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O Perfume das Meretrizes

12 de outubro de 2010

Por Ed René Kivitz:

De repente entra na sala uma mulher de reputação pra lá de duvidosa e caminha segura na direção de Jesus. Sem a menor cerimônia, ajoelha-se atrás dele e lava-lhe os pés com lágrimas. Usa os cabelos como toalha, e derrama sobre os pés secos o perfume que enche a casa de cheiro de cabaré. Jesus não se faz de rogado: entrega os pés aos beijos da mulher.

Os estreitos de plantão não perdem tempo. Criticam o desperdício de perfume, sugerindo que poderia ser transformado em pão para os pobres, e fazem questão de anunciar em alto e bom som que se trata de uma mulher de péssima reputação, pecadora, disseram. Por trás das palavras a respeito da mulher está uma implícita condenação a Jesus: se fosse profeta saberia que a mulher não presta; se fosse sério não se deixaria tocar daquele jeito; se fosse dos nossos condenaria a mulher de vida fácil.

Mas Jesus é diferente. Não é dos nossos. Jesus aceita o perfume das prostitutas. Já consigo ouvir a observação dos estreitos de hoje: é verdade, mas a mulher abandonou aquela vida… Sei não. Tudo quanto Jesus lhe diz é “seus pecados estão perdoados”, pois a demonstração de amor estava proporcional ao alívio da culpa: a quem muito é perdoado, muito ama. E Jesus se despede da mulher: “Sua fé a salvou, vá em paz”.

Via de regra os beatos não aceitam o perfume das pecadoras. E quando aceitam querem se certificar de que já mudaram de vida ou pretendem mudar. Essa é a face mais sombria do cristianismo institucionalizado: impor sua moral, enclausurar o amor de Deus e a graça do Cristo. Será o caso de “deixarmos” que a graça faça seu caminho dentro das pessoas, e as pessoas façam seu caminho por dentro da graça? Será que conseguimos acreditar que Deus trata com os pecadores, e o faz aceitando seu perfume? Ou preferimos controlar os pecadores, exigindo que se enquadrem em nossas estreitas molduras morais, em vez de lhes dar espaço para a transformação de dentro para fora?

Onde foi que esconderam o Deus que aceita o perfume das meretrizes?

Via: Genizah. Título Original: Perfume de Mulher.

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5 Comentários
  1. Wildener permalink
    12 de outubro de 2010 21:47

    Hugo, você poderia tecer os seus comentários a respeito desse texto? Na prática, como a igreja poderia mudar para aceitar o perfume das meretrizes?

  2. 16 de outubro de 2010 20:41

    Dois ingredientes principais: receptividade e paciência.

    Muitos dos marginalizados de nossa sociedade não se sentem bem em uma igreja porque sabem que serão julgados por sua maneira de se vestir e de falar. Os evangélicos criaram uma contra-cultura e para permeá-la você precisa ser igual a eles, principalmente nas igrejas pentecostais de transfundo mais legalista. Particularmente, em nossa comunidade, abolimos o “evangeliques” de nosso meio (sequer nos chamamos de “irmão fulano” ou “irmã beltrana”). Tentamos ser “cristãos normais” , parte da cultura em que vivemos e acostumados a lidar com as pessoas que nos rodeiam.

    Temos que ser receptivos àqueles que são diferentes de nós, e fazê-los se sentir à vontade em nosso meio. A religiosidade faz com que nos sintamos melhores ou desenvolvamos um certo pudor com relação aos não cristãos. Esse farisaísmo precisa acabar entre nós.

    Segundo lugar, devemos diferenciar entre certas rupturas de hábitos que necessitam ser radicais e outras que devem ser algo gradual, fruto do crescimento do discípulo. Isso requer paciência. Quando alguém se interessa por Cristo e seu Reino, devemos deixar que o Espírito Santo se encarregue de certas coisas sem que nós tenhamos que sobrecarregar o novo discípulo com uma tonelada de regras (como, por exemplo, sua maneira de falar e de se vestir, ou o tipo de música que deve escutar, etc). É sempre bom lembrar que o alvo é fazer com que o discípulo assuma a imagem e semelhança de Cristo e não a minha.

    Não devemos tocar uma ovelhinha recém nascida com nossas mãos para que nosso cheiro não se impregne nela e a ovelhinha venha, mais tarde, a ser rejeitada pela mãe. Quem lê entenda.

  3. Guilherme permalink
    9 de novembro de 2010 20:06

    Achei muito interessante este texto. Creio que uma forma de colocar em prática é nos despojar da imposição de se “falar de Jesus” sempre que estamos com alguém que sabemos não ser nascido de novo. Gostei de algo que ouvi de alguém dizendo que Jesus não anunciava as boas novas, Ele era a Boa Nova! Da mesma forma, nós, como corpo de Cristo, templos do Espírito Santos, devemos carregar o testemunho vivo de Jesus, de forma que as pessoas sejam atraídas para Ele à medida em que convivem conosco. Grande parte dos “incrédulos” que conheço tem ojeriza a pregações, mas todos, sem exceção, percebo que tem prazer de estar conosco quando demonstramos amor, respeito, quando sabemos ouvir, quando arregaçamos as mangas e servimos em tudo sem que nos peçam, etc.

    Aqui nas fazendas por onde andamos, temos fortalecido contatos com pessoas extremamente presas a tradições católicas, como rezar terço, festeja os “Santos Reis”, etc. Essas mesmas pessoas tem demostrado prazer em estar ao nosso lado quando oramos a Deus no nome de Jesus. Tenho certeza que ao conhecerem a Pérola Preciosa venderão tudo o que têm para possuí-la. Isso, sem que eu tenha que confrontá-los com palavras quanto suas práticas vazias e idólatras. Eles mesmos perceberão isso!

  4. 11 de maio de 2011 19:27

    A igreja pós-moderna enfrenta um dilema ético tremendo entre o IDEAL e o REAL.Queremos uma igreja que aceite a todos que nela entrem(o ideal), porém, a realidade não bate porque somos preconceituosos de verdade e nem sempre abertos a novos paradigmas(o real).Tem jeito para isto? Sim. A questão é se queremos dar o jeito na perspectiva de Jesus ou na nossa.

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