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Confissão: a força de nossa fraqueza

25 de janeiro de 2011

Por Pedro Arruda.

Cada pessoa tem pontos fortes e pontos fracos, o que é natural a todos. De acordo com a valorização que a sociedade dá a determinada característica, o indivíduo será potencialmente considerado bem-sucedido ou não. Porém, quando nos convertemos, torna-se necessário que tais características sejam submetidas ao Espírito para que o fruto produzido venha da vida de Jesus e não de nossa força natural.

Temos uma tendência natural de exibir os pontos fortes, tentando, consciente ou inconscientemente, impressionar os outros. Se formos mais a fundo, descobriremos que a motivação por trás do show de pontos fortes pode ser nossa tendência ainda maior de esconder os pontos fracos. Em resumo, temos dificuldades em lidar, de maneira adequada, com nossas características.

Entendendo a engrenagem

Uma engrenagem é composta pela intercalação de dentes e vãos para possibilitar o encaixe de outra peça, dando condições ao funcionamento. Uma superfície lisa e plana impede qualquer aderência ou conexão, deixando a peça isolada. Dessa forma, o sistema de engrenagem representa bem o funcionamento que Deus nos propôs, utilizando exatamente o padrão humano de pontos fortes e fracos.

É um equívoco considerar que nossa utilidade ao ministério resume-se apenas aos aspectos em que somos fortes. Ao contrário do que se imagina, nossa força poderá servir-nos de tropeço conforme nos exemplifica Paulo. Com personalidade extremamente determinada e zelosa, como vemos em sua conduta antes da conversão, Deus teve de tratar severamente com sua força. Depois de convertido, ele passou a ser forte nas revelações de Deus e precisou sofrer o “espinho na carne” como medida de segurança para que não se ensoberbecesse. Assim, sentindo a debilidade pessoal, ele pôde permitir a manifestação do poder de Deus, aperfeiçoado exatamente em sua fraqueza. Parece um tanto estranho e ilógico, mas Deus precisa de nossa fraqueza para dar espaço à manifestação de seu poder.

Não é salutar a tendência de valorizar as qualidades naturais antes de passarem por um tratamento do Espírito Santo. Moisés teve de desfazer-se de sua força natural, esperando 40 anos no deserto até que ela se esvaísse. O mesmo ocorreu com Paulo, que curtiu um retiro de 14 anos na Arábia entre a conversão e o início definitivo de seu ministério. Tempo perdido? Não, tempo necessário para a mudança de caráter essencial à nova vida. Ao contrário da força, a fraqueza torna-nos dependentes de Deus por intermédio das pessoas. Assim como Deus condicionou a execução de seu plano à dependência das pessoas, ele espera o mesmo de nós. A fraqueza deve servir de abertura para outros participarem de minha vida, e, quando isso acontece, inevitavelmente, eu participo da vida do outro como num sistema de troca.

É equivocada a ideia de que o pobre necessita do rico para viver. Muitas vezes, pode ser exatamente o oposto, pois, na riqueza do rico, encontra-se a pobreza dos pobres. Jesus disse, com muita propriedade, que o reino de Deus é dos pobres de espírito e não dos ricos. Henri Nouwen nos dá uma definição bastante interessante desse tipo de pobre: aquele que reconhece que tem falta e está disposto a receber. O rico de espírito, ao contrário, já se basta em si mesmo, não havendo espaço, em seu coração, para receber coisa alguma. Nele, não há disposição para reconhecer os erros e os pecados por entender que isso o enfraquece e obriga-o a tomar decisões que não lhe agradam. Assim, inviabiliza até o recebimento do perdão.

A quem confessar

A compatibilidade da pobreza e da fraqueza com o reino de Deus é o contexto no qual situa-se a confissão. Há necessidade de uma disposição honesta para examinarmos a confissão à luz da Palavra de Deus, frente à doutrinação sofrida por esse assunto. Há duas posições clássicas bem distintas. De um lado, os católicos adotam a prática de se ter um confessor – no caso, o padre – que, após ouvir a confissão dos pecados, pronuncia absolvição ao confessante. Em oposição, os protestantes praticam a confissão exclusivamente a Deus, tendo em conta ser o único que pode perdoar pela intermediação de Jesus Cristo entre os homens e Deus.

No entanto, quando examinamos a prática da confissão na Bíblia, verificamos que os confessantes faziam-na por intermédio de homens. Não há confissão impessoal e secreta. Uma única menção de confissão de pecados diretamente a Deus é feita por Davi (Sl 32.5), que, na própria menção, acaba tornando-a pública. Outro exemplo de confissão feita diretamente a Deus é a de intercessores, como Daniel, Jó e outros, mas que dizia respeito ao pecado de outros homens ou da nação à qual pertenciam. A confissão do pecado pessoal era feita a outra pessoa como recomenda Tiago 5.16: “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros”.

Jesus, nos dias de sua encarnação, não se valeu da natureza divina para realizar seu ministério. Tudo o que fez foi como homem plenamente obediente à vontade de Deus. Dentre os feitos, um dos mais polêmicos se deu quando disse ao paralítico que fora conduzido à sua presença através do telhado que seus pecados estavam perdoados. Em seguida, curou-o para demonstrar que o “Filho do homem” (ressaltando sua humanidade) tinha “sobre a terra autoridade para perdoar pecados”, desafiando os escribas que o julgavam como blasfemador e diziam que só Deus podia perdoar pecados (Mc 2.1-12). Aqui, como nas outras ocasiões, Jesus não usou de sua prerrogativa de ser Deus, mas agiu como Filho do homem. Dessa forma, ensinou-nos que, pelo Espírito Santo que viria depois, faríamos as mesmas obras e até maiores (Jo 14.12), o que, evidentemente, não excluía perdoar pecados conforme instruiu explicitamente em João 20.23: “Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; se lhos retiverdes, são retidos”. Obviamente, nesse caso, não estava dando prerrogativa ao ofendido para reter os pecados de seu ofensor pessoal uma vez que, ao ofendido, só cabe perdoar assim como foi perdoado (Mt 6.12).

O que é andar na luz?

A confissão remete ao perdão, pois, para Deus, em sua grande misericórdia, é uma questão de causa e efeito. Confissão e perdão de pecados estão intimamente ligados à comunhão. Não podia ser diferente, pois a comunhão tem como pré-requisito homens sem pecado, habilitados à moradia do Espírito Santo, que é o agente promotor da vontade de Deus. De acordo com 1 João, comunhão, luz e verdade estão de um mesmo lado, e pecado, mentira e trevas, do outro. “Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1 Jo 1.7).

Andar na luz significa estar visível e exposto, nada escondido. Assim como Deus revelou-se a nós por meio de Jesus, nós também devemos revelar nosso interior. Em outras palavras, devemos ter pessoas, ao nosso lado, que saibam sobre nós tanto quanto nós mesmos. Para estas, tudo deve ser revelado e nada ocultado. Aqui também se aplica a promessa de Jesus de estar presente sempre que dois ou três se reúnam em nome dele (Mt 18.19-20). Contudo, devemos considerar que estar juntos em nome de Jesus, na luz como ele está na luz, significa que os interesses dele são a causa prioritária e não os projetos pessoais. Em decorrência disso, nada pode ser obscuro entre tais pessoas. Ora, a principal causa de Jesus é fazer a vontade do Pai.

A confissão secreta e impessoal, como normalmente é praticada, pode servir de pretexto de chantagem a Satanás, ameaçando desnudar-nos. Com isso, ele pretende enlaçar-nos num acordo tácito pelo qual ele preserva nossos segredos enquanto mantemos nossa vida espiritual do jeito que está. Quando encontramos ambiente para confessarmos com pessoalidade – e o fazemos –, experimentamos o sabor da liberdade. A única coisa que lamentamos é: “Por que não fiz isso antes?”.

Humanamente, a confissão é uma utopia total. É milagre de Deus correspondendo a um ato de fé por excelência de alguém que enfrentou a desconfiança e iniciou o processo. Dispor as minhas fraquezas é abrir a entrada a outros. Nesse caso, a fraqueza é como o vão que serve de espaço ideal para o dente forte da engrenagem do outro. À exposição da fraqueza do outro, ofereço o dente forte de minha engrenagem. Assim, o Espírito Santo conseguirá dar movimento à Igreja para que ela caminhe ao encontro do Senhor. Maranata, ora vem Senhor Jesus!

Para não produzir efeitos contrários, algumas recomendações de ordem prática:

  • as pessoas que vão compartilhar essa experiência devem equivaler-se em maturidade e ter um compromisso radical com a vontade de Deus;
  • o mais maduro na fé pode receber a confissão de alguém mais novo, mas o contrário não convém;
  • a quantidade de pessoas não deve ser muito ampla para permitir total liberdade, mas não reduzida apenas a uma dupla que faz troca de confidências, para não desembocar em cumplicidade ou consolo humano em detrimento à vontade de Deus. Imagino que o ideal seja mais duas ou três pessoas além do confessante;
  • esses pequenos grupos para confissão não devem ser mistos, mas masculinos ou femininos;
  • a confissão deve ser sempre espontânea e não obrigatória, podendo ser periódica ou quando necessária;
  • a confissão precisa ter caráter de pessoalidade; por isso, o confessante não deve escolher estranhos como confessores, mas alguém que participa de seu cotidiano, possibilitando o acompanhamento;
  • a primeira finalidade da confissão é a liberação do perdão e o acolhimento, seguidos de apoio necessário a uma vida de santidade, em conformidade com a vontade de Deus;
  • o confessante não deve ter a expectativa de ser também um confessor para quem o ouviu, só se for procurado para tal. Ou seja, o fato de alguém confessar não gera obrigação ao que ouviu a confissão de abrir-se reciprocamente;
  • o sigilo deve ser total. Absolutamente nada do que o confessor ouviu em confissão deve ser dito a alguém – nem mesmo ao cônjuge. É um segredo entre o confessante, os confessores e Deus. Sem esse pacto, o campo fica aberto ao inimigo. Mesmo o confessante que, por infelicidade, tenha sido traído em sua confiança não tem o direito de abrir segredos que detenha como confessor, ainda que do próprio traidor;
  • o bom senso para considerar a vontade de Deus deve prevalecer. Essa é uma ação espiritual e, como tal, deve ser considerada; em outras palavras, não se trata apenas de compromisso com pessoas, mas principalmente com Deus. A oração, inexoravelmente, deve fazer parte desse momento.

Fonte: Grupo News.

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2 Comentários
  1. Honorival permalink
    6 de fevereiro de 2011 18:09

    Muito bom. Bom seria se todos que prefessam a fé em Jesus tivessem a maturidade de entender isso e praticar com responsabilidade. Muitos a tem, graças à Deus.

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