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Ecce Homo

25 de abril de 2014

Ecce Homo

Alguém se lembra desse incidente (ou poderíamos dizer “acidente”)? Aconteceu no ano passado, em meados de agosto. A pintura se chama(va) Ecce Homo (Eis o Homem) de Elias Garcia Martinez. Por mais de um século, a pintura foi o orgulho da Igreja Santuário da Misericórdia nas proximidades de Zaragoza, Espanha. Com o tempo, a pintura se desgastou por causa da umidade nas paredes da basílica e Cecilia Giménez, uma fiel de 80 anos de idade, resolveu dar uma ajudinha na restauração. O resultado final é o “Homem Elefante” que vocês estão vendo na foto.

Analisando a História da Igreja – incluindo os capítulos que estamos escrevendo hoje – constato com tristeza que este é o nosso cliclo vicioso. Percebemos que há algo errado na imagem de Cristo na terra – que é a sua Igreja. Tentamos restaurar algo que se perdeu e as vezes os resultados são catastróficos. Tudo porque nos falta habilidade para traçar as linhas, combinar as cores de maneira eficiente, e a sensibilidade para saber quando pressionar o pincel e quando escorregá-lo de forma mais leve sobre a lona.

Por alguma razão, custa-nos encontrar um ponto de equilíbrio enquanto “pintamos”. Muitos de nós vemos o desgaste na “pintura”, queremos mudança, queremos melhora, mas tudo o que conseguimos fazer às vezes é deformar ainda mais a imagem de Cristo. Nos dias de hoje, saímos do extremo do institucionalismo e caímos no outro extremo da informalidade, da “igreja” casual, das vãs conversas de Starbucks. Saímos do extremo de uma mensagem legalista que só prega o fogo do inferno aos pecadores, para cair no extremo do evangelho “água com açucar” de um deus hippie, um velho gagá “paz e amor”, que não confronta pecados ou prega arrependimento. Saímos do fundamentalismo bíblico literalista para cair no liberalismo teológico que mina nossa confiança na Palavra de Deus. Saímos do extremo da “carismanía”, dos retetés, dos modismos e exageros pentecostais, para cairmos no extremo do cessacionismo e seu intelectualismo estéril que nega o poder de Deus. Da salvação pelas obras, caímos no extremo da graça barata, e assim por diante. Sempre trafegando pelos extremos…

Sou otimista quanto aos tempos em que vivemos. Sou confiante no fato de que Deus, em sua divina soberania, avançará com os marcos da Reforma e providenciará um legado para as gerações posteriores. No entanto, não pelos méritos da carne e do sangue. Todos nós corremos o risco de, a exemplo desta octogenária, superestimar nossas habilidades, seja por nossa idade, seja por nossas experiências passadas, nosso intelecto, nosso conhecimento, pelo carisma que temos com as pessoas, ou pelos dons espirituais que possuímos. Todos corremos o risco de apertar o pincel demais ou afrouxá-lo demais, combinar as cores de maneira equivocada e criar traços toscos e inábeis que venham a estragar a pintura.

Que o Senhor nos ajude a caminhar em equilíbrio, no poder de nossa vulnerabilidade e dependência daquele que sabe pintar como ninguém mais.

Soli Deo Gloria.

© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

 

 

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One Comment
  1. Ubiratan permalink
    1 de maio de 2014 0:44

    Creio que uma das possíveis respostas está no livro de 1 Coríntios 13:11-13:
    11 Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
    12 Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
    13 Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.
    Que nos esforcemos para negarmos a nós mesmos e se verdade, deixemos as coisas de meninos.
    O Senhor nos abençoe.

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