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Sobre Dilma, aborto e religião – Parte 2

12 de outubro de 2010

Da redação da Época:

RENDIÇÃO: Dilma e Serra com auréolas de santidade. Os candidatos se curvam ao voto religioso e põem Deus no discurso.

A religião não é um tema estranho às campanhas políticas no Brasil. A cada par de eleições, o assunto emerge da vida privada e chega aos debates eleitorais em favor de um ou outro candidato, contra ou a favor de determinado partido.

Em 1985, o então senador Fernando Henrique Cardoso perdeu uma eleição para prefeito de São Paulo depois de um debate na televisão em que não respondeu com clareza quando lhe perguntaram se acreditava em Deus. Seu adversário, Jânio Quadros, reverteu a seu favor uma eleição que parecia perdida. Quatro anos depois, na campanha presidencial que opôs Fernando Collor de Mello a Lula no segundo turno, a ligação do PT com a Igreja Católica, somada a seu discurso de cores socialistas, fez com que as lideranças evangélicas passassem a recomendar o voto em Collor – que, como todos sabem, acabou vencendo a eleição.

Esses dois episódios bastariam para deixar escaldado qualquer candidato a um cargo majoritário no país. Diante de questões como a fé em Deus, a posição diante da legalização do aborto ou a eutanásia, ou o casamento gay, o candidato precisa se preparar não apenas para dizer o que pensa e o que fará em relação ao assunto se eleito – mas também para o efeito que suas palavras podem ter diante dos eleitores religiosos. Menosprezar esse efeito foi um dos erros cometidos pela campanha da candidata Dilma Rousseff, do PT. Nos últimos dias antes da eleição, grupos de católicos e evangélicos se mobilizaram contra sua candidatura por causa de várias declarações dela em defesa da legalização do aborto.

Numa sabatina promovida pelo jornal Folha de S.Paulo, em 2007, Dilma dissera: “Olha, eu acho que tem de haver a descriminalização do aborto”. Em 2009, questionada sobre o tema em entrevista à revista Marie Claire, ela afirmou: “Abortar não é fácil pra mulher alguma. Duvido que alguém se sinta confortável em fazer um aborto. Agora, isso não pode ser justificativa para que não haja a legalização. O aborto é uma questão de saúde pública”. Finalmente, em sua primeira entrevista como candidata, concedida a ÉPOCA em fevereiro passado, Dilma disse: “Sou a favor de que haja uma política que trate o aborto como uma questão de saúde pública. As mulheres que não têm acesso a uma clínica particular e moram na periferia tomam uma porção de chá, usam aquelas agulhas de tricô, se submetem a uma violência inimaginável. Por isso, sou a favor de uma política de saúde pública para o aborto”.

Tais declarações forneceram munição para uma campanha contra Dilma que começou nas igrejas, agigantou-se na internet e emergiu nos jornais e na televisão às vésperas do primeiro turno. Foi como se um imperceptível rio de opinião subterrâneo se movesse contra Dilma. Esse rio tirou milhões de votos dela e os lançou na praia de Marina Silva, a candidata evangélica do PV. Segundo pesquisas feitas pela campanha de Marina, aqueles que desistiram de votar em Dilma na reta final do primeiro turno – sobretudo evangélicos – equivaleriam a 1% dos votos válidos. Embora pequeno, foi um porcentual que ajudou a empurrar a eleição para o segundo turno, entre Dilma e o candidato José Serra, do PSDB. Mais que isso, a discussão sobre a fé e o aborto se tornou um dos temas centrais na campanha eleitoral.

A polêmica religiosa deu à oposição a oportunidade de tomar a iniciativa na campanha política, pôs Dilma e o PT na defensiva e redefiniu o segundo turno. Na sexta-feira, quando foram ao ar as primeiras peças de propaganda eleitoral gratuita, o uso da carta religiosa ficou claro. Dilma agradeceu a Deus, se declarou “a favor da vida” e disse que é vítima de uma “campanha de calúnias”, como ocorreu com Lula no passado. O programa mencionou a existência de “uma corrente do mal na internet” contra ela. Serra se apresentou como temente a Deus, defensor da vida e inimigo do aborto (apesar de seu partido, o PSDB, ter apresentado nos anos 90 um projeto de legalização do aborto no Senado). Pôs seis grávidas em cena e prometeu programas federais para “cuidar dos bebês mesmo antes que eles nasçam”.

Agora, atônito, o mundo político discute que tipo de efeito a discussão sobre valores religiosos terá sobre a votação de 31 de outubro. E como ela afetará o Brasil no futuro. Tradicionalmente, o cenário político brasileiro tem sido dominado por temas de fundo econômico – como inflação, desemprego, previdência e salário mínimo – ou social – como pobreza, segurança, educação e saúde. Mas a elevação do padrão de vida dos pobres e a superação das necessidades elementares de sobrevivência podem ter começado a abrir espaço para aquilo que, em democracias mais maduras, é conhecido como “agenda de valores”. Ela reúne temas como fé, aborto, eutanásia, ensino religioso, casamento entre homossexuais ou pesquisas com manipulação genética. “Ninguém mais vai se eleger para um cargo executivo facilmente com um programa que prevê a legalização do aborto”, afirma Ary Oro, estudioso de religião e política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “É impossível ignorar a força numérica, demográfica e eleitoral da religião.”

Fonte: Época. Título Original: A fé entrou na campanha.

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One Comment
  1. Daniel permalink
    1 de novembro de 2010 22:38

    Sou totalmente contrário ao aborto, o que se faz necessário é uma política de prevenção, pois nas grandes periferias, famílias pobres tem mais filhos que as famílias de maior poder aquisitivo. Infelizmente o atual governo (e conseqüentemente o que vai assumir em 2011) criou uma política do “dar o peixe, mas não ensinar a pescar”…. com o tal bolsa-família e tantas outras bolsas distribuídas… logicamente a descoberta de uma fórmula preciosa para ganhar votos. Se a família é pobre, e não tem condições – que nesse caso entram não só condições financeiras, mas também condições morais de colocar um filho no mundo – deveriam ter planejamento familiar, logicamente auxiliado pelos governos Municipal, Estadual e Federal. Por favor, não confundir o que eu estou dizendo com o que ocorre na China, onde matam bebês, e onde o aborto é totalmente liberado, mas uma política voltada a essa questão. Como eu afirmei no início, além de condições financeiras, mas condições morais, pois é só visitar uma favela, que encontramos crianças soltas nas ruas, pedindo dinheiro nos sinais, sentados nas portas dos bancos pedindo “tio, me dá umas moedas”, ou pior ainda, menores comentendo delitos, em alguns casos graves. Creio que o aborto não seja a solução para resolver essas questões.

    Quando uma mulher é estuprada, o Estado deveria punir rigorosamente o estuprador, e não o fruto do estupro, pois se a Constituição diz que matar é crime, isso se estende a todos os cidadãos brasileiros. O interessante é que se um cidadão de bem comete um assassinato, matando um possível invasor de sua propriedade, o mesmo responde um processo na justiça, aí vem os direitos humanos a favor do bandido, agora quando é uma criança que está para nascer, e a mãe deseja abortar, sob a desculpa ridícula de que a mulher tem direito sobre o próprio corpo, ninguem dos direitos humanos aparece pra tentar resolver a situação. Por que faço essa comparação? Simplesmente por que existe uma grande diferença entre os dois casos, o bandido que é morto, pode se defender muito bem, se escondendo ou coisa do tipo, mas um bebê, este sim não pode se defender. Os defensores do aborto chamam isso de um direito que a mulher tem de decidir sobre o seu corpo ????? Eu entendo isso como um assassinato pior do que atirar pelas costas se tratando de um inocente que não pediu pra nascer, muitas vezes é fruto da irresponsabilidade de pessoas despreparadas, de jovens que baseados em novelas, Malhação, que na minha opinião é Humilhação, pois ensina o jovem a cometer bobagens como se fosse legal, bacana. Cristãos do Brasil, católicos e evangélicos, impeçam essa carnificina que assombra não só o Brasil, mas o mundo inteiro.

    Fiquem com Deus.

    Atenciosamente,

    Daniel Freitas
    Cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul

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