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A profecia do rabino Judá ben Samuel

5 de janeiro de 2011

Muitos certamente estão se perguntando quem foi o Rabino ben Samuel, citado na mais recente mensagem de Neuza Itioka à Igreja. A título de esclarecimento, não sou fã da “apostila” e não estou de acordo com algumas de suas práticas e crenças. Entretanto, penso que seria interessante conhecermos suas fontes na mensagem em questão.

Registre-se uma vez mais que a profecia sobre o ano 2017 não é de Itioka. Supostamente foi feita há quase 800 anos atrás.1

Quem foi Judá ben Samuel?

Judá ben Samuel de Regensburg (1140 – 1217) foi um rabino judeu alemão que, antes de sua morte  em 1217 d.C., supostamente profetizou a respeito da nação de Israel.

Ben Samuel teria profetizado que o Império Otomano turco reinaria sobre a Cidade Santa de Jerusalém por oito jubileus. Um jubileo é um período de 50 anos de acordo com Levíticos 25:8-13. Portanto, oito jubileus seriam o equivalente a 400 anos.

Aparentemente de acordo ao previsto por ben Samuel, 300 anos depois (1517) os turcos do Império Otomano tomaram o controle de Jerusalém e a dominaram pelos próximos 400 anos. Eles foram finalmente expulsos da Terra Santa em 1917 pelas forças aliadas, sob o comando do General George Allenby, sem que um tiro fosse disparado. A profecia do rabino a respeito do período de 400 anos aparentemente se cumpriu com exatidão.

O rabino teria profetizado também que no nono jubileu (450 anos a serem contados a partir da invasão turca em 1517) Jerusalém se tornaria uma “terra de ninguém”. Isso ocorreu entre 1917 e 1967, devido ao fato de que Jerusalém foi colocada sob o domínio do Mandato Britânico em 1917 pela Liga das Nações e literalmente não pertencia a nenhuma nação.

Mesmo depois da Guerra da Independência de Israel (1948-49), Jerusalém ainda estava dividida por uma faixa de terra que cortava o coração da cidade, separando o domínio da Jordânia (ao leste) do domínio israelense (a oeste). A faixa de Jerusalém era chamada de “terra de ninguém” tanto por israelenses como por jordanianos. Qualquer pessoa que atravessasse esta faixa era alvejada a tiros.

Isso mudou somente após a Guerra dos Seis Dias (1967), quando toda a parte leste de Jerusalém foi conquistada por tropas israelenses e toda a cidade passou a estar sob domínio de Israel. Aparentemente, uma vez mais a profecia feita pelo rabino se cumpriu com exatidão 750 anos depois de sua morte.

Supostamente, o rabino também profetizou que no décimo jubileu (500 anos a serem contados a partir da invasão turca em 1517), Jerusalém voltaria a estar sob o domínio dos judeus depois de mais de dois milênios de diáspora judaica, e o reinado messiânico se iniciaria no final deste período. O décimo jubileu se iniciou em 1967 e terminará em 2017.

Informações adicionais

Judá ben Samuel é conhecido entre os judeus como Yehuda HeChassid (Judá, o Piedoso). Foi o fundador de um movimento judeu no século XII conhecido como Chassidei Ashkenaz (literalmente “Os Piedosos da Alemanha)2 que enfatiza a oração e a prática de uma conduta moral e piedosa.

Os ensinos de ben Samuel foram, por vezes, causa de controversia nas sinagogas. Para alguns na comunidade judaica, ben Samuel era um místico cabalista. Sua ênfase na oração foi vista por alguns da comunidade judaica como exagerada e em detrimento do estudo. Segundo a Enciclopédia Judaica, foi conhecido como um pietista em seu tempo e alguém que ensinava que o estudo das Escrituras Sagradas era mais importante do que o estudo do Talmude.3

Judá ben Samuel é, sem dúvida, uma figura controversa entre os estudiosos judeus, que atribuem a ele a introdução da teosofia entre os judeus na Alemanha.4 Devemos observar, no entanto, que já no século XII ben Samuel pregava a mensagem “evangélica” de uma relação pessoal entre o homem e seu Criador – um conceito “inconsistente com a natureza divina” para os judeus e, portanto, uma mensagem “herética” que lhe angariou a antipatia de muitos de seus contemporâneos.5

Considerações finais

Atenção às palavras “supostamente” e “aparentemente” neste artigo. Não posso atestar quanto às crenças de ben Samuel (se era ou não cabalista) e tampouco sei se esta profecia é real ou se foi fabricada após os acontecimentos históricos relatados acima. Se alguém tiver alguma informação adicional que possa esclarecer esta questão, mande-me e será publicada.

Entretanto, gostaria de apelar à sabedoria milenar do rabino Gamaliel no caso em questão. Assim como não podemos ser ingênuos, acreditanto em tudo aquilo que ouvimos e lemos, tampouco podemos recitar o “mantra cessacionista” que alguns construiram com os dizeres de Martinho Lutero a respeito de profecias e visões6 sem cuidadosamente investigar as questões levantadas no parágrafo acima.

É muito fácil fazermos chacotas com anuncios deste tipo, mas é importante lembrarmos que, de acordo com as Escrituras, o tempo e a história são um dos aferidores da profecia quando a mesma não contraria um princípio previamente estabelecido pelas Escrituras (Deut. 18:21-22). Assim, para um pré-milenista como eu, que atribui a Israel um papel importante nas profecias escatológicas que precedem o Milênio, na possibilidade de a profecia realmente ter ocorrido como se registra, somente o tempo e a história poderão dizer se ben Samuel profetizou ou não da parte de Deus e se 2017 será um ano de grandes implicações para Israel e para a Igreja.7

Notas

[1] As profecias citadas foram publicadas no artigo “Israel, between Mysticism and Reality” da Revista Israel Today, edição de março 2008, p.18.
[2] Wikipedia = Chassidei Ashkenaz.
[3] Jewish Encyclopedia.
[4] Ibid.
[5] Ibid.
[6]Fiz uma aliança com Deus: que Ele não me mande visões, sonhos, nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer tanto para esta vida quanto para o que há de vir“. Aos irmãos da “Sola Scriptura”: O que Lutero supostamente pensava sobre a prática dos dons espirituais não deve ter mais peso na ortodoxia da Igreja do que aquilo que Paulo nos ensinou sobre o assunto. A  Bíblia em momento nenhum embasa a polarizarização entre a autoridade das Escrituras e o dom de profecia. Muito pelo contrário, as próprias Escrituras sancionam a profecia como algo normativo na Igreja. Há outras maneiras de se julgar a profecia e de identificarmos falsos profetas sem que para isso apelemos para o cessacionismo comum principalmente entre os irmãos de orientação reformada.
[7] Quanto ao “fator surpresa” da volta do Senhor, ler o artigo “O Pré-tribulacionismo e o ladrão na noite“.


© Pão & Vinho

 

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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A profecia do rabino Judá ben Samuel

5 de janeiro de 2011
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Muitos certamente estão se perguntando quem foi o Rabino ben Samuel, citado na mais recente mensagem de Neuza Itioka à Igreja. A título de esclarecimento, não sou fã da “apostila” e não estou de acordo com algumas de suas práticas e crenças. Entretanto, penso que seria interessante conhecermos suas fontes na mensagem em questão.

Registre-se uma vez mais que a profecia sobre o ano 2017 não é de Itioka. Supostamente foi feita há quase 800 anos atrás.1

Quem foi Judá ben Samuel?

Judá ben Samuel de Regensburg (1140 – 1217) foi um rabino judeu alemão que, antes de sua morte  em 1217 d.C., supostamente profetizou a respeito da nação de Israel.

Ben Samuel teria profetizado que o Império Otomano turco reinaria sobre a Cidade Santa de Jerusalém por oito jubileus. Um jubileo é um período de 50 anos de acordo com Levíticos 25:8-13. Portanto, oito jubileus seriam o equivalente a 400 anos.

Aparentemente de acordo ao previsto por ben Samuel, 300 anos depois (1517) os turcos do Império Otomano tomaram o controle de Jerusalém e a dominaram pelos próximos 400 anos. Eles foram finalmente expulsos da Terra Santa em 1917 pelas forças aliadas, sob o comando do General George Allenby, sem que um tiro fosse disparado. A profecia do rabino a respeito do período de 400 anos aparentemente se cumpriu com exatidão.

O rabino teria profetizado também que no nono jubileu (450 anos a serem contados a partir da invasão turca em 1517) Jerusalém se tornaria uma “terra de ninguém”. Isso ocorreu entre 1917 e 1967, devido ao fato de que Jerusalém foi colocada sob o domínio do Mandato Britânico em 1917 pela Liga das Nações e literalmente não pertencia a nenhuma nação.

Mesmo depois da Guerra da Independência de Israel (1948-49), Jerusalém ainda estava dividida por uma faixa de terra que cortava o coração da cidade, separando o domínio da Jordânia (ao leste) do domínio israelense (a oeste). A faixa de Jerusalém era chamada de “terra de ninguém” tanto por israelenses como por jordanianos. Qualquer pessoa que atravessasse esta faixa era alvejada a tiros.

Isso mudou somente após a Guerra dos Seis Dias (1967), quando toda a parte leste de Jerusalém foi conquistada por tropas israelenses e toda a cidade passou a estar sob domínio de Israel. Aparentemente, uma vez mais a profecia feita pelo rabino se cumpriu com exatidão 750 anos depois de sua morte.

Supostamente, o rabino também profetizou que no décimo jubileu (500 anos a serem contados a partir da invasão turca em 1517), Jerusalém voltaria a estar sob o domínio dos judeus depois de mais de dois milênios de diáspora judaica, e o reinado messiânico se iniciaria no final deste período. O décimo jubileu se iniciou em 1967 e terminará em 2017.

Informações adicionais

Judá ben Samuel é conhecido entre os judeus como Yehuda HeChassid (Judá, o Piedoso). Foi o fundador de um movimento judeu no século XII conhecido como Chassidei Ashkenaz (literalmente “Os Piedosos da Alemanha)2 que enfatiza a oração e a prática de uma conduta moral e piedosa.

Os ensinos de ben Samuel foram, por vezes, causa de controversia nas sinagogas. Para alguns na comunidade judaica, ben Samuel era um místico cabalista. Sua ênfase na oração foi vista por alguns da comunidade judaica como exagerada e em detrimento do estudo. Segundo a Enciclopédia Judaica, foi conhecido como um pietista em seu tempo e alguém que ensinava que o estudo das Escrituras Sagradas era mais importante do que o estudo do Talmude.3

Judá ben Samuel é, sem dúvida, uma figura controversa entre os estudiosos judeus, que atribuem a ele a introdução da teosofia entre os judeus na Alemanha.4 Devemos observar, no entanto, que já no século XII ben Samuel pregava a mensagem “evangélica” de uma relação pessoal entre o homem e seu Criador – um conceito “inconsistente com a natureza divina” para os judeus e, portanto, uma mensagem “herética” que lhe angariou a antipatia de muitos de seus contemporâneos.5

Considerações finais

Atenção às palavras “supostamente” e “aparentemente” neste artigo. Não posso atestar quanto às crenças de ben Samuel (se era ou não cabalista) e tampouco sei se esta profecia é real ou se foi fabricada após os acontecimentos históricos relatados acima. Se alguém tiver alguma informação adicional que possa esclarecer esta questão, mande-me e será publicada.

Entretanto, gostaria de apelar à sabedoria milenar do rabino Gamaliel no caso em questão. Assim como não podemos ser ingênuos, acreditanto em tudo aquilo que ouvimos e lemos, tampouco podemos recitar o “mantra cessacionista” que alguns construiram com os dizeres de Martinho Lutero a respeito de profecias e visões6 sem cuidadosamente investigar as questões levantadas no parágrafo acima.

É muito fácil fazermos chacotas com anuncios deste tipo, mas é importante lembrarmos que, de acordo com as Escrituras, o tempo e a história são um dos aferidores da profecia quando a mesma não contraria um princípio previamente estabelecido pelas Escrituras (Deut. 18:21-22). Assim, para um pré-milenista como eu, que atribui a Israel um papel importante nas profecias escatológicas que precedem o Milênio, na possibilidade de a profecia realmente ter ocorrido como se registra, somente o tempo e a história poderão dizer se ben Samuel profetizou ou não da parte de Deus e se 2017 será um ano de grandes implicações para Israel e para a Igreja.7

Notas

[1] As profecias citadas foram publicadas no artigo “Israel, between Mysticism and Reality” da Revista Israel Today, edição de março 2008, p.18.
[2] Wikipedia = Chassidei Ashkenaz.
[3] Jewish Encyclopedia.
[4] Ibid.
[5] Ibid.
[6] Fiz uma aliança com Deus: que Ele não me mande visões, sonhos, nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer tanto para esta vida quanto para o que há de vir“. Aos irmãos da “Sola Scriptura”: O que Lutero supostamente pensava sobre a prática dos dons espirituais não deve ter mais peso na ortodoxia da Igreja do que aquilo que Paulo nos ensinou sobre o assunto. A  Bíblia em momento nenhum embasa a polarizarização entre a autoridade das Escrituras e o dom de profecia. Muito pelo contrário, as próprias Escrituras sancionam a profecia como algo normativo na Igreja. Há outras maneiras de se julgar a profecia e de identificarmos falsos profetas sem que para isso apelemos para o cessacionismo comum principalmente entre os irmãos de orientação reformada.
[7] Quanto ao “fator surpresa” da volta do Senhor, ler o artigo “O Pré-tribulacionismo e o ladrão na noite“.


© Pão & Vinho

 

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

One Comment
  1. Ana carlota araujo permalink
    10 de janeiro de 2013 16:32

    Se todos tivessem o cuidado de ler e pesquisar o que leram não haveria tanta discordia entre os cristãos. Gostei da tua colocação.

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