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O fenômeno dos pregadores mirins

3 de outubro de 2011

Pais dizem que filhos são “pequenos milagres” e trabalho não atrapalha. Para psicólogos, exposição precoce pode ser prejudicial.

Matheus, 13 anos, prega para centenas de fiéis: "tenho uma vida normal, como de qualquer criança"

De terno, gravata e olhar sério. É assim que Matheus Moraes, 13 anos, divide as atividades escolares, brincadeiras, aulas de música e partidas de futebol com algo que considera muito mais importante. Ele é um dos precoces pastores mirins que estão tomando os púlpitos de igrejas evangélicas, crianças que se destacam pela desenvoltura da fala, surpreendem com a capacidade de raciocínio rápido e boa memória, e se tornam quase que imediatamente responsáveis pela conversão de centenas de fiéis.

Ana Carolina pregando na época em que virou celebridade na internet

Como Matheus, a estudante Ana Carolina Dias, hoje com 17 anos, foi uma das primeiras crianças a se tornar pregadora no Brasil. Iniciou sua carreira aos quatro. Aos sete, um vídeo em que aparece pregando foi publicado no Youtube, virou funk e bateu recorde de audiência. A postagem original foi vista quase 2 milhões de vezes. A “Menina Pastora”, como ficou conhecida, permanece na igreja até hoje. Além de pregar quase diariamente para centenas de fiéis, participa de congressos e eventos em todo o País. Paralelamente, estuda Física na Universidade Rural do Rio de Janeiro.

Os dois, filhos de pais evangélicos, são considerados pedras preciosas para as igrejas. Colocados à frente das pregações, sensibilizam centenas de fiéis e mantêm uma agenda lotada. Matheus, por exemplo, já gravou 30 DVDs com louvores e cantos, à venda em seu site. Acumula as funções de pastor, cantor e estudante. Viagens são rotina em sua vida.

Da mesma forma, Ana Carolina conheceu a Europa para pregar e atualmente coordena a vida particular com inúmeras funções na igreja. Mas o que desperta orgulho na família e faz sucesso nos púlpitos das igrejas também causa apreensões, especialmente de psicólogos. Afinal, a responsabilidade de mobilizar multidões frequentemente pode pesar, embora na maioria das vezes o talento destas crianças seja encarado meramente como uma vocação, e não obrigação.

Filho de peixe

Francinete Moraes fez cirurgia para não engravidar após dar à luz seu terceiro filho. Mesmo assim, depois de 13 anos, teve Matheus. Ainda bebê, o menino ficou em coma em função de problemas respiratórios e, durante o período, a família se debruçou em súplicas e orações. Para eles, sua sobrevivência foi um milagre e seu pai, Juanez Moraes, frequentador da Assembleia de Deus, virou pastor. Três anos depois, era Matheus que, ainda sem saber falar todas as palavras, pregou na igreja pela primeira vez. “Lembro perfeitamente: foi na cidade de Estrela Dalva, no interior de Minas Gerais, eu nem sabia falar direito”, conta o menino. Aos seis anos, já era reconhecido como um pequeno missionário.

A história de Carolina é semelhante. Quando tinha apenas três anos, teve uma inflamação que afetou seu intestino e garganta. Ficou internada durante dez dias e, segundo o pai, o pastor Ezequiel Dias, foi desenganada pelos médicos. “Ela faleceu em meus braços, até que orei a Deus e a Carolina voltou à vida. E voltou servindo a esse Deus”, diz ele, que fala pela filha e cuida de todos os seus interesses. “Mesmo falando errado, pois era criança, pregava a Palavra”. Desde então, Carolina nunca mais deixou de pregar. Ezequiel garante não ter havido pressão familiar e afirma que a menina jamais teve problemas para conciliar suas funções na igreja com os estudos.

Matheus também afirma que nunca foi pressionado para seguir a vida religiosa. “Nunca deixei e nem deixo de fazer nada por conta do Evangelho. Eu tenho uma vida normal, como toda criança: jogo bola, vou à escola [ele está no sexto ano do Ensino Fundamental, na escola particular Santa Mônica, no Rio de Janeiro], convivo com amigos”, ressalta o garoto. “Faço tudo o que as demais crianças fazem, mas com responsabilidade, pois tenho um compromisso com Deus”.

O fato de pregar hoje para multidões não parece incomodá-lo: “Eu sabia qual era a minha missão. Deus tinha uma promessa para mim. Tive certeza da minha vocação aos cinco anos, quando estava louvando em uma igreja do Méier e Deus falava comigo sobre a cura”. Matheus admite suas atividades religiosas são motivo de preconceito: “Hoje, 70% dos meninos querem ser jogadores de futebol e sinto que sou discriminado por pregar a Palavra, pelo fato de correr atrás da Bíblia. Eles não gostam, encarnam em mim. Não sou um garoto admirado”.

Vocação versus obrigação

Ana Carolina e Matheus entendem que foram escolhidos. Para eles, a função exercida é, sobretudo, uma vocação. Mas nem todos concordam. Pastora há cinco anos de uma das igrejas da Assembleia de Deus, a teóloga Maria Vita Umbelino diz ver “quase diariamente” crianças sendo levadas pelos pais até a igreja para se transformarem em pequenos pastores. “No meu Ministério eu não tenho criança pregando, sou contra”, diz ela. “Esse período é de aproveitar as brincadeiras típicas da idade e esperar pelo amadurecimento”. Segundo Maria Vita, a escola bíblica oferecida pela igreja já é “mais do que suficiente para o primeiro contato dos jovens”.

A pastora acredita que a iniciação precoce na pregação resulta no desinteresse futuro de seguir o caminho da fé. A psicóloga especializada em terapia familiar Aldvan Figueiredo concorda, explicando que o contato das crianças com a espiritualidade é comum e geralmente despertado entre os cinco e sete anos de idade. “Os pais não precisam se preocupar, desde que o interesse ocorra naturalmente”, explica. “Após esse período, as crianças tendem a se desligar desses assuntos”. O perigo, segundo ela, está em obrigá-la a ingressar em rotinas religiosas cedo demais. “A atitude pode causar danos emocionais e afastar de vez essas crianças da religião, tornando-se um trauma na vida adulta”.

Rita Kather é professora de psicologia da PUC-Campinas e tem uma opinião mais radical. Ela acredita que o reforço precoce de uma escolha, seja ela religiosa ou artística, dificulta o desenvolvimento e o interesse da criança por outras áreas. “Uma vez que esse criança começa a desempenhar bem o papel, raramente sua vida tomará outro rumo”, diz. “As crianças não devem ser incentivadas a tomar decisões logo nos primeiros anos de vida”.

Rita ainda considera perigosa a exposição das crianças. “Nesta idade, nem as habilidades ainda foram totalmente desenvolvidas”, pondera. “A religiosidade é importante, mas esse contato da criança com o mundo religioso precisa ser suave. É nobre cultivar a religião para um mundo de paz, mas isso deve ser natural”. Para a professora, raramente a criança irá expressar nitidamente sua insatisfação em cumprir um papel que agrada aos pais.

Ezequiel insiste que a vida da filha sempre foi saudável. “Ela teve uma infância tranquila, brincou, viajou o mundo. Conheceu lugares como a Europa, esquiou, fez coisas que eu não teria condições financeiras de bancar. E tudo isso por meio da pregação da Palavra”, compara. Hoje, Ana Carolina é líder da Mocidade, o grupo dedicado a jovens dentro de sua igreja, e auxilia o pai nos cultos. “É uma sensação indescritível ser pai de uma missionária. Creio que milagres não se explicam, não se justificam, e a minha filha é um milagre de Deus”, diz ele.

Com informações da iG. Colaborou Gilberto Silva.

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9 Comentários
  1. Luciano Martins permalink
    3 de outubro de 2011 19:15

    Cara, que coisa horrível.

    Olha só a cara do menino. Pose de superstar neopentecostal ensimesmado.

    Já está doutrinado, marionetado e moldado neste circo.

    Tomara, que quando tiver mais idade, saia deste circulo de vaidades que se tornou o púpito.

    Triste…. 😦

  2. Wanderlei permalink
    5 de outubro de 2011 15:12

    Realmente triste. Isso me faz lembrar das sábias palavras do Senhor Jesus em Mateus 23:15:

    “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós”.

    Que o Senhor tenha misericórdia de nós.

  3. pamela permalink
    7 de outubro de 2011 14:20

    gente,olha as besteiras que vcs estão falando!!!todos iremos dar conta do que falarmos contra um ungido de Deus!!!pelomenos conheço o mateus pelo video e reconheço que ele é uma beção!!!acredito sim!DEus prepara para fazer a obra des do ventre,e escolhe hoje crianças para pregar porque ninguem quer pagar o preço de negar a carne!!

  4. cristina permalink
    9 de outubro de 2011 19:24

    Ai que triste ver coisas como essas acontecendo, no final do texto acima , vemos um pai descaradamente declarando que a filha teve ” oportunidade” de viajar pela Europa esquiar e que coisas foram proporcionadas pela pregação do Evangelho ! diz que seriam coisas que ele não teria condições de bancar! (palavras dele). O uso da palavras de Deus em favor ao próprio bem estar? Isso é ser missionária ? onde na Bíblia está escrito que Paulo aproveitava o fato de pregar o evangelho para fazer turismo ? agora eu me pergunto : Existe ainda o pregador da Palavra de Deus totalmente voluntário? O missionário que se sustenta com seu trabalho, para não ser pesado a outros ? Concordo com a Pamela em parte, Deus irá nos cobrar sim pelo que falamos , pelo que fazemos com nossos filhos isso ele vai nos cobrar mais ainda … acredito que todo problema está nesse estado febril ( que não passa nunca ) de “megas pregadores”, pais fanáticos querem comercializar a imagem de suas crianças , e o pior ,usam o evangelho para isso.
    Pregar a Palavra de Deus no anonimato , quem quer ???? Ganhar almas para Jesus ,sem fazer um gráfico de estatística ????? quem quer ????? Deus usa quem ele quiser, chama como quiser, não existe faixa etária apropriada para ele, Ele é Deus… mais acredito que o “escolhido no ventre” é uma expressão forte demais para se enquadrar em meras situações. As vezes falar o que pensamos envolve ter coragem, mas como o Espírito que nós filhos temos, que é não é de covardia… dei a minha opinião.
    E mais , aproveito a ocasião para uma pergunta: Alguém sabe onde teria algum missionário costurando tenda??????

  5. 9 de outubro de 2011 23:33

    @cristina: Concordo em gênero, número e grau.

  6. Wanderlei permalink
    10 de outubro de 2011 18:54

    @pamela: Você sabia que a palavra Cristo é o termo usado em português para traduzir a palavra grega Χριστός (Khristós), que significa “Ungido”, e que o termo grego, por sua vez, é uma tradução do termo hebraico מָשִׁיחַ (Māšîaḥ), transliterado para o português como Messias? Ou seja, Cristo, Messias e Ungido significam a mesma coisa; e é um título, não nome ou sobrenome?

    No velho testamento somente reis e sacerdotes eram ungidos pelo Senhor (Lv.16:32 e 1Sam.15:1), porém, o Senhor Jesus é o verdadeiro “Ungido do Senhor”, pois Ele é Rei dos Reis e Grande Sumo Sacerdote (Heb.4:14 e Apo.19:16). Como o Senhor Jesus nos fez reis e sacerdotes para Deus (Apo.1:5-6), logo, todos nós também somos Ungidos do Senhor.

    Amada irmã em Cristo, não se deixe iludir, regozijai e alegrai em Cristo Jesus, pois você também é uma Ungida do Senhor, se é que o Espírito de Cristo habita em vós (Rom.8:9). Para estes que pensam ser mais especiais que os outros, e, se consideram como únicos ungidos, lembre-se das sábias palavras do Senhor Jesus em Mateus 24:24, que surgiriam falsos cristos e falsos profetas (plural, isto é, vários), afinal, um falso cristo é o mesmo que um falso ungido.

    No Amor do Mestre, Graça e Paz!!

  7. Alexandre permalink
    31 de outubro de 2011 18:00

    Espero que os pregadores mirins não se percam nesse mundo maluco das religiões, não possuem nem idade para tomar suas decisões, segundo a lei federal, ai a submissão a autoridade já não existe mais … depois vem o questão dos requisitos pastorais nas cartas de Timóteo e Tito e por fim, o neófito …

    Mais vamô lá, afinal, estamos no Brasil ………..

  8. Ester permalink
    26 de julho de 2012 19:43

    Também concordo com a Cristina. E ainda ressaltam que os filhos estudam em escolas particulares. Com que dinheiro? Quando tem tantos irmãos pobres dentro das “igrejas” deles. Mas tem coisas que são só para os previlegiados! (“pastores ungidos”).

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