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Conformismo Masoquista?

24 de fevereiro de 2011

John MacArthur não acredita que os levantes que estão se espalhando por todo o mundo árabe vão levar à liberdade que centenas de milhares de manifestantes estão exigindo e afirma que os crentes são ordenados a sujeitar-se a qualquer tipo de governo. O artigo é do Christian Post, traduzido pelo portal O Galileo. Meus comentários estão após o artigo.

John MacArthur

O evangélico influente John MacArthur não acredita que os levantes que estão se espalhando por todo o mundo árabe vão levar à liberdade que centenas de milhares de manifestantes estão exigindo.

“Eu só acho que o resultado de tudo isso é mais instabilidade, mais caos,” disse o pastor do sul da Califórnia ao The Christian Post. “Não acho que o futuro parece ser bom.”

Inspiradas pela revolução de Dezembro, na Tunísia, que levou à queda do seu ditador, as populações dos países vizinhos do Norte da África e no Oriente Médio lançaram protestos semelhantes contra o governo na esperança de conseguir mais liberdade, democracia e mais oportunidades.

Os EUA já se manifestaram, pedindo aos governos que respeitem o direito do povo de se manifestar.

Mas a partir de uma perspectiva bíblica, MacArthur afirmou que os manifestantes estão em desacordo com o mandamento bíblico de “submeter aos poderes, porque eles são ordenados por Deus.”

“Eu preferiria que o governo americano, que tem uma história do Cristianismo, tivesse se levantado e dito: ‘está errado, é proibido para as pessoas fazerem isso, isso é intolerável,” disse ele.

“Eu não estou dizendo que Muamar Kadafi é o melhor líder, eu não estou dizendo que Mubarak é um grande líder benevolente e justo, não quando ele recebeu US $ 70 bilhões em seus próprios bolsos à custa do povo,” esclareceu.

Mas, ressaltou que os crentes são ordenados a viverem uma vida pacífica, sujeitando-se a qualquer que seja que o governo.

Ele continuou: “E a razão é, qualquer forma de governo é melhor do que a anarquia. Para ter uma idéia do que está acontecendo agora – as pessoas estão morrendo, a propriedade está sendo destruída. Isso não pode acontecer. E, inevitavelmente, o que vai sair disso, vai ser menos ordem, mais caos e, talvez, o que vai sair de menos ordem e mais caos é a pior espécie de controle, mais poder dominante.”

O pastor de 71 anos de idade, que foi o autor do recente Slave: The Hidden Word that Reveals the Riches of Your Salvation (Escravo: A palavra oculta que revela as riquezas da sua salvação), sustentou que não é provável que a liberdade pudesse resultar dos protestos em massa.

“Você gostaria de pensar que nada, senão a liberdade iria sair disto. Não foi isso que aconteceu no Irã.”

Novamente, falando biblicamente, MacArthur disse que “a ilusão é que essas pessoas vão obter a liberdade.”

“Mas o que temos que entender é que você é um escravo do pecado ou um servo de Cristo,” explicou. “Nenhum pecador é livre,”… ele está apenas livre para escolher o curso de sua própria condenação, mas não pode fazer nada sobre isso.

“Esta é outra forma de escravidão. Eles vão acabar em outra forma de escravidão, eles vão acabar da mesma forma, pecaminosa, corrupta, insatisfeita, pessoas insatisfeitas levando suas mesmas ansiedades em uma direção diferente. Então esta não é uma solução para nada.”

Seus comentários foram feitos pouco antes da Organização dos Direitos Humanos ter informado que pelo menos 233 manifestantes foram mortos pelas forças de segurança na Líbia. Enquanto isso, Saif al-Islã Kadhafi, filho do líder líbio, Muamar Kadafi, disse hoje cedo que se os protestos anti-governo continuarem, podem levar a uma guerra civil. Ao mesmo tempo, ele disse que se os protestos terminarem, eles poderiam começar a instituir uma série de reformas e até mesmo iniciar as discussões para a constituição, que é inexistente.

Mesmo que isso possa significar a possibilidade de maior liberdade religiosa para a pequena minoria cristã, MacArthur não vê ganhos enormes, pelo menos para a Igreja, a esse respeito.

Ele apontou para países como Japão e aqueles na Europa Ocidental que garantem a liberdade de religião, mas tem poucos Cristãos ou uma igreja morrendo. Em contraste, o Cristianismo na China, onde há inúmeros relatos de perseguição religiosa e de liberdade limitada, está explodindo com dezenas de milhões de crentes.

“Eu não acho que a liberdade religiosa é ainda um problema para o avanço da Igreja,” disse MacArthur. “A democracia, a liberdade de religião ou a perseguição – se você tivesse que escolher seu veneno e acho que você poderia querer escolher a perseguição porque você tem uma Igreja mais pura.”

Em última análise, o Reino de Deus avança sem relação com o governo, afirmou. Tudo que diz respeito aos poderes que estão no local acontece “dentro dos propósitos de Deus e Deus irá governar por essas coisas e ignorar essas coisas.”

Assim, desejar liberdade “não é uma justificação para este tipo de revolta popular e desobediência e de derrubar governos.”

“Afinal, quem disse que a democracia é a melhor forma de governo?” disse ele. “Não importa qual a forma de governo é, a Bíblia não defende nada, mas uma teocracia. Qualquer forma de governo vai se auto destruir porque você está lidando com pessoas corruptas, pessoas pecadoras.”

Fonte: Christian Post via O Galileo.
Título original: Famoso Pastor diz que Protestos Contra Ditadores vão Contra Bíblia.

Meus comentários a seguir.


O que mais me chama a atenção neste artigo é a total indiferença de John MacArthur quanto ao clamor do povo do Oriente Médio. MacArthur apoiou a guerra de George W. Bush ao Iraque, quando os EUA (sob falsas acusações de que o Iraque estaria armazenando armas de destruição em massa), invadiram o país para “desmantelar a máquina terrorista” de Saddam Hussein (a ligação entre Hussein e os ataques terroristas de 11 de setembro nunca foram comprovadas) e “promover a liberdade e a democracia” no Oriente Médio. Entretanto, ele se recusa a reconhecer a importância dos protestos legítimos dos povos árabes em prol de reformas democráticas e de direitos humanos.

Paradoxalmente, MacArthur apoiou uma guerra que todos sabem que foi movida a petróleo, mas acusa os povos árabes (que nem cristãos são) de estarem violando um mandamento bíblico quando se engajam em demonstrações pacíficas de desobediência civil. Essa é uma atitude inconsistente, do ponto de vista teológico, e hipócrita do ponto de vista político-social.

É muito fácil dizer que a Igreja não ganha com a abertura político-religiosa de regimes autoritários quando não somos nós, nossos pais, irmãos ou filhos que estão sendo presos e torturados por professarem a fé cristã. É verdade que a perseguição muitas vezes purifica a Igreja, mas a Bíblia não nos dá bases para esta teologia conformista e masoquista que transforma heróis em vilões e ditadores em deuses.

Paulo nos orienta a orar pelo rei, mas também nos diz que devemos aspirar pela paz e por vida sossegada (1 Tim 2:14). E, diante da opressão, não há absolutamente nada na Bíblia que nos proíba de engajar-nos em manifestações pacíficas de protesto. A violência no Oriente Médio, a que o pastor se refere, em grande parte está sendo causada pelos tiranos e não pelo povo.

Estaria Ghandi equivacado ao, pacificamente, resistir ao Império Britânico na Índia? Ou Bonhoeffer quando protestou contra o nazismo?  Perguntei a MacArthur via Twitter se, uma vez que a desobediência civil pacífica viola o mandamento bíblico, Martin Luther King Jr. “pecou” ao encabeçar a Marcha por Direitos Civis. Não espero receber resposta, mas se receber, certamente a publicarei aqui no blog.

MacArthur, anglo-saxão cuja raça e cor da pele nunca lhe causaram nenhum problema, talvez teria uma opinião muito diferente a respeito da desobediência civil se fosse um negro vivendo no Sul dos EUA nos anos 60, ou um judeu vivendo na Alemanha nazista de Hitler.

Na Declaração de Independência dos EUA (4 de julho de 1776) consta que a liberdade e a aspiração pela felicidade são direitos inalienáveis ao ser humano. Este princípio se aplica não somente em solo americano ou aos ancestrais de MacArthur, que redigiram o documento, mas a todos os povos da terra. A Declaração de Independência foi escrita em tempos em que os EUA se engajaram na luta contra a opressão dos britânicos. Minha pergunta a MacArthur seria se os EUA são uma nação sem legitimidade diante de Deus, uma vez que seu povo se rebelou contra a Coroa Inglesa …

De fato, ninguém pode saber com absoluta certeza o resultado dos protestos no Oriente Médio a curto prazo. Até mesmo os mais otimistas reconhecem o risco de que certos tiranos sejam substituídos por regimes de orientação islâmica radical, a exemplo do que ocorreu no Irã. Mas MacArthur precisa entender que não estamos mais vivendo em 1970. O próprio Irã já enfrenta protestos da população, descontente com eleições fraudulentas e privações de liberdades básicas ao ser humano.

A revolução das mídias sociais está integrando o mundo de formas sem precedentes na história, tornando cada dia mais impossível aos regimes mais fechados viverem como há 40 anos atrás. Diante disso, a insatisfação dos povos no Oriente Médio demonstra ser como água fervente a fogo baixo, que aos poucos começa a borbulhar e, em pouco tempo, não poderá mais ser contida pelos tiranos. Não é necessário ser um expert para entender que é somente uma questão de tempo para que regimes absolutistas e opressores dêem lugar a reformas nos âmbitos democráticos e de direitos humanos. Se isso demorará 5 ou 20 anos, ninguém sabe. Mas tais levantes são o começo de um processo pelo qual a Europa monárquica e a America Latina militarista já passaram. Por que não o Oriente Médio, sr. MacArthur?

© Pão & Vinho

Este texto, com excessão do artigo cujas fontes são mencionadas, está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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7 Comentários
  1. Leonardo permalink
    24 de fevereiro de 2011 23:24

    Hugo,

    Já vi vários videos de MacArthur e li alguns de seus livros.

    Tenho uma série suspeita quando líderes cristãos, não só ele, mas outros, que tem suas opiniões recebidas e propaladas de forma acrítica, só por causa do curriculo dele (conservador, reformado).

    O vídeo de Philip Yancey sobre seu livro “Rumores do outro mundo” expõem a relação da direita americana com a igreja (instituição), sobretudo em relação aos temas mais sopesados, enquanto outros são jogados para a zona fastasma do consciente.

    Há quem critique o proeminente escritor americano, mas convenhamos, ele sabe pensar fora da caixa, isso sabe!

    Deus o abençoe

  2. Victor permalink
    10 de março de 2011 18:45

    “E como os dedos dos pés eram em parte de ferro e em parte de barro, assim por uma parte o reino será forte, e por outra será frágil.”

    MacArthur não foi, de modo algum, indiferente, ele apenas projetou sua posição do ponto de vista bíblico, se você olhar do mesmo ponto de vista, certamente compreenderá qual sua posição. A questão é que não se pode derrubar um reino a força, pois isso é rebeldia. Além do mais, há uma neblina por trás desses acontecimentos, que escondem tumultuadores e facções instigando o povo contra os governos no Oriente. Kadafi expressou em uma entrevista que há entre o povo militantes que causaram vandalismo colocando o povo contra o governo e o governo contra o povo. Parece coisa de menino, um bate no outro e o terceiro que está de fora fica instigando.

    A democracia, de fato, concordo, não é a melhor forma de governo, tão pouco a autocracia, mas tudo que é maleável fica a mercê de qualquer um. Esse um, é o governante mundial, que tantos políticos internacionais almejam para ditar as regras no mundo moderno. Do ponto de vista das profecias bíblicas, basta observar que todos os governos absolutistas estão caindo, dando lugar a uma forma de governo “democrático”. Governos maleáveis, povo acomodado.
    Sua preocupação vai muito mais a fundo do que tudo isso. Mas os que não acreditam terão que viver para saber. Em breve todos verão não só a resolução destes movimentos, mas uma mudança radical no mundo inteiro. Muitos serão enganados por um lisonjeador, mas os servos de Deus sabem quem ele de fato é. Não seja um cristão secularizado, viva a palavra e alimente diariamente e estas e muitas outras coisas ficarão muito claras.

  3. 10 de março de 2011 19:34

    Victor,

    Não ignoro os resultados futuros da formação de um governo globalizado, com bases em democracias pluralistas. Esse é o rumo que o mundo tomou, e nada podemos fazer quanto a isso. Entretanto, não temos a agenda de Deus na mão para simplesmente cruzar os braços, fechar os olhos e, como Pilatos, lavar as mãos diante da injustiça até Jesus voltar.

    Minha teologia não ignora o desfecho das profecias escatológicas, mas não me permite ser tão futurista a ponto de ignorar o pranto dos necessitados e dos oprimidos no presente. Somos cidadãos do Reino, mas também cidadãos deste mundo e nossa participação no processo político ainda conta. Se sou demasiadamente “secularizado” para você por afirmar isso, saiba que MacArthur seria o primeiro a concordar com minha afirmação, pois ele (como a maioria dos crentes americanos) fez uma aliança com o Partido Republicano, e inclusive apoiou a guerra de Bush no Iraque. A diferença entre nós neste sentido é que não acredito em alianças profanas entre a Igreja e partidos políticos.

    Esse tipo de argumento de que qualquer forma de resistência ao governo é rebeldia foi o que impediu a Igreja Evangélica de ter sido uma voz profética nos tempos da ditadura brasileira. Já que menciona o “comodismo” em democracias abertas, como você descreveria a atitude dos evangélicos brasileiros nos tempos da ditadura militar, acomodados por uma teologia que nos ensina a nos conformarmos com qualquer tirano e a nos calarmos diante da injustiça? Será que os profetas do AT seguiriam esta receita?

    Não endosso a luta armada, a exemplo de alguns padres marxistas da Teologia da Libertação. Estou falando de protestos pacíficos, como os que ocorreram no Egito e na Tunísia. Isso se chama “desobediência civil”. O pastor Martin Luther King Jr nos mostra que é possível protestar contra o regime de forma pacífica e cristã. Os comentários de MacArthur são generalizadores e totalmente inconsistentes com a história de seu próprio pais.

    Se para você, dizer que a Igreja não se beneficia com a liberdade não é ser indiferente com as diversas torturas, prisões e humilhações pelas quais nossos irmãos da Igreja Perseguida passam, talvez nossas definições de “indiferença” sejam extremamente diferentes. Como disse, é muito fácil dizer este tipo de coisa quando não é você ou os seus entes queridos que estão sofrendo nas mãos dos ditadores por causa de sua fé.

    Quanto à violência que se desencadeou na Líbia, algumas observações:

    1) Este seu argumento de que a revolução na Líbia é coisa de gente que está tumultuando e manipulando as massas é o mesmo argumento usado por Kadafi e seus comparsas que tratam o povo líbio como um bando de crianças e retardados mentais. Não ignoro a existência de instigadores oportunistas na Líbia, mas será que 40 anos de uma ditadura já não são suficientes para cansar um povo? Depois de 40 anos, é mesmo necessário que alguns rebeldes instiguem o povo contra o regime? Vai você também dizer que a Al Qaeda está dando alucinógenos aos jovens, como fez Kadafi? Esse argumento desrespeita a inteligência dos diversos médicos, advogados, diplomatas e líderes civis da Líbia que encabeçam o conselho provisório.

    2) A Líbia não é um país de cristãos. Não se pode esperar dos líbios o mesmo comportamento que os negros americanos tiveram quando protestaram contra o Apartheid nos EUA. Não obstante, o protesto dos líbios é legítimo e poderia ter permanecido pacífico, como no Egito, se o mentecapto do Kadafi não se utilizasse de tanques e aviões de guerra para bombardear sua própria gente.

    3) Existe uma diferença entre a vontade absoluta e a vontade permissiva de Deus. A violência na Líbia pode não estar em sua vontade absoluta, mas pode estar em sua vontade permissiva (o tempo dirá). Até mesmo os ditadores têm um tempo pré-determinado por Deus para governar. Atos 17:26 nos diz que Deus controla soberanamente a História da Humanidade, pré-determinando os limites e os tempos de habitação de cada nação. A maioria absoluta das nações foram formadas às custas de sangue, de lutas entre povos que batalharam pela conquista ou pela preservação de um território. A maioria dos regimes estabelecidos se estabeleceram também às custas de sangue (até mesmo as mais modernas democracias). Isso não nos dá razão para dizer que Deus aprovou e instigou todos os banhos de sangue da história (a colonização das Américas, a Queda da Bastilha, a Guerra da Independência dos EUA, etc), mas que soberanamente governou estes eventos, dentro de sua vontade permissiva, em prol de seus propósitos pré-estabelecidos. Penso que isso está acontecendo no Oriente Médio agora, como fruto da própria globalização a que você se refere.

  4. Victor permalink
    11 de março de 2011 17:08

    Ok Hugo. Não tome, por favor, “secularizado” como ofensa, nem os demais leitores. Seu ponto de vista está correto. Refiro-me aos indícios irrefutáveis de uma secularização da igreja que não é de agora, o que muitos líderes, ministros e pastores fazem em seus ministérios é exatamente tomar atitudes seculares com respeito à igreja (local). A atitude do rebanho é um reflexo dos pastores. Não vejo de alguma forma Jesus mandando que seus discípulos saiam pelas ruas protestando por um mundo melhor, pelo contrário, quando Jesus profetizou a respeito da destruição de Jerusalém, exortou aos seus que fugissem. Estaria ele incitando a covardia? Certamente não? Bem aventurados os pacificadores e aqueles que tem sede de justiça. Mas a sua recompensa não é prometida neste mundo, embora possa se iniciar aqui.
    Bem, não se pode descartar que muitos morreram, foram machucados e há prejuízos vários. Não há indiferença nenhuma quanto a isso. O que se pretende fazer perceber, embora não se esteja falando de países fundamentalmente cristãos, mas em sua maioria muçulmanos, não dá pra convir com a atitude secularizada da igreja de, ao invés de pregar o evangelho, sai pelas ruas em protexto por um mundo mais confortável. Não se observa nenhum versículo sequer em Atos que demonstre alguma atitude dos primeiros cristãos dessa magnitude. Enquanto, naquela época os judeus ansiavam pela libertação política, econômica, cultural e social perante Roma, o messias que eles esperavam era um governante político (secularização). Desprezaram o verdadeiro Messias por querer a restauração do reino de Israel. A atitude de muitos judeus naquele período é a mesma ainda hoje. O mesmo ocorre em todas as nações ao redor do mundo. Essa é a secularização que despreza o Reino de Deus para reivindicar um mundo mais sóbrio. O mundo cambaleia e não há homem nem nação que o segure, pois todos estão igualmente bêbados com essas doutrinas revolucionárias que tem-se misturado com as doutrinas da igreja em todo o planeta.
    Isto também faz parte da vontade permissiva do Senhor.

    De fato, não há indiferença para com os irmãos que se encontram, não somente lá, mas em muitos países árabes onde são perseguidos por causa de sua fé.
    Sei, irmão que muitos sofrem por causa disso, não ignoro, creio que MacArthur também não. Sua preocupação poder ser contemplada também no seu livro [i]Com Vergonha do Evangelho: Quando a Igreja se Torna como o Mundo[/i]. Compreendi seu ponto de vista sem ser omisso com o teu. Mas se há de fato cristãos envolvidos, os tais deveriam não se omitir, mas evitar um confronto ou manifesto direto contra autoridade. Nada justifica um banho de sangue, muito menos de inocentes, mas quando um povo se rebela é o que acontece, por isso deve ser evitado. Ora, que melhora pode acontecer daqui em diante?

    Bem, como havia comentado em um blog, que relatava os acontecimentos no Egito, a respeito do que aconteceria quando seu líder caísse, eis que hoje mesmo, as notícias são: Cristãos e Muçulmanos em pé de guerra pra ver quem influencia o governo no Egito. Não foi nenhuma “profetada”, mas um pouco de história e bom senso, pois tudo debaixo do céu é a mesma coisa sempre.
    Além do mais, a palavra de Deus nos ensina a não resistir aos perversos; eles mesmos cavam sua própria cova. Kadafi cavou a sua e agora vai ter de engolir muita terra.
    Os cristão que se envolveram nos protestos deveriam saber que estavam se expondo e agindo rebeldemente diante de Deus, apesar de Ele permitir, não é seu desígnio que sangue seja derramado, muito menos para derrubar um governante, seja ele autocrático, ditatorial, etc., Ele mesmo tem seus meios. Quando os judeus se levantaram contra Roma, muitos morreram, muitos foram dispersos. O que ganharam com isso? …?…?…
    Se já estavam 40 anos nessa situação, somente agora é que surgiu essa oportunidade? Ou forma influenciados pela mesma onda que varre o Oriente? Os mesmos interesses políticos que iniciaram essas reviravoltas todas no Oriente, são os mesmo que operam agora. Aliás, os mesmo que seguem unindo bancos, unindo religiões e sociedades pelo mundo fora. A igreja não tem parte nisso, mas tem responsabilidades diante disso. Que orientem os fiéis a não participar de tais atos.
    Não se trata de desprezar o sofrimento alheio por não saber na própria pele o que eles sentem, nem ser indiferente, mas é uma questão de entre a cruz e a espada, literalmente.

    Certo ditado representa fielmente o inverso do que cita: ‘Vox populi, vox Dei’.

  5. 11 de março de 2011 18:43

    Victor,

    Com relação à indiferença de MacArthur, volto a dizer que é risível argumentar que a Igreja não se beneficia da liberdade religiosa. Não vou mais elaborar sobre isso.

    Protestar pacificamente contra os poderes instituídos não equivale à luta armada. Não penso que se trate de “rebeldia” e sim de exercer nossa cidadania. Paulo era cidadão romano, ao contrário de muitos discípulos. Apesar de não ser nenhum militante, pelo menos em uma ocasião fez valer seus direitos de cidadão. Estes direitos são conquistados atravez do voto consciente e, em alguns casos, pela militância socio-política. E não vejo na Bíblia absolutamente nenhum mandamento que nos proíba de exercer nossa cidadania desta maneira.

    Atos 17:26 me ensina que Deus ainda está no controle do cenário geopolítico e me inspira a estar atento sempre que manifestações populares como as do Oriente Médio ganham a dimensão que têm ganhado. Como disse, o pastor Martin Luther King Jr revolucionou e mudou a história dos EUA, sem utilizar-se de armas ou qualquer outra forma de violência. Como cristão, não me engajaria em uma revolta armada, mas certamente em protestos pacíficos como os que os caras pintadas fizeram na década de 90 contra Collor de Mello.

    Se ler meus artigos a respeito dos problemas no Oriente Médio, verá que nunca disse que o processo pelo quais os árabes estão passando teria bons resultados imediatos. Mas disse que pode ser o começo de uma reforma pela qual a Europa monárquica e a America Latina militarista já passaram. Vejo com bons olhos esta abertura, tome ela 5 anos ou 10 anos para se consolidar, e penso que Deus está soberanemente conduzindo a história das nações conforme a seus propósitos.

    Ainda não entendo o que você quer dizer exatamente com “atitudes seculares”. Se você se refere a um obreiro expresser uma visão política e ideológica, penso que não há nenhum problema desde que não se crie uma “doutrina” em torno de uma determinada filosofia política e o presbitério não seja usado como uma plataforma eleitoral que beneficie um ou outro partido. Penso que a carreira e o ativismo politicos são totalmente lícitos ao cristão, desde que algumas regras sejam respeitadas no tocante à separação entre o Estado e a Igreja. Já escrevi sobre isso anteriormente. O link está aqui: http://paoevinho.org/?p=1351

    Quanto a Jesus pedir para que seus discípulos fugissem diante da destruição de Jerusalém, se esta fosse a regra deveríamos todos abandonar a civilização e viver em cavernas, esperando o surgimento do Anticristo.

    Victor, você não pode transformar uma eventualidade profética em uma regra doutrinária. A destruição de Jerusalém se deu há exatos 1981 anos atrás. Depois disso, não há nada na Bíblia que nos dê bases para um isolamento socio-político-cultural. O espírito da profecia é o testemunho de Jesus, e devemos aprender a discernir os tempos em que vivemos e agir apropriadamente de acordo com esta revelação. Haverá um momento em que teremos que jogar a toalha, e os sinais nos alertarão, mas enquanto isso, devemos seguir nossas vidas normalmente e cumprir com nossos deveres de cidadãos deste mundo também.

    Ironicamente, vivemos neste mundo normalmente, totalmente inseridos no contexto secular, às vezes como se Jesus fosse demorar para voltar: trabalhamos, guardamos dinheiro no banco, mandamos nossos filhos à universidade, etc. Até então, ninguém se lembra de “Jerusalém”. Até mesmo as Igrejas estão construindo catedrais enormes, como se fôssemos ficar aqui para sempre. Entretanto, quando o assunto é política, aí começa a “parousia evangélica. Nos tornamos sintomaticamente apocalípticos e preferimos nos isolar cultural e socialmente, com medo do secularismo e da globalização, do que expresser nossas opiniões e influenciar a sociedade em que vivemos com nossos valores cristãos e nossa fibra moral…

    Já entendemos que nenhum politico é o nosso Messias, que o sistema deste mundo não pode ser redimido, e que o Reino de nosso Messias não é deste mundo. Mas isso nos dá bases para o isolamento socio-político-cultural?

    Como cristãos, nossa participação ou nossa negligência no cenário politico social determinará o legado que deixaremos a nossos filhos. Sim, porque se Jesus não voltar amanhã, para mim ainda importa quando um grupo ativista gay quer inserir propaganda homossexual nas escolas, ou quando novas leis são aprovadas para limitar a liberdade religiosa e de expressão.

    E penso que isso não é “desprezar o Reino de Deus” por um mundo terreno melhor. Quem disse que não podemos ter os dois enquanto a hora de nossa redenção não chegar? O segredo é manter “um olho no gato e outro no peixe”, como dizia meu pai. Temos que administrar o conflito de sermos cidadãos de um mundo porvir, ao mesmo tempo em que exercemos nossa cidadania neste mundo também. Não podemos depositar todas nossas esperanças neste mundo, mas tampouco podemos nos tornar ultra-espirituais como se nada mais neste mundo nos afetasse.

    Uma das regras básicas da hermenêutica é a de que a Bíblia se completa a si mesma. Se Atos dos Apóstolos não nos mostram os discípulos participando do processo socio-político é somente porque esta não era a ênfase que o Espírito tinha quando redigiu este livro. Mas o AT nos mostra profetas que se levantaram contra a injustiça social de seu tempo – Isaias e Amós, por exemplo.

    Até mesmo no NT, você já parou para pensar que entre os convertidos da Igreja neotestamentária certamente havia pessoas de todas as classes sociais e transfundos variados? Esta é somente uma conjectura, mas você pode conceber a idéia de que nas igrejas fundadas por Paulo houvesse algum senador ou outro tipo de politico atuante? Ou você crê que para exercer a fé cristã, deixar a política era um pré-requisito?

    Se em sua comunidade, um politico se convertesse, você o aconselharia a deixar a política ou a servir a Deus de forma íntegra dentro de sua esfera professional? Qual seria o conselho bíblico?

  6. Victor permalink
    14 de março de 2011 9:53

    Hugo,

    o fato é que, sendo conveniente ou não para o cristão se envolver, nós vimos os resultados, muitos feridos e mortos. De modo nenhum defendo o isolamento que você citou acima, seja em qual área for, pois não podemos perder a fé onde quer que seja, entre pacifistas ou entre profanos, idólatras ou assassinos, a fé sempre permanece.

    Justamente aquilo que você escreveu sobre o que comentei a respeito de “atitude secular” é o que acaba acontecendo, muitos líderes tomaram o pragmatismo como doutrina substituindo o ensino bíblico por concepções idealistas, sociais dentre outras.
    Nós que somos cristãos, sabemos que nosso reino não é deste mundo, o problema é que muitos outros cristãos acabam esquecendo disso.

    Bem sei que Paulo não deixou de lado o exercer sua cidadania, no entanto qual era o objetivo dele? Por que apelou ele para César? Porque queria libertação de Israel politicamente, ou ser testemunho perantes reis e governadores como Jesus ordenou aos seus discípulos? É verdade, “um olho no peixe e outro no gato”
    Quanto ao conselho: O mesmo quando o carcereiro trêmulo diante de Paulo na prisão; crê no Senhor Jesus e será salvo tu e tua casa. Em outras passagens Paulo saúda os irmãos, e também diz a respeito dos ‘da casa de César’. Muitos romanos se converteram e se reuniram a ele. Não creio que eles foram vistos com bons olhos diante de seus líderes, no entanto é certo que eles devem ter permanecido no seu emprego, para pudessem persuadir mais pessoas. Não defendo o isolamento, mas a modinha agora é ser “evangélico”, irmão, e muitos são os que se perdem achando que estão no caminho certo. Creio que devemos ser mais enfáticos ao Reino do que aos questionamentos e desilusões do mundo. Principalmente os da mídia e meios de comunicação.

    Todas as coisas nos são lícitas, mas nem todas convém. Somos livres do mundo, mas escravos de Cristo, escravos libertos de Cristo.

    A paz seja contigo.

  7. 15 de março de 2011 23:23

    Victor,

    Os maus resultados de uma revolução armada feita na Líbia por muçulmanos não nos podem fazer ignorar os bons resultados de um protesto feito de maneira cristã nos EUA (O Movimento por Direitos Civis).

    Quanto a Paulo, eu já havia dito que ele não era ativista, mas se utilizou de direitos que foram conquistados por meio do ativismo político. Isso nos mostra que enquanto estamos neste mundo, as decisões na arena política nos afetam, razão pela qual não devemos deixar este trabalho somente para os incrédulos. Todo cristão deve orar por sua nação, pois isso é um mandamento bíblico. Quanto ao ativismo, assim como o celibato, não é necessariamente para todo o cristão, mas para aquele que tem a vocação para o bem comum.

    Se você não defende o isolamento, somente condena os excessos do ativismo político (que se corrigem com cuidado pastoral e não com tabus e proibições), deverá concordar comigo então que o ativismo socio-político é lícito ao cristão e a carreira política é tão legítima quanto qualquer outra. Se convém ou não convém, cabe a cada cristão determinar, de acordo com sua vocação para o bem comum e a vontade de Deus para a sua vida. O que não podemos fazer é criar tabus em cima do tema.

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