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A amnésia histórica dos inquisidores

28 de novembro de 2011

Para o esclarecimento geral, considero-me um cristão carismático pós-pentecostal. Com isso quero dizer que, apesar de ser um dos milhões de beneficiários do mover pentecostal, não sou membro de nenhuma igreja pentecostal ou neopentecostal. Também esclareço que ao publicar a última série de postagens sobre as manifestações carismáticas presentes nos avivamentos do passado, não tive e não tenho a intenção de validar todas as atividades espirituais dos ajuntamentos pentecostais e neopentecostais da atualidade. Minha intenção é somente oferecer uma análise histórica mais realista de tais fenômenos.

Há muitas inverdades sendo publicadas a respeito do assunto, em alguns casos por torpe ignorância, em outros casos por flagrante desonestidade intelectual de pessoas que possuem calibre teológico suficiente para saber que “cair no Espírito” e “risos no Espírito” não foram invenções da Igreja do Aeroporto em Toronto ou do G12 de Bogotá. E apesar de os santos do Avivamento da Rua Azusa (1906) também terem experimentado fenômenos como gargalhadas, convulsões e desmaios em suas reuniões, isso tampouco se trata de uma invenção do movimento pentecostal.

Há um testemunho coletivo destes fenômenos ocorrendo em avivamentos ao longo da história da Igreja, muito anteriores aos movimentos acima citados. O testemunho de tais manifestações partiram da pena de homens respeitados como John Wesley, George Whitefield, Jonathan Edwards e Martyn Loyd-Jones, cuja reputação ministerial poucos entre nós ousariam questionar. A estes, poderíamos somar uma lista infindável de homens e grupos tais como os huguenotes franceses, George Fox e Charles Finney.

A história nos ensina que praticamente nenhum movimento do passado esteve livre de excessos, nem mesmo a Reforma Protestante, cuja paixão ideológica de seus idealizadores os levava a perseguir e matar aqueles que não rezassem sua cartilha teológica. Mas erros e excessos devem ser tratados com ensino e cuidado pastoral, não anatemizando todo um segmento por causa de seus excessos sem analizar seus frutos para o Reino.

Obviamente, o simples testemunho histórico de uma prática não a torna automaticamente aceitável. É necessário analisar toda e qualquer prática à luz das Escrituras. Pretendo, um dia, dar continuidade a esta série expondo minha análise bíblica a respeito do assunto. Mas no momento desejo somente expor o paradoxo de certos websites que publicam citações de calvinistas como Whitefield, Edwards e Lloyd-Jones, mas que desconhecem ou deliberadamente omitem certos episódios da vida destes homens que contradiriam sua linha editorial cessacionista.

Assim, a não ser que estejamos dispostos a queimar todos os nomes acima citados na fogueira ideológica da inquisição pós-moderna (da mesma maneira que queimamos nossos contemporâneos), sugiro que desenvolvamos uma discussão responsável e séria a respeito do assunto, em que estejamos dispostos a expor nossas perspectivas bíblicas e históricas de tais fenômenos sem as chocarrices, o sensacionalismo, a incredulidade e o preconceito que infelizmente caracterizam o debate a respeito do tema.

© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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3 Comentários
  1. 28 de novembro de 2011 19:18

    Amado irmão Hugo, graça e paz!

    Os seus escritos aqui, em especial este último e os que abrangeram os relatos de Jonathan Edwards e do Dr. Lloyd-Jones, foram os que mais fizeram justiça à respeito de tudo o que está sendo dito ultimamente sobre o carisma. Bom trabalho!

    “Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado” (1Co 13.10).

    Irmão Marcio.

  2. Eribaldo Pereira permalink
    30 de abril de 2012 0:49

    Tendo menos a confiar nos supostos milagres atuais diferentemente daqueles tão inquestionável da igreja primitiva. O que nos falta? Santidade? Será que mesmo sendo Deus o mesmo age de forma diferente em nossos dias? Me estranha muito à natureza no mínimo suspeitas dos sinais atuais. Se verdadeiramente Deus estivesse cooperando com sinais e maravilhas em nosso tempo com a quantidade de crentes atualmente existente como isso seria impactante? Porém, achei muito legal e coerente suas observações.

  3. 30 de abril de 2012 1:20

    Nem tudo nos tempos bíblicos era inquestionável. Por isso João nos manda provar os espíritos, para saber se realmente são de Deus. Em minha opinião, a carta aos Corinthios foi colocada no canon com um único objetivo: ensinar-nos que juntamente com o verdadeiro, podem haver exageros e falsificações. A solução para isso não é e incredulidade, e sim discernimento (de espíritos, é um dom), maturidade e palavra genuinamente profética para nivelar as coisas quando elas saírem do eixo. O único lugar onde não há problemas é no cemitério, onde tudo está morto. Nada mudou dos tempos bíblicos para cá, somente nossa credulidade. Eu acredito que o Senhor Jesus sabe cuidar melhor de sua Igreja do que eu. Assim, não preciso colocar rédeas no Espírito ou ficar com medo do diabo ou da carne, porque assim como há falsificações, o próprio Deus levanta dons de discernimento e profecia para contrabalancear o engano. O movimento pentecostal e neopentecostal está uma bagunça, porque há outros interesses em jogo (políticos, financeiros), o que dá a luz os cultos a personalidade e aristocracias clericais (pseudoapostólicas). Mas quando a Igreja aprender a viver na simplicidade do Evangelho, sempre será mais fácil lidar com estas coisas.

Comentários encerrados.

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