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Evangélicos sem espetáculo

9 de agosto de 2011

Por Nicholas D. Kristof:

Nesta época de polarizações, poucas palavras provocam tanta aversão nos ambientes liberais quanto “cristão evangélico”.

Em parte, isto se explica porque, nos últimos 25 anos, os evangélicos foram associados a personagens rabugentos e fanfarrões. Quando os reverendos Jerry Falwell e Pat Robertson debateram na televisão se os ataques de 11 de Setembro foram uma punição de Deus contra as feministas, os gays e os secularistas, Deus deveria tê-los processado por difamação.

Anteriormente, Falwell defendera que a AIDS é “o julgamento de Deus sobre a promiscuidade”. Esta presunção religiosa permitiu que o vírus da AIDS se espalhasse, constituindo uma imoralidade maior do que tudo o que poderia acontecer nas saunas gays.

Em parte, por causa desta postura moralista, todo o movimento evangélico é frequentemente rotulado pelos progressistas como reacionário, míope, irracional e até mesmo imoral.

Entretanto, esse menosprezo casual é profundamente injusto com o movimento como um todo. Ele reflete um tipo de intolerância reversa, às vezes um fanatismo às avessas, dirigido contra dezenas de milhões de pessoas que na realidade cada dia mais se envolvem na luta contra a pobreza e na defesa da justiça global.

Essa linha piedosa da corrente evangélica foi substancialmente moldada pelo reverendo John Stott, o simpático estudioso inglês que influenciou o cristianismo de maneira muito mais significante do que astros da mídia como Robertson ou Falwell. Stott, que morreu há alguns dias aos 90 anos, foi incluído na lista das cem pessoas mais influentes do globo da revista Time. Em termos de estatura, foi por vezes considerado o equivalente do papa entre os evangélicos de todo o mundo.

Stott não pregou o julgamento no lago de fogo e enxofre em uma rede de TV cristã. Ele foi um humilde estudioso cujos 50 livros aconselham os cristãos a emular a vida de Jesus – principalmente sua preocupação com os pobres e os oprimidos – e a se opor a mazelas sociais como a opressão racial e a poluição ambiental.

“Os bons samaritanos sempre serão necessários para socorrer os que foram assaltados e roubados; entretanto, seria melhor acabar com os bandoleiros na estrada de Jerusalém a Jericó”, escreveu Stott em seu livro A Cruz de Cristo. “Por isso, a filantropia cristã em termos de alívio e ajuda é necessária, mas muito melhor seria um aprimoramento a longo prazo, e nós não podemos fugir da nossa responsabilidade política e da necessidade de participar da transformação das estruturas que inibem este aprimoramento. Os cristãos não podem olhar com tranquilidade as injustiças que arruínam o mundo de Deus e degradam suas criaturas”.

Stott deu exemplos das injustiças contra as quais os cristãos precisam lutar: “os traumas da pobreza e do desemprego”, “a opressão das mulheres”, e na educação, “a negação de iguais oportunidades a todos”.

Para muitos evangélicos que sempre se retraíam quando um televangelista ganhava as manchetes, Stott era um guru intelectual e uma inspiração. Richard Cizik, presidente da Nova Igreja Evangélica Parceria para o Bem Comum, que trabalhou heroicamente para combater desde o genocídio até a mudança climática, me disse: “Contra a charlatanice e a irracionalidade no nosso movimento, Stott permitiu afirmar que você é “evangélico” e não deve se arrepender”.

O reverendo Jim Wallis, diretor de uma organização cristã chamada Sojourners (Os visitantes), que trabalha em prol da justiça social, acrescentou: “John Stott foi o primeiro líder evangélico importante que defendeu o nosso trabalho na Sojourners”. Stott, que foi um aluno brilhante em Cambridge, também ressaltou que a fé e o intelecto não precisam ser conflitantes.

Há muitos séculos, o estudo profundo da religião era extraordinariamente exigente e rigoroso; por outro lado, qualquer um podia declarar-se cientista e passar a exercer a alquimia, por exemplo. Hoje, é o contrário. Um título de doutor em química exige uma formação rigorosa, enquanto um pregador pode explicar a Bíblia pela televisão sem dominar o hebraico ou o grego – ou mesmo sem mostrar interesse pelas nuances dos textos originais.

Os que se denominam líderes evangélicos revelam-se hipócritas, transformando Jesus em fonte de lucro em lugar de imitá-lo. Alguns parecem inclusive homofóbicos, e muitos que se declaram “a favor da vida” parecem pouco preocupados com a vida humana depois que ela sai do útero. São os pregadores que aparecem nas manchetes e são menosprezados.

Mas ao pesquisar sobre a pobreza, as doenças e a opressão, encontrei outros evangélicos. Evangélicos que estão peculiarmente dispostos a doar o dízimo do que ganham a obras de caridade, em geral ligadas à igreja. E o mais interessante é que, se observarmos as linhas de frente nos EUA ou no exterior, nas batalhas contra a fome, a malária, as violações nas prisões, a fístula obstétrica, o tráfico de pessoas ou o genocídio, alguns dos militantes mais corajosos que encontraremos são cristãos evangélicos (ou católicos conservadores, que a eles se assemelham de muitas maneiras) que vivem verdadeiramente a sua fé.

Não sou particularmente religioso, mas reverencio os que vi arriscando sua vida dessa maneira – e me enoja ver esta fé ridicularizada em coquetéis em Nova York.

Por que tudo isto é importante?

Porque tanto as pessoas religiosas quanto as seculares fazem um trabalho fantástico em questões humanitárias – mas elas frequentemente não trabalham juntas em razão das suspeitas mútuas. Se pudermos superar este “abismo divino”, poderemos progredir muito mais no combate às mazelas do mundo.

Fonte: The New York Times via O Estado de São Paulo.
Tradução: Ana Capovilla. Revisão: Pão & Vinho.

Desde 2001, Nicholas Kristof é colunista do The New York Times, jornal conhecido por sua postura liberal de esquerda. Publiquei o texto porque achei interessante a percepção que o autor tem dos chamados “guerreiros culturais” estadunidenses (normalmente anglo-saxões protestantes de classe média) que representam uma Igreja que se tornou o bastião da moral e dos bons costumes, mas em grande parte é indiferente com relação às mazelas sociais entre os menos favorecidos. É interessante ver a percepção que o mundo tem da igreja ocidental. É verdade que Jesus nunca disse uma palavra contra a poluição ambiental, mas diante de tais palavas, devemos refletir e pensar: será que nossos adversários estão totalmente errados? A verdade é que o moralismo cristão desprovido de genuínas demonstrações de amor ao próximo é somente “como o metal que soa ou como o sino que tine”. É algo que já não convence o mundo.

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One Comment
  1. cristina permalink
    23 de agosto de 2011 8:14

    GRAÇA E PAZ AMIGO , LI ATENTAMENTE O TEXTO, E EM FACE A UMA FRASE SUA: “É VERDADE QUE JESUS NUNCA DISSE UMA PALAVRA CONTRA A POLUIÇÃO AMBIENTAL…”
    PAREI PARA REFLETIR: ELE TAMBÉM NÃO FALOU SOBRE DIVERSAS COISAS, MAS QUE COMO FILHOS DE DEUS, COM SEMELHANÇA AO CRIADOR, TEMOS QUE COMO POR INSTINTO, UM SENTIMENTO TERNO DE PRESERVAÇÃO. COMO PODERIA UM SERVO FIEL, DESTRUIR AS OBRAS DO SEU SENHOR , SERIA COMO UM PINTOR DESTRUIR SUA OBRA DE ARTE, OU UMA MÃE MATAR SEU FILHO AO NASCER. AO POLUIRMOS NOSSO PLANETA ESTAREMOS DESTRUINDO UMA OBRA DE DEUS .(eu creio na gênese mosaica…com alegoria e tudo mais…).

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