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Batismo por fé em rios de sangue

21 de janeiro de 2012

No dia 21 de janeiro de 1525, um casal de cristãos em Zurique cometeu desobediência civil ao se recusar a batizar seu bebê recém nascido, por entender que o batismo bíblico é aquele que se dá mediante ao arrependimento de pecados e à confissão de fé em Cristo Jesus. Eles também entenderam que o governo não tem o direito de controlar a fé de seus cidadãos. Nascia, assim, o movimento anabatista. A atitude deste casal mudou a história da Igreja e nós, 487 anos depois, nos beneficiamos de sua ousadia.

Enquanto muitos hereges eram executados na fogueira, a punição de muitos anabatistas por se "rebatizarem" era a morte por afogamento.

A Reforma Protestante na Europa havia promovido a restauração de uma prática de fé fiel as Escrituras. Quando os reformadores ascenderam ao controle dos governos, eles substituíram a Igreja Romana pelas igrejas reformadas. De modo geral, todos, incluindo recém-nascidos, tinham que ser batizados para pertencer às recém organizadas igrejas reformadas, assim como outrora fizeram na Igreja Romana. Recém nascidos eram batizados na Igreja Reformada e se tornavam membros simplesmente por nascer na comunidade, assim como alguém se torna um cidadão estadunidense por nascer nos EUA.

A Reforma chegou a Zurique também, impulsionada pelos ensinamentos bíblicos de Ulrich Zwinglio. O conselho municipal de Zurique e a maioria dos cristãos apoiaram suas reformas. Entretanto, quando um grupo zeloso de partidários de Zwinglio consultaram a Bíblia, eles encontraram várias diferenças entre as igrejas primitivas do primeiro século e as igrejas estatais do século XVI.

Eles se convenceram de que a Igreja não deveria incluir a todos. Ao invés disso, ela deveria incluir somente aqueles que realmente conhecessem e seguissem a Cristo. “Como um bebê pode se unir à Igreja quando não sabem nada além de chorar e comer?”, perguntavam eles. Estes cristãos criam que o batismo verdadeiro se dá somente quando o indivíduo já tem idade suficiente para entender o seu significado. Entre estes, estavam Georg Blaurock, Conrad Grebel e Felix Manz.

Quando a esposa de Grebel deu a luz a um bebê, o casal decidiu não batizar a criança como as autoridades de Zurique exigiam. Outras famílias seguiram o exemplo dos Grebel. O concílio municipal de Zurique administrou esta desobediência civil da mesma forma que administraria uma petição para remover lixo da cidade ou a construção de uma nova ponte. No dia 17 de janeiro de 1525, eles organizaram um debate público a respeito do assunto. Os representantes civis ouviram os dois lados e votaram a favor do batismo infantil. O Concílio proibiu os “radicais” de se reunirem ou expressarem suas opiniões a outros, e ordenou que todas as famílias batizassem suas crianças em oito dias ou deixassem Zurique.

O prazo terminava e os anabatistas precisavam tomar uma posição. Enfrentando os ventos e a neve daquela gélida noite de 21 de janeiro de 1525, eles se reuniram na casa de Felix Manz para decidir o que fazer. Obviamente a reunião era “ilegal”, mas o grupo estava certo de uma coisa: governos não têm o direito de ditar crenças religiosas a seus cidadãos. Era uma idéia radical para a época. Entretanto, uma vez que eles enxergaram e entenderam isso, não havia mais volta.

Eles conversaram, lamentaram e, de joelhos, oraram. Quando todos se levantaram, Georg Blaurock já tinha tomado sua decisão. Ele pediu a Conrad Grebel para batizá-lo da maneira apostólica – diante da confissão de fé. Grebel o fez e, então, Blaurock batizou todos os outros que assim desejaram. Por meio daquele ato, nascia o movimento anabatista. “Anabatista” quer dizer “aquele que rebatiza.” Seus inimigos os apelidaram assim, em zombaria.

Os anabatistas acataram as ordens do conselho municipal de Zurique e deixaram a cidade. Eles deram início às suas próprias reuniões, completamente livre dos laços com o governo, e pregavam abertamente a outros. Para Zurique, tal ato se constituiu em rebelião e o concílio decretou a prisão dos envolvidos. Após serem libertos, eles voltaram a pregar.

Com o passar do tempo, Manz, Blaurock e muitos outros anabatistas foram executados. Graças à ousadia destes homens, a história da Igreja foi mudada, mas somente às custas de rios de sangue derramado por governantes que tentavam controlar a fé das pessoas.

Menonitas, huteritas e os Amish são descendentes diretos do movimento anabatista. Os batistas e muitos outros grupos batizam um indivíduo somente se ele tem idade suficiente para entender o significado do ato e confessar a Cristo. Mas todos nós nos beneficiamos da decidão dos Grebel de não batizar seu bebê. Graças a esta atitude, a maioria das igrejas protestantes hoje age sob o princípio da separação entre a Igreja e o Estado, mesmo que muitos governos ao redor do mundo ainda tentam controlar a Igreja.

Extraído de Christianity.com e traduzido por @paoevinho.

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6 Comentários
  1. 22 de janeiro de 2012 0:08

    Hugo,
    Graça e paz…

    Um texto muito interessante, que nos leva a refletir acerca da nossa fé. Infelizmente, nos dias atuais a pregação evangélica tornou-se triunfalista, antropocêntrica e empírica, ou seja, a ênfase tem sido a prosperidade, o humanismo e o misticismo. Às vezes é preciso voltar no tempo e rever a história da igreja e perceber que muitos pagaram com a própria vida por manterem firmes suas convicções de fé em Cristo e em sua Palavra.

    Fica na Paz de Cristo!

    Edu
    Arujá, SP

  2. A New Wineskin permalink
    24 de janeiro de 2012 21:15

    Legal essa Postagem, já aprendi algo mais, pois queria saber qual era a Origem dos Amish’s. Sempre visito a Página de vôces e acho que é a Primeira vez que Comento aqui!
    Obrigado por toda Edificação que vcs trouxeram à minha Vida.
    Paz seja Convosco!

    Equipe “A New Wineskin”
    UmNovoOdre.BlogSpot.com

  3. 25 de janeiro de 2012 4:01

    Seja bem vindo. Obrigado por prestigiar o blog.

  4. 25 de janeiro de 2012 16:35

    Como sempre, ótimos artigos para reflexão.

  5. 13 de fevereiro de 2012 20:07

    Os anabatistas formaram grupos comprometidos com o evangelho de maneira radical. Luz na história da igreja. Para quem deseja saber mais sobre eles postei um artigo com uma bibliografia, principalmente em português: http://igrejabatistadoverbo.blogspot.com/2011/05/anabatistas-silencio-susurro-e-voz-na.html. Curiosamente, Hugo, usei o mesmo desenho (belíssimo) que você usou. Gostei tanto do site que o coloquei na lista do meu blog. Deus abençoe.

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