Skip to content

A propaganda enganosa da "Igreja Orgânica"

25 de agosto de 2010

Há alguns meses atrás, Frank Viola escreveu um texto um pouco indignado,  e arrisco-me a dizer um pouco enciumado, pelo fato de o termo “Igreja orgânica” estar sendo interpretado e usado das mais diversas formas mundo afora. Ele alega ser um dos primeiros a usar esta nomenclatura quando ninguém mais a usava, inspirado nos escritos de Theodore Austin-Sparks – a quem atribui a autoria do termo – e atenta para o fato de que a “Igreja orgânica” está perdendo a essência que traz em seu nome, devido às tantas aplicações diferentes dadas para o termo.

Até onde sei, não se pode estabelecer propriedade intelectual sobre términos, mas tenho que concordar com Viola que o termo “orgânica” parece chiclete na boca das pessoas ultimamente, e pouco tem a ver com o que T. Austin-Sparks parecia entender por “Igreja orgânica.”Até mesmo igrejas institucionais têm se apropriado do termo e o usado das mais diferentes formas, tanto no Brasil quanto nos EUA, o que torna a sua compreensão mais difícil ainda.

O mesmo parece ter acontecido com o termo “comunidade” nas décadas passadas. O movimento das chamadas comunidades surgiu na tentativa de desinstitucionalizar a Igreja e hoje o que vemos são uma gama enorme de edifícios com suas plaquinhas escritas “Comunidade tal e tal”. Do mesmo modo, não me surpreenderei quando encontrar alguma placa pendurada em algum predinho dizendo “Igreja Orgânica Monte Sião – a Igreja da família.”

Entretanto, a Igreja institucional não é a única culpada pela vulgarização da “Igreja orgânica.” A Igreja nos lares também tem sua parcela de culpa neste processo de  “jargonização.”

Não há nada de mágico em reunir-se em uma casa. Felicity Dale, uma das vozes da Igreja nos lares nos EUA juntamente com seu esposo Tony Dale, afirma que muitas Igrejas nos lares nos EUA estão se formando dentro dos mesmos moldes do institucionalismo cristão, o que resulta em comunidades e líderes desgastados logo em seus primeiros anos de funcionamento. A propósito, este será o tema central da Conferencia Nacional da Igreja nos Lares deste ano.

É possível congregar nos lares e, mesmo assim, funcionar dentro dos mesmos moldes litúrgicos e estruturais da religião organizada. Muitas comunidades caseiras sucumbiram ao mesmo mal da religião institucional: o controle centralizador por parte de alguns que se acham donos da Igreja, pessoas que sufocam a manifestação da multiforme sabedoria de Deus por meio do sacerdócio universal.

É muito comum ver grupos familiares que giram em torno do carisma ou da persona de um único profeta ou mestre. Igualmente, assim como ocorre na instituição, também comumente se observa a formação de aristocracias familiares em que uma determinada família é a dona da Igreja – são as chamadas “Igrejas familiares”, que não devem ser confundidas com os grupos familiares da Igreja.

A mudança nestes casos é somente geográfica, perpetuando assim o status quo do sistema de castas clericais com suas liturgias mecânicas que inibem a espontaneidade carismática – algo tão orgânico quanto o Homem de Ferro e o Robocop.

Tirar as pessoas da instituição é algo relativamente fácil comparado à dura tarefa de purgar a instituição das pessoas. Isso não é nenhuma novidade para os que acompanham os grupos restauracionistas do Brasil. O medo de “se organizar”, dando à luz uma cria miniatura do denominacionalismo, neutralizou algumas vozes que há décadas já difundiam os conceitos da Igreja orgânica, mas que nunca desenvolveram uma atitude mais prática no tocante ao congregar e discipular (o que para mim é o extremo oposto ao institucionalismo).

Assim como ser carismático não quer necessariamente dizer “ser pentecostal”, Igreja orgânica não é necessariamente sinônimo de Igreja nos lares. Pela força do hábito, eu mesmo uso o termo “igreja orgânica” de forma intercambiável com “Igreja nos lares”, mas penso que para entendermos melhor o que Deus está fazendo nos dias atuais, é melhor entendermos a Igreja orgânica não como um movimento distinto, mas como um mover que está sendo difundido no Corpo de Cristo em geral, um conceito que algumas comunidades estão abraçando de maneira mais profunda, e outras de forma parcial.

Conclusão

Não pensemos que “descobrimos a roda” somente porque saímos das basílicas. Este é somente o começo, a preparação do odre para que Deus derrame o seu vinho novo.

O grande problema é que normalmente associamos o odre com a estrutura, mas penso ser este um grande equívoco. Deus não depende de estruturas e não tem compromisso com elas, sejam caseiras ou institucionais. O odre não é uma estrutura física, seja uma casa ou um auditório, e sim o coração do homem. Embora a volta da Igreja para os lares seja imprescindível na agenda de Deus em nossa geração, o odre que precisa ser renovado não é o lugar de reuniões, e sim a maneira como vemos a Igreja e nosso modus operandi. Uma mudança geográfica sem mudança de mentalidade representa somente uma mudança cosmética sem transformação real de conteúdo – um odre que não pode conter o vinho novo que Deus quer derramar sobre nós nos dias atuais. Trata-se de uma propaganda enganosa da reforma que o Espírito de Deus está promovendo em nossos dias.

Que o Senhor nos ajude a redescobrir a planta da Casa de Deus, de acordo às dimensões reveladas e estabelecidas pelos primeiros apóstolos – algo muito mais simples do que as glamorosas basílicas, mas que ao mesmo tempo transcende em glória nossa sala de estar.

© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

Depois de ter revisado e publicado este texto, me surpreendi com o artigo escrito pelo colega Márcio Rocha sobre o mesmo tema, publicado um dia antes do meu. Incrível como o Espírito tem falado nestes dias!

Recomendo a leitura deste excelente artigo, que abrange outras áreas não exploradas por mim.

Atualizado no dia 26 de agosto de 2010.
Anúncios
8 Comentários
  1. cristina permalink
    26 de agosto de 2010 14:53

    Graça e paz Hugo, eu tenho visto acontecer no dia a dia esse artigo que vc escreveu, meus filhos estão em igrejas institucionais, ainda no domingo um pastor durante o culto apresentou a igreja o novo programa da igreja, e qual seria ? é que a igreja irá se reunir nos lares durante a semana (e não são da visão em celulas ), por isso amigo fica o ditado, que nada se cria e tudo se copia ! Eles estão vendo acontecer o movimento, não sentem o mover… mas vão aderir para não ficarem ultrapassados, antiguinhos, para eles é questão de moda, infelizmente é isso que eles prezam. Aí que triste … abraços.

  2. 26 de agosto de 2010 15:03

    Cristina,

    Alguns pastores até sentem a necessidade de mudança e por isso adotam os grupos caseiros como uma tentativa de ventilar ares novos no sistema tradicional. Creio que em alguns casos, a Igreja pode até ser renovada por um tempo – já vi isso acontecer e vou escrever um artigo sobre isso. Mas uma Igreja institucional, para tornar-se uma igreja orgânica, necessita sacrificar muito. Deus prospera a obra por um tempo, mas quando chegam na encruzilhada do vale da decisão, muitos destes pastores ficam somente no nível cosmético, o da aparência, sem ir muito mais a fundo, sem comprometer certas estruturas fundamentais do institucionalismo. Nestes casos, a prioridade não é e nunca será a formação de comunidade, e sim o cultão de domingo. Os grupos caseiros neste contexto são somente uma escada para o crescimento institucional. O importante mesmo é encher o salão. Isso não é mudança, é somente um paliativo.

  3. Julia Mathias permalink
    26 de agosto de 2010 21:15

    Realmente apesar de sair da instituição ser um passo importante, é apenas o primeiro, e tirar a instituição dentro de você é bem mais complicado. Mesmo quando entendemos e cresmos no sacerdócio universal, botá-lo em prática é bem mais complicado do que parece. Temos que lutar não apenas contra a nossa carne mas também com ano e anos de “programação” humana. Só com muita ajuda do Espírito Santo mesmo!

    Mudando de assunto, ainda sou meio nova nesse meio de “igrejas nos lares” (não faz nem um ano que saí de uma igreja institucional) e queria saber se você alguma recomendação de blogs ou sites sobre o assunto. Queria muito achar mais blogs brasileiros, já que acho interessante ficar sabendo o que tem acontecido por aqui, mas também aceito indicações de blogs em inglês, afinal apesar da diferença geográfica, tem coisas que são iguais em todo lugar.

  4. Guilherme permalink
    26 de agosto de 2010 22:03

    Esta semana mesmo assisti pela TV, ao vivo, o pastor Márcio Valadão, da IB Lagoinha, afirmar que a dinâmica da vida da igreja no decorrer da semana é muito importante, mas que o que vai alcançar BH é a unidade que verão no ajuntamento solene todo domingo no templo. Ele conclama os membros a pregarem em todo o lugar e levar as pessoas à “igreja”, pois é na força da multidão que o Espírito se move com mais poder. É triste…

  5. 27 de agosto de 2010 0:21

    Pois é, @Guilherme. Este é um exemplo de pessoas que se reunem nas casas, mas sob um odre (a mentalidade) que continua velho. É por isso que eu afirmo que voltar para as casas é bom, mas está longe de ser suficiente.

    Neste contexto, os grupos caseiros são somente criadouros temporários, que na verdade servem para levar as pessoas para o cultão, que ainda é o ápice da experiencia cristã. Infelizmente, estas igrejas querem uma renovação, mas a adoração high-tech ainda é a vaca sagrada do institucionalismo.

  6. Julia Mathias permalink
    27 de agosto de 2010 3:48

    @Hugo: Muito Obrigada! Vou dar uma olhada nos sites!

  7. Luciana permalink
    11 de setembro de 2010 10:47

    Alguém conhece algum grupo que se reuna nos lares em Brasília ou Goiânia?

    lalvalenca@gmail.com

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: