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A industrialização do sagrado

21 de março de 2011

Por Valério Cruz Brittos e Rafaela Chagas Barbosa:

A mercantilização do sagrado é um fenômeno corriqueiro na contemporaneidade, com um grupo reduzido de igrejas liderando empreendimentos dentro e fora da área do divino, ao instituir produções simbólico-religiosas para difundir práticas doutrinárias, aqui pensando o meio evangélico na perspectiva do (neo)pentecostalismo.

Malgrado essa realidade, o universo pentecostal tem em sua gênese a distinção de procedimentos da Igreja católica, como veneração de santos, respeito a imagens e confissão individual para remissão dos pecados, preservando seus preceitos históricos. Com as mudanças socioeconômicas e culturais que o capitalismo desencadeou no mundo, ocorreram reordenamentos nas organizações religiosas. Uma parte dessa estrutura passou a seguir as lógicas capitalistas como forma de sobrevivência econômica, adotando posturas fundamentadas mais no consumismo do que na doutrina, tendo a mídia um papel central em suas dinâmicas.

Nesse sentido, na origem do movimento era impossível imaginar indivíduos indo aos templos realizar apostas divinas ou até mesmo a constituição de uma bancada evangélica como estratégia de articulação, junto ao Poder Legislativo. Há mais de quatro décadas, houve uma expansão neopentecostal, conhecida também como terceira onda frente ao meio pentecostal, que surgiu em 1970, partindo das promessas da sociedade de consumo, do acesso de crédito aos consumidores e das possibilidades de entretenimento criadas pela indústria cultural. As alternativas eram manter-se fiel aos seus princípios de origem, aumentando sua defasagem em relação à sociedade e aos interesses ideais e materiais dos seus adeptos, ou fazer concessões.

O alargamento da Igreja Universal

Destarte, algumas denominações evangélicas subdividiram-se para atender a essa fatia do mercado em franca expansão. O pentecostalismo teve seus desdobramentos até o surgimento do (neo)pentecostalismo. Este último incorporou procedimentos inovadores aos métodos protestantes, como a pregação de cultos por meio da mídia, o firmamento da autoridade do cristão frente ao plano espiritual e a aplicação da Teologia da Prosperidade (TP). Nesse contexto, compreende-se a TP como o conjunto de princípios teológicos que sustentam ter o cristão verdadeiro o direito de obter prosperidade, tanto no âmbito material quanto espiritual, e de exigi-la por meio da doação de ofertas e dízimos para Deus. Assim, o fiel pode, durante a vida presente na Terra, desfrutar de tudo aquilo que lhe é garantido.

No cenário brasileiro, sob a perspectiva midiática, depois do decênio de 1990, quando a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) compra a Rede Record, evidenciam-se o alargamento empresarial desta denominação religiosa no setor de radiodifusão, que na atualidade dispõe da adesão territorial de 85 afiliadas e 14 filiadas.

No exterior, parte do crescimento da Iurd na América Latina, e em alguns países da América do Norte e Europa, é creditada ao alcance midiático nacional e internacional que a Record vem conquistando ao longo dos anos. É válido ressaltar que a gestão e as estratégias construídas perante os cenários culturais de atuação fazem a diferença. Além disso, a Iurd constituiu um complexo de empresas estruturadas nos moldes da indústria cultural, onde os setores fonográfico, literário, radiofônico, televisivo e de distribuição de informações (Unipress Internacional – Agência de notícias, imagens e vídeo), dentre outros, fortalecem o processo comunicativo institucionalizado, entre colaboradores, adeptos e mercado.

O poder comunicacional endossa o discurso de prosperidade, seja para tentar ganhar adeptos, seja para comercializar suas produções espirituais. Cabe observar que a TV serve como reforço comunicacional das mensagens veiculadas pela Iurd, tendo em vista que ela não gera, necessariamente, mudanças (ao contrário da “Igreja Eletrônica” norte-americana) e acaba sendo mais uma plataforma tecnológica para reforçar interesses e ideais do que instrumento de conversões e curas. Somados, o uso dos meios de comunicação e de técnicas de marketing e propaganda, a legitimação da TP e, sobremaneira, o trabalho dos dirigentes e colaboradores, que focam seus empenhos na proliferação da Iurd pelo mundo, asseguram o desenvolvimento da Igreja Universal, podendo projetar economicamente os outros negócios do grupo empresarial do bispo Edir Macedo, como a Rede Record.

Fonte: Observatório da Imprensa.

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