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Síndrome de Edifício

2 de agosto de 2010

@4ms: Senti um pouco de ironia de sua parte ao se referir ao “cultão” no seu último post. A Igreja orgânica é daquelas que pensam que “quanto menor melhor” ou “somos poucos mas somos bons”? Você é contra os cultos grandes? Tem que ser só nas casas?

Em primeiro lugar, gostaria de me desculpar se minhas palavras passaram a impressão de que eu esteja me referindo aos grandes ajuntamentos da Igreja de forma jocosa. Esta não foi minha intenção. Usei a expressão “cultão” fazendo referência aos cultos de jovens das mega-igrejas, com 100, 200 ou 300 jovens. Já fui líder de jovens em uma destas igrejas e, ainda quando pregava em eventos como estes, já me referia desta maneira aos ajuntamentos. Digo isso para que entenda que não usei a expressão de maneira desrespeitosa.

Quanto à segunda parte da sua pergunta, reconheço a importância dos pequenos grupos no desenvolvimento da comunhão e do sacerdócio de todos os crentes, coisas estas não proporcionadas nos grandes ajuntamentos da Igreja institucional, com sua rígida liturgia conduzida por castas clericais de músicos e pregadores. Entretanto, não sou um destes que pensa que “quanto menor melhor”. Cada grupo caseiro deve ter uma visão que seja maior do que as quatro paredes da casa onde se reúne. É necessário reconhecer os demais grupos que compõem a Igreja local na cidade, enxergar as inúmeras possibilidades de crescimento entre os perdidos de nossa sociedade e aliviar o sofrimento dos pobres ao nosso redor – tanto dentro quanto fora da Igreja.

Particularmente, amigo, penso que a Noiva já gastou muito tempo adorando o seu próprio umbigo e olhando para si mesma. A última coisa que desejo é participar de uma miniatura caseira desta entidade ensimesmada que a Igreja se tornou. É necessário olhar para fora na mesma medida em que cuidamos os de dentro. Deus não deu dons espirituais aos homens para que estejam guardados no museu das relíquias sagradas. Eles devem ser usados no serviço entre os santos e também para o expandir o Reino de Deus entre os perdidos.

O livro de Atos nos mostra uma Igreja que crescia de forma exponencial. Em qualquer organismo, crescimento é sinal de saúde. Falta de crescimento é sinal de que algo está errado, e com a Igreja não é diferente. Entretanto, entendo que o crescimento da Igreja deve se dar de maneira saudável. Devemos ser maduros o suficiente para diferenciar crescimento saudável de inchaço.

Houve um tempo em que obesidade, para alguns, era sinal de saúde. Hoje em dia, há uma consciência de que nem tudo o que é grande é saudável. Assim, a maior preocupação de uma Igreja orgânica não é necessariamente o quanto ela cresce, e sim como ela cresce. Um grupo de pessoas desconhecidas que se reune em um lugar para participar de um evento religioso não é uma Igreja, é somente um amontoado de gente.

Por muitos anos, o referencial de uma boa igreja foi o conjunto de música fenomenal, o tremendo pregador ou o belo edifício. Estas coisas, porém, se desgastam e perdem o brilho com o tempo. O que dura é somente um Corpo bem ajustado, cujas juntas e medulas estejam conectadas em comunhão. Em uma Igreja orgânica, o crescimento ocorre de forma natural, por meio dos relacionamentos. Sabemos que se as juntas e os ligamentos do Corpo estão firmemente conectados, o crescimento será qualitativo, o que, ao seu tempo, trará crescimento quantitativo e exponencial.

As Igrejas nos lares também se reúnem em grandes ajuntamentos, embora a freqüência e a maneira como o fazem variam de comunidade para comunidade. Para isso, se utilizam de escolas, auditórios e outras instalações maiores que são alugadas conforme a necessidade. As grandes reuniões são um lindo componente da Ekklesia, tão indispensável na vida da Igreja quanto os grupos pequenos, pois nos dá uma visão mais corporativa da Igreja local – em outras palavras, aprendemos que não somos somente um grupo que “somos poucos, mas somos bons.”

O problema não são os grandes ajuntamentos e sim a “Síndrome de Edifício” (SdE), que é quando a Igreja assume uma imagem distorcida de si mesma. Membros com SdE associam a imagem da Igreja a um edifício ou às atividades conduzidas dentro do edifício, e não às pessoas que compõem a Ekklesia. Para uma Igreja com SdE, a Ekklesia não existe e não pode ser encontrada na falta de certos elementos que normalmente dão característica a uma Igreja institucional.

Como resultado, a Igreja se torna pulpitocêntrica porque Deus só fala quando um pregador profissional troveja atrás de um púlpito. Torna-se templocêntrica, porque Deus só opera por meio das engrenagens da estrutura eclesiástica e seus programas religiosos. Torna-se clerical, porque somente uma meia dúzia de “ungidos” servem ao Senhor com seus dons enquanto a maioria dos sacerdotes vegeta e morre de tédio. Torna-se um negócio cuja existência depende de um CNPJ.

Não temos que escolher entre realizar eventos grandes ou pequenos. Este não é o ponto. Mas anos e anos de tradição religiosa fizeram com que os “cultões” se tornassem o carro-chefe de tudo o que se faz e se pensa na Igreja.  Trata-se de uma inversão de valores, equivalente a colocar a carroça na frente dos cavalos.

Sob o romanismo, celebrávamos a eucaristia católica como o clímax da experiência cristã. Sob o protestantismo, jogamos a hóstia no lixo e fizemos do sermão o ponto culminante. Nenhum dos dois modelos, porém, reflete o clímax da Igreja neotestamentária, que era Cristo manifestado no ajuntamento, por meio do dom espiritual de cada membro operando sob o comando do Espírito Santo.

A Igreja não precisa de mais programas religiosos, ela precisa redescobrir sua identidade Cristocêntrica e recobrar a sua missão. Por isso penso que, embora os grandes eventos não sejam necessariamente ruins, não é ali que a Igreja deve começar.

A Ekklesia não deve depender de dinheiro, programas, edifícios, pregações, músicas espetaculares ou outros elementos da tradição para existir como Igreja e se expandir. Sua existência e expansão devem ser diretamente proporcionais à força dos relacionamentos entre as pessoas que a compõem.

Assim, amigo, crescimento é bom e é o que todo cristão espera que sua comunidade experimente. A questão é como vamos chegar lá.

© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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3 Comentários
  1. 5 de agosto de 2010 13:07

    Olá Hugo, graça e paz , tenho acompanhado seu blog sempre que posso, e confesso ter me ajudado bastante , eu anseio pela igreja nos lares, mas aqui na minha cidade não existe nenhum grupo desses, moro em uma cidade extremamente idólatra, aonde as igrejas não católicas pagam o preço por não serem. Tenho suplicado a Jesus direção, pois não quero voltar a fazer parte de uma igreja institucional, mas tbm não posso ficar sem congregar , isso seria contra aquilo que acredito ser cristão. Eqto isso vou buscando alimento espiritual, e lógico com a peneira na mão, pois nem todos que dizem SENHOR, SENHOR realmente servem a ele. abraços.

  2. 5 de agosto de 2010 19:36

    Oi Cristina,

    Quero encontrar-me com alguns irmãos no Brasil neste mes de agosto para determinar a maneira de ajudar pessoas como você. Muitas pessoas me escrevem dizendo a mesma coisa, acredite. Você não é a primeira. Até lá, que o Senhor te abençoe em sua jornada.

    Abs.

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  1. www.igrejalivre.net » Explicando as terminologias das Igrejas: nos Lares, Simples, Orgânica e a Missional

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