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Intercâmbio de Graça

25 de setembro de 2011

Que fareis pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação. E, se alguém falar em língua desconhecida, faça-se isso por dois, ou quando muito três, e por sua vez, e haja intérprete. Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus. E falem dois ou três profetas, e os outros julguem. Mas, se a outro, que estiver assentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro. Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e todos sejam consolados. E os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas. ~ Paulo de Tarso (I Corintios 14:26-32).

As palavras acima são a única declaração descritiva das reuniões da Igreja neotestamentária. Paulo nos ensina que todos os membros foram dotados e chamados para contribuir para a edificação do Corpo durante as reuniões, pois um “um traz salmo, outro traz doutrina, outro traz revelação, outro traz línguas e outro traz interpretação” (v. 26).

As Escrituras nos mostram que as reuniões da Igreja neotestamentária eram abertas e participativas, ao contrário dos ajuntamentos solenes da igreja contemporânea. Paulo instruiu os corintios a congregar não somente para receber algo bom em seus espíritos, mas também para contribuir com algo para a edificação do grupo, de acordo ao dom de cada um – semelhante a um grande banquete em família em cada um traz um prato diferente, compartilham o que têm, ao mesmo tempo em que se alimentam das guloseimas que os outros trouxeram.

Graça e Carisma

O ensinamento apostólico não aponta para a experiência individual, mas ressaltava o intercâmbio espiritual entre os membros do Corpo de Cristo. Paulo nos mostra que o objetivo das reuniões da Igreja não é simplesmente proporcionar um ambiente de louvor e de ensino, mas também a edificação mútua dos membros do Corpo de Cristo por meio do intercâmbio de graça em que temos um encontro pessoal com Cristo ….

… na pessoa de nosso irmão.

No entanto, anos de tradição religiosa nos condicionaram a frequentar um programa semanal na intenção única de receber um “bem de consumo espiritual” – uma cura, uma pregação, uma massagem intelectual, um louvor, um momento de êxtase espiritual, uma profecia, etc – mas não para contribuir com algo no ajuntamento que vá além de dinheiro. Um mandamento subliminar em nossas reuniões, não escrito em nossos boletins mas marcado em nossos corações, é “venha, pague e ouça (em silêncio).”

Muitos dons espirituais e ministérios estão adormecidos e suprimidos entre nós, e parte do problema se dá por conta de uma teologia que cirurgicamente separou a Graça de Deus dos dons espirituais – o que tem produzido uma safra de crentes “intelectualmente salvos e praticamente passivos.”

Se disséssemos a um irmão qualquer da Igreja neotestamentária que temos a Graça (χαρις = caris) mas não temos Dom (χαριςμα = carisma), certamente ele nos perguntaria: “Como assim, vc tem água, mas não tem gelo?” A graça e o dom têm a mesma substância, somente a forma é que muda. Não há como termos uma coisa e não termos a outra, do mesmo modo em que é impossível ter fogo sem experimentar calor, pois uma coisa deriva da outra. Graça não é somente aquilo que Deus fez por nós, mas também aquilo que ele causa em nós. Assim, todo membro do Corpo de Cristo possui uma graça especial para contribuir para a edificação da Igreja como um todo.

As reuniões da Ekklesia são a representação tangível, no tempo e no espaço, da fusão espiritual em que todos nós nos tornamos um perante Deus e Ele se torna um conosco. É um ato profético daquilo que ocorrerá na Eternidade. A Ceia instituida pelo Senhor representa muito mais do que um simples memorial da crucificação. Ela transmite a realidade espiritual de que Cristo, o Pão que veio dos céus,  foi partido e distribuído entre todos nós. Assim, quando nos reunimos como Igreja formamos um só pão espiritual (1 Cor 10:17) no tempo e no espaço, e todos possuímos um pedaço do Pão (um dom) que Cristo depositou em nós para que ofereçamos aos demais membros da Comunidade Divina.

Contrastes com a Igreja moderna

Em contraste com os ensinamentos de Paulo, a interação entre os membros durante nossas reuniões é nula e desencorajada, vista como um desrespeito aos atos solenes da liturgia. Embora nos reunamos em grandes números aos domingos, as pessoas se congregam para ter uma experiência puramente individual. A tradição religiosa fez de nossas reuniões, que deveriam ser uma experiência comunal, um evento totalmente individualista, semelhante a comer em um restaurante cheio de pessoas, sem no entanto interagir com nenhuma delas.

É muito comum escutar das pessoas que elas vão a um culto para “se alimentar da Palavra”. Obviamente, o ensino é um componente importantíssimo da vida em Igreja, mas este deve se dar em um contexto flexível em que o Espírito Santo tenha liberdade para soberanamente conduzir cada membro ao exercício de seu sacerdócio, para a edificação de seu próximo. Sermões de 50 minutos em que um único homem se dirige a uma audiência passiva não eram a regra na Igreja neotestamentária.

Rígidas liturgias são uma alternativa humana em tempos de estiagem espiritual, quando a espontaneidade carismática é rara (e consequentemente o sacerdócio universal). Neste contexto de estiagem, muitos obreiros sinceros são tentados a preencher o vácuo do Espírito com seus próprios dons e talentos, e muitos ministérios são edificados ao redor do carisma de um único homem. O resultado disso é que a ausência do pastor acaba sendo mais sentida do que a ausência do Espírito entre crentes letárgicos que simplesmente não sabem o que fazer sem um “mestre de cerimônias” que os conduza.

Conclusão

Nosso grande desafio no século XXI é devolver a Igreja ao seu verdadeiro Dono e permitir que Cristo seja de fato o Cabeça da Igreja, não somente teologicamente, mas na prática. Ao contrário do que muitos pensam, odres velhos não são estruturas eclesiásticas. Odres velhos são sofismas, paradigmas e fortalezas mentais que obstruem o mover do Espírito. Odres novos são corações transformados pela renovação de nosso entendimento (Rom 12:2). Os odres novos em que Deus quer derramar seu vinho novo são nossos corações renovados. É de nosso entendimento (revelação) que toda estrutura eclesiástica deriva, seja ela boa ou ruim.

Portanto, que Deus nos dê “espírito de sabedoria e revelação e ilumine os olhos de nosso entendimento” (Ef 1:17) para que assim experimentemos “intercâmbio de graça.”

© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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9 Comentários
  1. Anderson Chaves permalink
    25 de setembro de 2011 21:26

    “…. e recordar as palavras do Senhor Jesus, que disse: Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber”. Atos 20:35. Creio que estas palavras são válidas também para nossa participação nos ajuntamentos da igreja. Infelizmente, o povo de Deus substituiu o fluir dinâmico do Espírito de Deus (o que requer “trabalho”, que saiamos da zona de conforto), pela estaticidade do ritual religioso. “Porque meu povo cometeu uma dupla perversidade: abandonou-me, a mim, fonte de água viva, para cavar cisternas, cisternas fendidas que não retêm a água”. Jeremias 2:13.

  2. Luciano Martins permalink
    27 de setembro de 2011 12:35

    Que alegria Hugo, ler este texto.

    estamos tentando trilhar o caminho, deste intercâmbio da graça, com reuniões participativas, de vários membros, de acordo com as impressões que o Espirito trouxer, seja ela uma palavra, uma oração, um cântico, etc…

    Aqueles que falam demais estão sendo tocados a participarem “menos”, e aqueles que não falam nada, sendo conduzidos a abrir seus lábios em louvor ao Senhor, e partilhar a impressão que o Espirito Santo colocar no coração….

    Como disse um irmão: Estamos engatinhando ainda…..

  3. 27 de setembro de 2011 12:43

    Todos estamos engatinhando nesta revelação, Luciano. Mas os pequenos começos são os grandes começos. 🙂

  4. cristina permalink
    27 de setembro de 2011 22:45

    Quanto tem sido agradável poder engatinhar nesta revelação… e tenho certeza que não há desafio mais valoroso que devolver a igreja ao seu verdadeiro dono.
    E que Deus nos ajude a continuar engatinhando pacientemente.

  5. Wanderlei permalink
    28 de setembro de 2011 17:16

    Glórias a Deus e ao nosso Senhor Jesus Cristo, pois este entendimento não nos havia sido dado há algumas décadas atrás. Contudo, Deus, ao seu tempo, e mediante o Espírito Santo, está realmente a abrir os olhos do nosso entendimento para com as escrituras.

    Oremos para que Ele continue abrindo os corações dos demais irmãos em Cristo, para que atentem ao que está sendo dito; como fez com Lídia, serva do Senhor, na passagem de Atos 16:14.

    Deixo os versos abaixo para nossa edificação e alegria em Cristo Jesus:

    “Ó VÓS, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. PORQUE GASTAIS DINHEIRO NAQUILO QUE NÃO É PÃO? E O PRODUTO DO VOSSO TRABALHO NAQUILO QUE NÃO PODE SATISFAZER? Ouvi-me atentamente, e comei o que é bom, e a vossa alma se deleite com a gordura. Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi”. [Isaías 55:1-3].

    E de novo:

    “E o Espírito e a esposa dizem: Vem. E quem ouve, diga: Vem. E quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida”. [Apocalipse 22:17].

    Ora, VEM SENHOR JESUS!!

    Toda honra e toda glória pertencem ao Senhor Jesus.

  6. Alexandre permalink
    31 de outubro de 2011 18:54

    Muito importante o assunto apresentado nesse artigo e uma das melhores observações que vi nesses ultimos tempos com relação ao ajuntamento ou culto, fantástico.
    Fui de fato edificado por esse texto.
    Parabéns

  7. Epifanio (Piff) permalink
    17 de novembro de 2011 14:18

    A Paz do Senhor
    Gostaria de saber como achar uma Igreja Orgânica aqui em Goiania??
    Fiquem todos com DEUS

  8. 14 de julho de 2013 17:36

    É bom ler um texto assim tão bem definido. A verdade é que nada do que é praticado nas religiões, não foi tirado da igreja primitiva mas de Roma, de Constantino por volta do terceiro século. Deus não está no sistema religioso, Ele esta no seu corpo que não é uma organização mas um organismo vivo com muitos membro formando um só corpo, o corpo de Cristo aqui na terra. o mundo inteiro precisa saber estas coisas tão valiosas.
    Amém

  9. 14 de julho de 2013 17:43

    Eu também estou procurando uma igreja orgânica em Goiânia-Go. tenho sede de verdade e de justiça.
    Deus seja louvado.

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