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Expansão versus Centralização

17 de dezembro de 2010

… recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samária, e até os confins da terra.(Atos 1:8)

Em 1997, três anos após minha conversão, comecei a me despertar para a obra do ministério que o Senhor nos delegou. O versículo acima redefiniu minha visão de Igreja e constitui até hoje um dos fundamentos de minha eclesiologia.

A palavra traduzida como “poder” no verso acima é δύναμις (dunamis ou dinamus). Mais do que decifrar os atributos de força, poder e habilidades sobrenaturais que “dunamis” carrega em si, devemos buscar revelação quanto aos efeitos de sua manifestação, ao vivo e em cores.

Da palavra δύναμις derivam as palavras “dínamo” e “dinamite”. Assim como a dinamite, podemos ver nas Escrituras que o poder que Jesus investiu em suas testemunhas foi um poder altamente inflamável e explosivo. Por “explosão”, entende-se a liberação brusca de energia de um recipiente central às extremidades que o rodeiam.

O fenômeno da explosão é uma força centrífuga, ou seja, que afasta do centro. Tal modus operandi para a Igreja é claramente delineado por Jesus em Atos 1:8, quando ele afirma que seus discípulos, a partir de Jerusalém, seriam suas testemunhas nas circunvizinhanças até os confins da terra. A pequena semente de mostarda do Reino continua crescendo, suas raízes e ramos se expandindo, mais de 2000 anos após ser revelada ao mundo a um pequeno grupo de galileus semi-analfabetos.

Este modus operandi pode ser observado também na maneira como a Igreja se expandiu já em seu gênesis. Curiosamente, uma grande perseguição fora necessária para que a Igreja saísse de Jerusalém e se espalhasse pelas circunvizinhanças, dando início ao cumprimento da comissão expansionista dada pelo Senhor Jesus à sua Igreja. Até então, toda a vida da Comunidade Divina estava centralizada em Jerusalém.

Interessante notar, entretanto, que “os apóstolos, pois, que estavam em Jerusalém, ouvindo que Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João” (Atos 8:14). E que quando Saulo parte de Jesusalém rumo a Damasco em sua sanguinolenta missão de matar e prender cristãos (Atos 9:10), já havia uma Igreja estabelecida naquela cidade. Pedro, igualmente, ao visitar Jope o faz para ministrar a uma Igreja que já estava lá estabelecida.

De acordo com as Escrituras, “as igrejas em toda a Judéia, e Galiléia e Samaria tinham paz, e eram edificadas; e se multiplicavam” (Atos 9:31) apesar do fato de absolutamente nenhum dos apóstolos ter saído de Jerusalém para “plantar Igrejas” (para usar a terminologia atual) na região, pois todos eles permaneceram na Cidade Santa (Atos 8:1). Até então, todas estas Igrejas fora de Jerusalém foram plantadas e pastoreadas pelas pessoas que a tradição religiosa hoje em dia odiosamente chama de “leigos”.

Centrífugo versus Centrípeto

A antítese da força centrífuga (que afasta do centro) é a força centrípeta (que atrai para o centro). O princípio ativo da Antiga Aliança era essencialmente centrípeto, pois estabelecia um epicentro religioso (composto por castas sacerdotais, um altar e um templo) na qual se centralizava toda a prática de fé. A força centrífuga, em contrapartida, é o princípio ativo do Reino de Deus na Nova Aliança. O Reino de Deus é como uma pequena porção de fermento que se alastra e leveda toda uma massa (Mat. 13:33). O Reino de Deus é explosivo, com um potencial de crescimento exponencial e agressivamente expansivo.

Em comparação com as pomposas e burocráticas organizações religiosas de nossos dias, a Igreja Primitiva era uma rede de comunidades caseiras, simples e descomplicadas. Ela operava no dínamus do Espírito Santo, que a fazia deslocar-se de um ponto central de forma “viral” (de forma descontrolada e exponencial, como um vírus) até as circunvizinhanças e, posteriormente, até os confins da terra.

Assim, podemos concluir que Igreja do Senhor Jesus foi concebida em meio a um “caos divino”. Até que veio o homem e a organizou …

A Força Centrípeta do Institucionalismo

O cenário acima descrito se torna algo totalmente surreal dentro das estruturas eclesiásticas convencionais contemporâneas. Em contraste com as comunidades caseiras descentralizadas do Novo Testamento, a vida da Igreja institucional gira em torno de um só lugar, uma só hora e um só pastor,o que supostamente justifica a manutenção de castas clericais de pregadores e cantores, além do fato de a Igreja gastar mais dinheiro na organização de programas e na aquisição/manutenção de edifícios do que com os pobres e demais necessitados de seu contexto. Em comparação com seu desenho original, no tocante à administração e ao seu modus operandi, a Igreja se tornou um enorme “elefante branco”.

Apesar de sabermos que a Grande Comissão consiste no “ide” dos discípulos e não no “vinde” dos pecadores, o eixo do sistema eclesiológico moderno gira irremediavelmente em torno de programas: está mais preocupado em atrair o maior número de pessoas a um salão, para ouvir um determinado pregador e levantar fundos para manter a maquinaria eclesiástica rodando, do que necessariamente em treinar (de forma prática e demonstrativa) e delegar ministério aos santos para a expansão ministerial e geográfica do Reino de Deus.

Esta híper-centralização ministerial e geográfica não tem precedentes bíblicos e acaba sendo, na verdade, uma forma de controle que sobrecarrega a Igreja financeiramente, favorece o inchaço de feudos religiosos e o surgimento de aristocracias clericais, em detrimento da pluralidade de dons e ministérios em uma igreja local.

Até mesmo na Igreja em Jerusalém, seria surreal pensar que todos os 3000 santos que se converteram em Atos 2 congregavam em um mesmo lugar. Portanto, é razoável entender que os santos de uma cidade podem perfeitamente estar espalhados em diversas casas e não necessariamente estar todos reunidos em um mesmo lugar, na mesma hora, escutando a mesma “homilia”. No entanto, para aqueles que ainda favorecem o odre velho, a idéia de não se organizar um cultão todo final de semana é praticamente inconcebível, algo que soa herético.

Não se pode negar que as grandes celebrações são boas, porque dão à Igreja local a visão da extensão do Corpo de Cristo na cidade. Entretanto, quando realizados com muita freqüência, estes cultões consomem demasiadamente os recursos financeiros, humanos e o tempo da Igreja. É como estar em uma festa de casamento todos os fins de semana: apesar do clima, da comida e da música serem agradáveis, com o tempo se torna maçante quando se transforma em rotina.

Conclusão

O crescimento que a Bíblia nos propõe é descentralizado, não centralizado . O sonho de quase todo pastor denominacional é ser o cabeça de uma mega-igreja. Mas biblicamente falando, faz mais sentido preocupar-se em estabelecer 100 grupos de 30 pessoas na cidade do que necessariamente um grupo centralizado de 3000 pessoas.

Não encontramos, em nenhuma parte do Novo Testamento, uma figura análoga ao pastor singular contemporâneo que dirige um rebanho de centenas de pessoas congregadas em uma basílica. O que vemos na Bíblia é uma Igreja descentralizada em pequenos grupos, supervisionada por um colegiado de presbíteros.

Assim, um obreiro que tenha uma mentalidade de Reino (e não de feudo), deve estar disposto a trabalhar em conjunto e submissão mútua a outros presbíteros para pastorear, equipar e delegar autoridade aos discípulos – à medida que a maturidade, caráter e dons espirituais dos mesmos se façam evidentes – para que mais obreiros possam emergir do próprio rebanho, evitando assim que toda a obra do ministério gire em torno de um único lugar, de uma única “homilia” e do carisma de um único pastor, como comumente ocorre em um sistema clero-laical.

© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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4 Comentários
  1. 19 de dezembro de 2010 10:52

    Amado irmão Hugo, graça e paz!

    Ah! Que tolice pensarmos que somos pastores “de sucesso” porque temos em nossas congregações 1000 “ovelhas”, quando satanás mantém cativo em uma cidade um rebanho de 100 mil almas!

    Ou cumprimos diligentemente a ordem do Senhor (ide e fazei discípulos de todas as nações” – ou seja: se espalhem por toda a terra – força centrífuga), ou cumprimos o contrário à ordem do Senhor: “Façamos tijolos… edifiquemos para nós uma torre… e tornemos célebre o nosso nome, PARA QUE NÃO SEJAMOS ESPALHADOS POR TODA A TERRA” (Gn 11.3-4). Penso eu que, se resistimos à vontade do Senhor, então nos tornamos adversários dele, não é mesmo?

    “VÓS SOIS MEUS AMIGOS, SE FAZEIS O QUE EU VOS MANDO” (Jo 15.14).

    Irmão Hugo, se for útil para nossa edificação nessa reflexão, gostaria de sugerir a leitura desse artigo postado em nosso site. Creio que seja de bastante relevância: http://www.cristoemvos.com.br/servo-util

    No mais, fique na Paz de Cristo, que transborda sobre o nosso entendimento!
    Marcio.
    Paranaguá-PR

  2. 20 de dezembro de 2010 16:46

    Obrigado pelos comentários e pelo edificante texto, Márcio.

  3. 20 de abril de 2011 16:05

    Prezado Hugo, centralização na igreja institucional é um bicho do tamanho da omissão dos irmãos em Cristo(muito gigante).Quanto maior for a omissão tua no reino de Deus, maiores serão os abusos de uma liderança sobrecarregada.Pare, reflita e pense com objetividade.O problema não é necessariamente institucional, na verdade ele é doutrinal e espiritual.Quero lhe indicar tres leituras que lhe ajudarão bastante:CRISTIANISMO DIABÓLICO:SEM CRISTO,SEM CRUZ,SEM SANTIDADE, de Sigisfredo Wanderlei(Ed.Danprevan,2011), GRANDES NOMES DA FÉ EVANGÉLICA, de Luiz Tarquinio(Ed.Raízes,2011) e PARÁBOLA DO BAMBU, de Hernandes Dias Lopes(Ed.Candeia,2011).Se não for bastante , lhe indico também duas obras que me fizeram pensar, chorar e mudar de atitude em relação a igreja de Jesus:IGREJA.ACABOU?, de Israel Belo de Azevedo(Ed.Hagnos,2011) e IGREJA? TÔ FORA! , de Ricardo Agreste(Ed.SOCEP,2007).Repense a igreja de Jesus, o Espírito Santo ainda manda nela.

  4. 19 de maio de 2011 14:16

    Paulo,

    As questões que descrevo aqui se tratam de um problema de engenharia, não de comportamento humano. Heresias, abusos da liderança e negligência (fruto de mornidão espiritual) estarão sempre presentes na Igreja, indiferente do seu formato. Os problemas que cito aqui, no entanto, estão no modelo, na estrutura, no fundamento, no modus operandi da Igreja. Não penso que estamos falando da mesma coisa.

Comentários encerrados.

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