outros consideravam os livros históricos e poéticos, mas não necessariamente os afirmavam ser soprados por Deus. Há ainda os escritos apócrifos, o que dizer deles? Se você fala que toda as Escrituras são sopradas por Deus, seriam estas as da Bíblia da tradição evangélica (ou seja, os 66 livros) ou os da tradição católica (73 livros)?

Caro leitor,

Os dois principais grupos religiosos dos tempos de Jesus eram os saduceus e os fariseus. Os saduceus não criam na ressureição e somente consideravam o Pentateuco inspirado, enquanto os fariseus criam na ressureição, e criam na inspiração da Lei (Pentateuco), dos Salmos (livros poéticos) e dos profetas. Jesus se alinhava doutrinariamente com os fariseus, pois pregava a ressurreição e fez repetidas citações da Lei, dos Salmos e dos profetas.

Em suas palavras finais, antes de sua ascenção aos Céus, o próprio Jesus confirmou a inspiração destas Escrituras quando disse:

São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos. (Lucas 24:44 – grifos acrescentados).

Portanto, Jesus testifica a respeito da inspiração da Lei, dos profetas e dos Salmos e somente o seu testemunho já encerraria esta questão. Mas há evidência histórica suficiente para que entendamos que o Canon judaico era um conjunto fechado de livros, bem definido na tradição hebraica desde os tempos de Malaquias. O historiador judeu Flavio Josefo, em sua obra “Contra Apion” (1:8), nos informa que

… nós [os judeus] não temos uma multidão de livros entre nós, discordando e contradizendo-se mutualmente (como os gregos), mas temos somente vinte e dois livros … cinco deles escritos por Moisés, que contém suas leis … e desde a morte de Moisés até o reinado de Artaxerxes, Rei da Pérsia, que reinou depois de Xerxes, os profetas que vieram depois de Moisés registraram todos os feitos de seus tempos em treze livros. E os quatro livros restantes contém hinos dedicados a Deus, e preceitos de vida.

Portanto, Josefo esclarece que os livros considerados inspirados pela comunidade judaica foram produzidos em um período aproximado de mil anos que compreende os tempos de Moisés (1400 a.C.) até os tempos do fim do cativeiro babilônico (440 a.C). Esdras, Neemias, Ester, Ageu, Zacarias e Malaquias foram os últimos escritos produzidos nesta época que marcou o fim da atividade profética em Israel. Assim, depois de Malaquias, nenhum outro escrito possuiu a mesma autoridade que os demais, como esclarece o historiador judeu:

… desde os tempos de Artaxerxes nossa história vem sendo escrita de forma detalhada, mas não é considerada por nossos antepassados como tendo a mesma autoridade que os escritos anteriores, por que não há sucessão profética desde estes tempos.

Os manuscritos apócrifos – Tobias, Judite, I e II Macabeus, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruque e adições nos livros de Ester e Daniel (a História de Susana e de Bel e o dragão) – foram produzidos de dois a três séculos após este período, e somente foram misturados ao Cânon judaico quando foram traduzidos para o grego juntamente com os manuscritos sagrados, para a composição da versão grega da Bíblia conhecida como Septuaginta, ou LXX (séculos III – II a.C.).

O número de livros do Canon judeu (22) citado por Josefo difere dos atuais 39 livros do Antigo Testamento porque a contagem dos livros na época era diferente. Livros que em nossas Bíblias estão separados eram muitas vezes escritos em somente um pergaminho. O Talmude e a versão de Áquila das Escrituras (tradução grega pós Septuaginta, popular entre os judeus que se opunham à LXX), sugerem a divisão dos livros do Antigo Testamento como veremos abaixo:

Os “cinco de Moisés”:
1) Gênesis
2) Êxodo
3) Levítico
4) Números
5) Deuteronômio

Os “treze livros proféticos”:
6) Josué
7) Juízes + Rute
8 ) Samuel e Reis
9) Crônicas
10) Isaías
11) Jeremias
12) Lamentações
13) Ezequiel
14) O Livro dos 12 (Profetas menores: Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageus, Zacarias e Malaquias)
15) Jó
16) Ester
17) Daniel
18 ) Esdras + Neemias

Os quatro de livros de hinos e preceitos:
19) Salmos
20) Provérbios
21) Cânticos
22) Eclesiastes

Estes são os atuais livros da Tanack, a Bíblia judaica – a qual os reformadores protestantes tomaram como modelo, pois aos judeus foram confiados os oráculos de Deus (Romanos 3:1-2). De acordo com a Enciclopédia Judaica, a única discrepância entre a contagem de Josefo e a de alguns rabinos é que estes contavam o número de pergaminhos como 24, ao separar Samuel de Reis e Esdras de Neemias. Entretanto, os livros apócrifos nunca foram considerados pela comunidade judaica como inpirados, sendo conhecidos pelos judeus como obras culturais e folclóricas somente. Ainda de acordo com a Enciclopédia Judaica, os rolos contendo os apócrifos não constavam nas bibliotecas do Templo e das Sinagogas, sendo chamados pelos judeus de sefarim ha-ḥizonim, ou seja, os livros de fora.

Portanto, tanto o testemunho de Jesus quanto a história corroboram a idéia de que quando Paulo atestou quanto à inspiração das Escrituras ele, sendo judeu, tinha um conjunto específico de livros veterotestamentários em mente.

© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

Toda Escritura é inspirada por Deus (?)

1 de julho de 2012

Como lidar com irmãos que, dizendo-se presbíteros, ensinam que “Paulo não diz que toda Escritura é inspirada por Deus. Há um erro de tradução em 2 Tim 3:16, pois no original grego o verbo ‘ser’ não aparece depois da palavra ‘Escritura’, e o versículo não diz que ‘Toda Escritura é inspirada por Deus e proveitosa para ensinar’ e sim que ‘Toda Escritura inspirada por Deus é proveitosa para ensinar…’

Caro irmão:

Comecei a blogar no começo de 2009 e no final do mesmo ano resolvi reformular o blog para falar somente de “igreja orgânica”. Primeiro por este ser um assunto sobre o qual pouca gente escreve, e segundo por causa da abundância de blogs apologéticos (uns bons e outros ruins) na rede. Mas diante do avanço do liberalismo teológico, tanto dentro quanto fora da igreja institucional, devemos ter recursos disponíveis para evitar que falsos mestres ganhem espaço na comunhão dos irmãos. Há outras pessoas na rede muito mais capacitadas do que eu para discorrer sobre estes temas, mas como já não é a primeira vez que alguém me diz que certos ensinos perniciosos estão se infiltrando em algumas comunidades caseiras, procurarei contribuir com algo que seja para a edificação dos irmãos.

A resposta para tais alegações contra a inspiração das Escrituras merece uma análise um pouco mais profunda do texto em questão. Procurarei explicar isso da maneira mais simples possível. Vejamos então o que diz o grego:

πᾶσα γραφὴ θεόπνευστος καὶ ὠφέλιμος πρὸς διδασκαλίαν, πρὸς ἐλεγμόν πρὸς ἐπανόρθωσιν, πρὸς παιδείαν τὴν ἐν δικαιοσύνῃ

Para facilitar a compreensão, vejamos o significado do verso, palavra por palavra:

πᾶσα (pasa) – Toda
γραφὴ (graphē) – Escritura
θεόπνευστος (Theopneustos) – soprada por Deus
καὶ (kai) – e
ὠφέλιμος (ōphelimos) – útil
πρὸς (pros) – para
διδασκαλίαν (didaskalian) – ensino
πρὸς (pros) – para
ἐλεγμόν (elegmon) – repreensão
πρὸς (pros) – para
ἐπανόρθωσιν (epanorthōsin) – correção
πρὸς (pros) – para
παιδείαν (paideian) – disciplina
τὴν (tēn) – a
ἐν (en) – em
δικαιοσύνῃ (dikaiosynē) – justiça

Portanto, o texto em grego diz:

Toda Escritura soprada por Deus e útil para ensino, para repreensão, para correção, para disciplina na (em + a) justiça.

Como vemos, é verdade que o verbo “ser” não aparece nos originais. Mais qualquer intérprete bíblico com um mínimo de conhecimento em grego sabe que os escritores neotestamentários comumente omitiam o verbo em seus textos sempre que ele fosse óbvio no contexto de uma oração. O português segue uma regra semelhante, quando omite o sujeito e até mesmo o verbo da oração em alguns casos (como veremos abaixo). 2 Tim 3:15-16 não é uma exceção, mas segue um padrão muito comum ao longo de todo o Novo Testamento. Entretanto, uma regra básica de sintaxe grega é que toda oração traz um verbo (seja ele explícito ou, neste caso, implícito). Portanto, é fato que há um verbo implícito no verso, e a questão seria somente identificar qual é este verbo e qual seria seu lugar correto na oração.

Aproveitando-se do fato de que o verbo “ser”está implícito no grego, o teólogo liberal insere o verbo “ser” da seguinte maneira na oração:

Toda Escritura soprada por Deus é útil para ensino, para repreensão, para correção, para disciplina na justiça.

Nesta construção, “Toda Escritura soprada por Deus” é o sujeito e “é útil para ensino” é o predicado da oração. Insinua-se, assim, que somente as escrituras inspiradas são úteis para o ensino, sugerindo então a existência de uma segunda classe de Escrituras não inspiradas.

O problema de tal tradução, além de suas implicações teológicas, é que ela viola a sintaxe da oração. A palavra “útil” (no grego ὠφέλιμος / ōphelimos) é precedida pela conjunção καὶ /kai (conjunção, para quem não se lembra, é aquela palavrinha que conecta duas orações). A conjunção καὶ não significa “É” (do verbo ser), mas significa “E”, sem acento. A presença de uma conjunção antes da palavra ” útil” impede que esta porção do versículo seja o predicado do sujeito “Toda Escritura soprada por Deus.” Assim, esta segunda porção da oração deve obrigatoriamente ser traduzida como:

… e (sem acento, diferente de “é”) útil para o ensino.”

E se a porção acima não é o predicado de “Toda Escritura inspirada”, não nos resta outra opção além de entender que “inspirada” é o predicado de “Toda Escritura”. Assim, para que a oração tenha sentido, o verbo “ser” deve ser inserido na oração da seguinte maneira:

Toda Escritura [é] soprada por Deus, e útil para ensino, e para repreensão, para correção, para disciplina na (=em + a) justiça.

E se formos expandir a oração, incluindo todos os verbos, sujeitos e adjetivos nela implícitos, leremos a sentença da seguinte maneira:

Toda Escritura [é] soprada por Deus, e [toda Escritura é] útil para [o] ensino, e [toda Escritura é útil] para [a] repreensão, [toda Escritura é útil] para [a] correção, [toda Escritura é útil] para [a] disciplina na justiça.

Resumindo, TODA ESCRITURA É INSPIRADA POR DEUS. Qualquer outra tradução não corresponde à ideia no original grego e representa uma distorção do que Paulo afirma neste texto. Anátema seja.

© Pão & Vinho

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Os apóstolos erraram ao lançar sortes na escolha de Matias?

19 de junho de 2012

Alguns irmãos em igrejas caseiras estão tendo dificuldades com liberais que se infiltram nas comunidades, intitulando-se “presbíteros”, que não creem nas Escrituras e apontam erros na narrativa bíblica no intuito de desacreditá-la. Respondo aqui a um irmão que me escreveu em privado e que tem enfrentado este tipo de situação. Um dos supostos erros apontados por estes liberais é o fato de os apóstolos terem “lançados sortes” para escolher o substituto de Judas ao invés de “consultar o Espírito.”

Lançar sortes seria equivalente a lançar dados ou jogar uma moeda para tirar “cara ou coroa”. Tal prática é vista como algo supersticioso nos dias de hoje, mas nos tempos bíblicos era algo comum. Somos uma geração privilegiada, premiada com um cânon já formado e com o batismo no Espírito Santo disponíveis a qualquer crente em nossos dias. Portanto lançar sortes já não se faz mais necessário e hoje somos chamados a “compreender qual é a vontade do Senhor” (Ef 5:17) pela “renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Rom 12:2).

No entanto, a prática de lançar sortes é mencionada diversas vezes no Antigo Testamento. Deus permitia que os israelitas lançassem sortes para determinar sua vontade em uma situação em particular. Sob a liderança de Josué, sortes foram lançadas na divisão de terras entre as tribos (Josué 18:1-10). No livro de Números, vemos Deus ordenando o lançamento de sortes (26:55; 33:54; 34:13; 36:2) e várias funções no Templo eram determinadas desta maneira (1 Cr 24:5, 31; 25:8-9; 26:13-14, Nm 10:34). Em outra palavras, Deus falava por das sortes. Nada mais natural que, antes da vinda do Espírito Santo, os apóstolos se utilizassem deste recurso para determinar o substituto de Judas.

Após a descida do Espírito, não há mais registros desta prática na Igreja. Por exemplo, na ocasião em que os apóstolos debatiam a inclusão dos gentios na Igreja, vemos que tal decisão foi tomada por meio das Escrituras e por revelação do Espírito (Atos 15:15-19). No entanto, antes do cumprimento profético de Pentecostes, em Atos 2, tal prática era legítima.

Algumas pessoas alegam que a escolha de Matias foi precipitada, mas a própria Escritura atesta que tal atos foi uma providência divina, pois em Atos 2:24 o Espírito Santo inspira Lucas a se referir a Matias como um dos onze.

© Pão & Vinho

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A praga do pragmatismo

28 de maio de 2012

Tudo começa quando um grupo de pessoas permanece fiel à Palavra e à direção do Espírito em uma congregação local. A segunda fase é quando a benção de Deus vem sobre a congregação local como resultado desta obediência. A terceira fase é quando alguém publica estas experiências através de testemunhos, livros e, nos dias atuais, páginas web e blogs na internet. A quarta fase é quando alguém decide criar um modelo a partir destas experiências, que é clonado e copiado por milhares de pessoas no mundo. A quinta fase é quando um determinado modelo é “beatificado”, tradições começam a ser cristalizadas, franquias começam a ser criadas e instituições eclesiásticas começam a surgir em torno do modelo.

De acordo com Peter Wagner, 80% dos pastores simplesmente copiam outros modelos e programas em suas igrejas. 15% dos pastores fazem ajustes em um modelo já existente e os implementam em suas congregações. Somente 5% dos pastores implementam seus próprios modelos.1 O que isso significa para nós, nos dias de hoje? Significa que a Igreja se tornou, em sua maior parte, uma grande máquina de xerox. Significa que há muita revelação horizontal (Árvore do Conhecimento) sendo difundida na Igreja e pouca revelação profética e vertical (Árvore da Vida), o que leva à mecanização e a fossilização da Ekklesia.

A diferença entre um agricultor e um engenheiro é que o engenheiro, por meio de fórmulas e cálculos, cria sistemas que produzam resultados matematicamente previsíveis. O  agricultor, por sua vez, aplica princípios elementares na plantação da semente, mas não exerce nenhum controle quanto ao tempo em que a semente germinará ou a forma que ela tomará depois de brotar. Estas características já estão embutidas no DNA da semente, não na habilidade do agricultor em produzi-la. A diferença entre uma Igreja orgânica (DNA divino) e uma igreja transgênica (DNA manipulado pelo homem) é a diferença entre uma igreja orientada por princípios e uma igreja mecanizada por métodos ou tradições.

O pragmatismo é um dos maiores adversários da profecia. A história nos dá testemunho de que a Igreja de hoje sempre resiste à Igreja que Deus quer construir amanhã. O profeta diz “façamos assim porque assim diz o Senhor.” O pragmático diz “façamos assim porque fulano fez e deu certo” ou “façamos assim porque nossos pais na fé assim faziam.”

Princípios bíblicos são imutáveis e indispensáveis na formação de uma Igreja saudável. Métodos e estruturas, por sua vez, mudam de acordo à direção do Espírito em um determinado contexto e necessidade local. O pragmatismo na aplicação de princípios é algo saudável. Mas o pragmatismo que nos leva a sedimentar métodos e ostentar tradições em detrimento daquilo que o Espírito nos mostra hoje é carnal e demoníaco. O pragmatismo inevitavelmente leva ao desgaste (consciente ou inconsciente) dos membros de uma congregação local, assim como ao esgotamento espiritual de obreiros que se empenham em aplicar métodos e perpetuar tradições que, na melhor das hipóteses, foram relevantes em outras épocas ou locais, mas que se tornaram cultural ou espiritualmente irrelevantes nos dias de hoje.

João Batista surgiu no deserto encarnando princípios, mas despido de tradições que atrapalhariam o mover do Espírito. Uma Igreja verdadeiramente apostólica e profética deverá inevitavelmente passar pelo mesmo processo.

O conceito de “Igreja orgânica” não é simplesmente mais um modismo, ou mais um método de crescimento. É a jornada da Ekklesia rumos aos princípios básicos do Reino (comunhão, intercessão e proclamação) sem o peso ou a distração de construções históricas, emblemas religiosos ou qualquer outra coisa que surgiu como um “meio” e acabou se tornando um fim em si mesma (quem lê entenda). É a liberdade da simplicidade daquele que ingenuamente lança mão da boa semente, sem a prentenção de controlar seu crescimento. É a volta da Comunidade Divina ao seu estágio embriônico, permitindo que ela nasça, cresça, se multiplique e toma sua forma naturalmente, de acordo ao seu DNA divino e sem a interferência de nossos moldes pré-concebidos.2

Assim como os filisteus entulharam os poços de Abraão herdados por Isaque após a sua morte, Deus permitirá que nosso inimigo entulhe os poços antigos, por mais que eles tenham sido úteis aos nossos antepassados, para que cada geração e cada Igreja local cave seus próprios poços e beba das águas frescas do Espírito.

Que o Senhor nos dê graça para encontrar nosso Reobote. Amém.

Notas

[1] Palestra sobre o crescimento da Igreja em 1986, no Fuller Theological Seminary, de acordo com Wolfgang Simson em “The House Church Book”, p. 138.
[2] A respeito deste tema, recomendo a leitura do artigo Eclesiologia Líquida.


© Pão & Vinho

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Um casamento por semana

20 de maio de 2012

Por Wolfgang Simson:

A vida em qualquer cultura tem dois aspectos: a vida cotidiana e as celebrações especiais. Ambos os aspectos da vida tem sua válida parcela de expressão. A vida cotidiana normalmente se dá em família – a célula básica de toda sociedade e cultura. Famílias normalmente são bem orgânicas, informais e relacionais. Celebrações são situações especiais para as quais todos se preparam – casamentos, festivais, funerais e festejos tradicionais. Normalmente elas são formais, demandam muita organização e são sempre bem estruturadas.

Imagine se você tivesse que ir a um casamento todo final de semana. E todo casamento seguisse o mesmo padrão, tivesse o mesmo noivo e a mesma noiva, e servisse até mesmo o mesmo tipo de comida. Depois de algumas semanas, a empolgação se esgotaria. Você saberia o que esperar, e saberia o que iria acontecer. O casamento continuaria sendo algo bom, uma bela tradição, mas seria esquisito ter que participar do mesmo tipo de celebração toda semana.

Precisamos tomar cuidado para não fazer a mesma coisa com a Igreja. Jesus não nos mostrou somente uma maneira de celebrar, mas também uma maneira de viver. A vida cotidiana não é como celebrar um casamento, e qualquer casal pode testemunhar isso. Se a Igreja enfatizar somente as estruturas de celebração, será como celebrar um casamento todo final de semana e nosso comportamento será tão diferente da vida real que não fará nenhum sentido aos de fora. Nosso comportamento se tornará algo artificial, um mero show semanal.

Se a Igreja é um estilo de vida comunitário dado por Deus, nada mais apropriado do que a Igreja estar edificada a partir de lares simples, comuns e normais. As Igrejas caseiras não são somente uma maneira de expressarmos comunidade, são também uma das maneiras que Deus usa para formar comunidade.

Extraído da obra “The House Church Book”, pp. 8-9. Traduzido por @paoevinho.