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Eclesiologia Líquida

10 de julho de 2010

Quando olhamos a figura ao lado vemos dois elementos: o copo e a água. Se pudéssemos traçar uma analogia entre a Igreja e as estruturas, o que seria a água e o que seria o copo? As estruturas seriam o copo e a Igreja a água? Ou a Igreja seria o copo e as estruturas seriam a água?

Seguramente, muitos afirmariam que o copo simboliza as estruturas da Igreja. Mas, parafraseando Neil Cole (autor do livro Igreja Orgânica), eu diria que as estruturas da Igreja devem ser como os encanamentos ou o sistema elétrico de uma casa: devem cumprir sua função sem estar à mostra, sem serem tão evidentes (quanto mais discretas e escondidas, melhor). Quando um incrédulo olha para a Igreja, ele deveria ver uma família de pessoas que se amam e se servem mutuamente, e não uma estrutura religiosa (templos, programas, etc.), porque as Escrituras afirmam que não seríamos conhecidos como seus discípulos por nossas luxuosas catedrais, ou pela boa pregação e boa música que oferecemos e sim pela forma como amamos uns aos outros  (Jo 13:35).

Assim, permita-me propor uma nova ilustração para nosso entendimento de eclesiologia. Para mim, o copo simbolizaria melhor a Igreja e a água as estruturas, porque se escondem e se moldam ao seu recipiente – a Ekklesia.

Biblicamente falando, não há uma “eclesiologia correta”. Jesus em nenhum momento abordou questões eclesiológicas em seus ensinamentos (a palavra “Igreja” é mencionada somente duas vezes nos Evangelhos). Como Jesus nunca estabeleceu nenhuma organização na terra – somente nos deixou seu Nome para que nele crêssemos – vemos nas Escrituras uma Igreja cuja coluna vertebral era flexível para atender às necessidades da primeira geração de cristãos.1 Portanto, a única coisa que podemos biblicamente afirmar é que a Igreja contava com uma estrutura líquida após a sua concepção, ou seja, tomou a forma de seu recipiente – os cristãos do primeiro século.

A Igreja Primitiva possuia uma certa estrutura sem operar como uma empresa, assim como o corpo humano possui diversos sistemas (digestivo, linfático, nervoso, etc.) sem se tornar um robô. E dentro desta estrutura básica e enxuta, havia elementos que variavam de acordo com o seu contexto. Por exemplo, no tocante ao lugar de reuniões, os primeiros cristãos como regra se reuniam nas casas e não tiveram a necessidade de investir na construção de “templos” (casas de adoração).2 Porém, durante dois anos, Paulo se utilizou de instalações maiores como um centro de treinamento na cidade de Éfeso, período em que todos os dias congregava os discípulos e ensinava a respeito do Caminho na escola de Tirano (Atos 19:9-10).

Com excessão dos ministérios fundamentais de Ef 4:11, no tocante à estrutura da Igreja local a Bíblia não nos dá nada gravado em tabletes de pedra, indelével e imutável, somente exemplifica situações, desafios e soluções vivenciadas pela Igreja apostólica. Isso porque a Bíblia não é um livro de métodos, mas somente de princípios. E ainda que princípios bíblicos sejam imutáveis, os métodos não.

Os elementos da estrutura de uma Igreja Local devem ser um resultado natural da vida da própria Ekklesia. Elas devem ser moldáveis ao contexto e às necessidades da Comunidade Divina. Assim, certas estruturas podem ser instrumentalizadas para ajudar a Igreja a cumprir um determinado objetivo em seu contexto, mas jamais sacramentadas. Estruturas religiosas são descartáveis, não foram feitas para serem amadas (o amor denominacional e o orgulho institucional constituem-se em idolatria). São somente acessórios,3 e não parte da essência da Ekklesia. Qualquer proposta eclesiológica que tenha a pretensão de estabelecer-se de forma definitiva na Igreja certamente a encapsulará, a cristalizará, a robotizará e a tornará inefetiva.

Estruturas eclesiásticas não devem ser um determinado modelo a ser passado de geração à geração, mas devem emergir naturalmente, sendo moldadas à imagem da Igreja e não a Igreja de acordo a elas. Jesus não patenteou nenhum modelo eclesiológico, somente chamou um grupo de discípulos para caminhar com ele, e toda a vida da Igreja derivou a partir desta experiência. Assim, absolutamente ninguém tem autoridade bíblica para se gabar por possuir a “eclesiologia correta”.

Entender isso deveria humilhar tanto os defensores ferrenhos da “Santa Madre Igreja”, que fazem de seus emaranhados institucionais parte integrante e inseparável da Ekklesia, quanto os “xiitas da restauração apostólica” que demonizam a Igreja institucional de forma generalizada, negando-se a reconhecer que Deus ainda usa a Igreja presente nas instituições religiosas. Dito isso, gostaria de esclarecer que meu objetivo na blogosfera não é tornar-me parte de uma jihad entre “institucionalizados” e “desigrejados”. Não se trata de “demonizar” as instituições religiosas tanto quanto se trata de avaliá-las de acordo à sua efetividade no cumprimento dos princípios imutáveis que as Escrituras nos ensinam a respeito da vida da Igreja.

É correto dizer, então, que as Escrituras são flexíveis no tocante à eclesiologia. Entretanto, se a Bíblia é um livro de princípios e não de métodos – como dito acima – as estruturas eclesiásticas se tornam um problema sempre quando passam a ser um estorvo ao cumprimento dos princípios bíblicos de vida em comunidade. E sempre que tais estruturas engessam a Igreja, elas precisam ser reavaliadas, mudadas ou, em alguns casos, totalmente descartadas.4

Acredito que a mensagem que o Espírito está trazendo à Igreja nos dias atuais não é exatamente “voltemos a congregar nas casas” (porque se trata de algo maior do que uma mera mudança geográfica), ou que sejamos uma cópia exata da Igreja Primitiva (que, por sinal tinha suas próprias mazelas e não era perfeita). Penso que o palpitar do Espírito nos dias atuais é: “Voltemos à simplicidade do Evangelho, à intimidade do cenáculo“.

Boa parte do cristianismo atual se tornou uma religião demasiadamente sofisticada, burocrática e impessoal. É de fato uma lástima que muitos apologistas da religião organizada adotem uma postura demasiadamente defensiva quanto ao status quo, a ponto de não prestarem atenção ao clamor profético e às perguntas de nossa geração, algumas das quais procurarei abordar em meu próximo artigo sobre o assunto.

Ecclesia semper reformanda est.

Notas

[1] O surgimento de diáconos, algo que até então não fora planejado, é um exemplo disso.
[2] Ver artigo “O Paradigma do Templo“.
[3] Um exemplo disso são as organizações missionárias, tão necessárias nos dias atuais. Elas existem diante da incapacidade de muitas Igrejas locais em capacitar e enviar obreiros ao campo missionário. Mas uma vez que a Igreja chegue a uma maturidade neste aspecto, cessa a necessidade de depender de tal estrutura. O mesmo deveria ser aplicado em certos sistemas de governo e práticas congregacionais na Igreja, que deveriam se ajustar as necessidades do Corpo de Cristo, ao invés de serem sacramentados e perpetuados.
[4] Isso é o que normalmente se chama de Reforma. Mas historicamente falando, ONDE HÁ VISÃO, HAVERÁ DIVISÃO, pois toda Reforma provoca cismas devido ao fato de boa parte da religião estabelecida sempre resistir à mudanças. Modelos eclesiológicos que podem ter sido úteis às gerações anteriores podem se tornar pedras de tropeço à geração atual. A falta de flexibilidade do institucionalismo cristão é o calcanhar de aquiles da Igreja institucional que levará boa parte dela à irrelevância na pós-modernidade, a exemplo do que já ocorreu na Europa e está ocorrendo hoje nos EUA.


© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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3 Comentários
  1. Guilherme permalink
    10 de julho de 2010 20:46

    Entendo o sentimento do Hugo e de diversos irmãos que se manifestam neste blog e outros tantos que conheço de outros rincões. Pode ser que haja pessoas que se enquadram no termo “desigrejados”, mas não é o nosso caso, pois entendemos que somos Igreja, juntamente com todos os que nasceram de novo, independente de sua ligação ou não com a Igreja institucionalizada. Alésm de “desinstitucionalizados” talvez pudéssemos ser chamados de “destemplados”, ou “desprediados”, e coisas semelhantes;

  2. 26 de junho de 2012 1:35

    Como é dificil enxergar estas coisas, por mais simples que sejam, tendo vivido tanto tempo da mesma forma. É muito mais facil (e menos arriscado) trilhar sempre o mesmo caminho, mesmo que isso implique cometer os mesmos erros de muitos que trilharam o caminho antes de nós.

    Abraço.

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  1. www.igrejalivre.net » Explicando as terminologias das Igrejas: nos Lares, Simples, Orgânica e a Missional

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