Skip to content

A praga do pragmatismo

28 de maio de 2012

Tudo começa quando um grupo de pessoas permanece fiel à Palavra e à direção do Espírito em uma congregação local. A segunda fase é quando a benção de Deus vem sobre a congregação local como resultado desta obediência. A terceira fase é quando alguém publica estas experiências através de testemunhos, livros e, nos dias atuais, páginas web e blogs na internet. A quarta fase é quando alguém decide criar um modelo a partir destas experiências, que é clonado e copiado por milhares de pessoas no mundo. A quinta fase é quando um determinado modelo é “beatificado”, tradições começam a ser cristalizadas, franquias começam a ser criadas e instituições eclesiásticas começam a surgir em torno do modelo.

De acordo com Peter Wagner, 80% dos pastores simplesmente copiam outros modelos e programas em suas igrejas. 15% dos pastores fazem ajustes em um modelo já existente e os implementam em suas congregações. Somente 5% dos pastores implementam seus próprios modelos.1 O que isso significa para nós, nos dias de hoje? Significa que a Igreja se tornou, em sua maior parte, uma grande máquina de xerox. Significa que há muita revelação horizontal (Árvore do Conhecimento) sendo difundida na Igreja e pouca revelação profética e vertical (Árvore da Vida), o que leva à mecanização e a fossilização da Ekklesia.

A diferença entre um agricultor e um engenheiro é que o engenheiro, por meio de fórmulas e cálculos, cria sistemas que produzam resultados matematicamente previsíveis. O  agricultor, por sua vez, aplica princípios elementares na plantação da semente, mas não exerce nenhum controle quanto ao tempo em que a semente germinará ou a forma que ela tomará depois de brotar. Estas características já estão embutidas no DNA da semente, não na habilidade do agricultor em produzi-la. A diferença entre uma Igreja orgânica (DNA divino) e uma igreja transgênica (DNA manipulado pelo homem) é a diferença entre uma igreja orientada por princípios e uma igreja mecanizada por métodos ou tradições.

O pragmatismo é um dos maiores adversários da profecia. A história nos dá testemunho de que a Igreja de hoje sempre resiste à Igreja que Deus quer construir amanhã. O profeta diz “façamos assim porque assim diz o Senhor.” O pragmático diz “façamos assim porque fulano fez e deu certo” ou “façamos assim porque nossos pais na fé assim faziam.”

Princípios bíblicos são imutáveis e indispensáveis na formação de uma Igreja saudável. Métodos e estruturas, por sua vez, mudam de acordo à direção do Espírito em um determinado contexto e necessidade local. O pragmatismo na aplicação de princípios é algo saudável. Mas o pragmatismo que nos leva a sedimentar métodos e ostentar tradições em detrimento daquilo que o Espírito nos mostra hoje é carnal e demoníaco. O pragmatismo inevitavelmente leva ao desgaste (consciente ou inconsciente) dos membros de uma congregação local, assim como ao esgotamento espiritual de obreiros que se empenham em aplicar métodos e perpetuar tradições que, na melhor das hipóteses, foram relevantes em outras épocas ou locais, mas que se tornaram cultural ou espiritualmente irrelevantes nos dias de hoje.

João Batista surgiu no deserto encarnando princípios, mas despido de tradições que atrapalhariam o mover do Espírito. Uma Igreja verdadeiramente apostólica e profética deverá inevitavelmente passar pelo mesmo processo.

O conceito de “Igreja orgânica” não é simplesmente mais um modismo, ou mais um método de crescimento. É a jornada da Ekklesia rumos aos princípios básicos do Reino (comunhão, intercessão e proclamação) sem o peso ou a distração de construções históricas, emblemas religiosos ou qualquer outra coisa que surgiu como um “meio” e acabou se tornando um fim em si mesma (quem lê entenda). É a liberdade da simplicidade daquele que ingenuamente lança mão da boa semente, sem a prentenção de controlar seu crescimento. É a volta da Comunidade Divina ao seu estágio embriônico, permitindo que ela nasça, cresça, se multiplique e toma sua forma naturalmente, de acordo ao seu DNA divino e sem a interferência de nossos moldes pré-concebidos.2

Assim como os filisteus entulharam os poços de Abraão herdados por Isaque após a sua morte, Deus permitirá que nosso inimigo entulhe os poços antigos, por mais que eles tenham sido úteis aos nossos antepassados, para que cada geração e cada Igreja local cave seus próprios poços e beba das águas frescas do Espírito.

Que o Senhor nos dê graça para encontrar nosso Reobote. Amém.

Notas

[1] Palestra sobre o crescimento da Igreja em 1986, no Fuller Theological Seminary, de acordo com Wolfgang Simson em “The House Church Book”, p. 138.
[2] A respeito deste tema, recomendo a leitura do artigo Eclesiologia Líquida.


© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

Anúncios
4 Comentários
  1. cristina permalink
    28 de maio de 2012 11:33

    AMÉM , AMÉM, ESTAMOS AQUI CAVANDO NOSSOS POÇOS COMO UNS TATUS…
    HUGO, NO PRÓXIMO DOMINGO VAI TER BATISMO AQUI, MANDAREI FOTOS.
    VOCÊ FAZ PARTE DESSE ACONTECIMENTO, VOCÊ TEM NOS AJUDADO MUITO NO
    CRESCIMENTO COMO IGREJA.

    PODE SE SENTIR ABRAÇADO PELA IGREJA QUE ESTÁ REUNIDA EM SÃO ROQUE.

  2. 28 de maio de 2012 15:53

    Amado irmão Hugo, graça e paz!

    Você sabe que o pragmatismo surgiu como filosofia nos EUA, país que exerce particular influência sobre o Brasil. E é verdade: o pragmatismo é uma praga mesmo, que torna a tradição religiosa mais importante que a revelação da Escritura ou a revelação profética. Esse pensamento de que “é assim que funciona” tem feito muito mais discípulos de pensadores ateus dentro da Igreja do que discípulos de Jesus (“o Filho não pode fazer nada de si mesmo; só pode fazer o que vê o Pai fazer” – Jo 5.19; “Quando vocês levantarem o Filho do homem, saberão que Eu Sou, e que nada faço de mim mesmo, mas falo exatamente o que o Pai me ensinou” – Jo 8.28). Naquela ocasião em que Jesus deu aquela dura mensagem de João 6, muitos ao invés de pôr seus seguidores à prova – como fez Jesus – teriam ali aproveitado a oportunidade para construir uma enorme denominação… de “sucesso” pelo ponto de vista humano, mas um fracasso aos olhos de Deus. Aquela seria uma igreja de crentes amantes de si mesmos, preocupados apenas com o que comer agora, porém sem nunca terem se tornado discípulos daquele a quem professariam amar. Isso acaso não se parece com muitas, infelizmente, muitas denominações atuais? Isso não se parece com o alerta de Paulo em Filipenses 3.17-19? Inimigos da cruz de Cristo, visto que só se preocupam com as coisas desta vida? Muito, mas muito mesmo do que hoje vemos como Igreja de Jesus é fruto do pensamento pragmático, adversário de Deus e inimigo de Cristo.

    Há anos prego contra essa praga, e continuarei até o fim. Somos um!
    Marcio.

  3. 28 de maio de 2012 19:45

    Meu Deus, que notícia boa Cristina! Mande-me as fotos sim! E por favor, transmita meu abraço à Igreja que se reune em sua casa.

  4. 29 de maio de 2012 15:19

    Cada vez que leio seu site, gosto mais do que escreve, gostaria se saber o que pensa sobre as aplicações das doutrinas de Paulo, sobre partir do pão, cobertura das irmãs, casamento como figura de Cristo e a igreja, e sacerdocio dos santos ensinado por pedro.
    Um grande abraço,
    Julio Ometto – Piracicaba.

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: