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O dízimo e a Igreja gentílica

14 de junho de 2010

@4ms: Em um de seus artigos você alega que o dízimo não era uma prática da Igreja gentílica. Como você interpreta 1a Corintios 16:2?

Obrigado por sua pergunta.

As lentes teológicas pelas quais lemos certos textos está embaçada, na melhor das hipóteses, e totalmente riscada na pior delas. Em minha interpretação, o versículo não diz exatamente aquilo que muitos pensam que ele diz. Já vi pregadores usarem esta passagem para provar que a Igreja neotestamentária recolhia dízimos, assim como você parece crer. Entretanto, não penso que isto seja o que a passagem nos demonstra. Analisemos a Escritura:

Quanto à coleta para os santos, fazei vós também como ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, e vá juntando, para que se não façam coletas quando eu for. E, quando tiver chegado, enviarei, com cartas, para levarem as vossas dádivas a Jerusalém, aqueles que aprovardes. (1 Coríntios 16:1-3)

Observe que Paulo se refere aqui a uma oferta voluntária e não ao recolhimento de dízimos.

Em primeiro lugar, a oferta em questão sequer seria recebida pela Igreja local ou pelos presbíteros. Os santos deveriam juntar este dinheiro em suas próprias casas e quando Paulo chegasse em Corinto entregar-lhe a oferta em mãos.

Em segundo lugar, a oferta tampouco se destinava à Igreja local, e sim à Igreja em Jerusalém em função da calamidade pública que afligia os santos na ocasião. Era uma oferta circunstancial, ou seja, em função da necessidade. Não se trata de um imposto religioso de caráter compulsório.

Paulo em momento nenhum usa a palavra “dízimo” na passagem, e sim a expressão “conforme à sua prosperidade”. O apóstolo não estipula nesta passagem, nem em nenhuma de suas cartas, um percentual fixo para a contribuição, mas deixa à consciencia individual para decidir o valor da oferta de acordo à sua capacidade financeira.

Assim, o texto acima não prova que os santos da Igreja primitiva dizimavam, somente que ofertavam de acordo à necessidade dos irmãos, uma prática encorajada e praticada entre as igrejas caseiras. Permita-me esclarecer que estou disposto a crer (ainda que as Escrituras não nos digam) que havia, na Igreja gentílica, pessoas que usavam o percentual de 10% como referência para ofertar na Casa de Deus, de forma voluntária. Mas minha crença vai até aí. Não encontro base bíblica para afirmar nada que vá além disso.

Entendamos que os gentios nasceram fora do sistema sacerdotal-templocêntrico veterotestamentário. Não havendo templos nem casta sacerdotal a serem mantidos, a razão de se cobrar o dízimo obrigatório cessou. Além disso, nos outros dois artigos que escrevi a respeito do dízimo, procurei demonstrar biblicamente, entre outras coisas, quatro pontos que são fundamentais em nosso entendimento desta questão:

1) O dízimo não era cobrado em dinheiro, somente em lã e frutos da terra. Assim:

2) O dízimo somente era cobrado dos donos de terras e de rebanhos. Portanto, nem mesmo  no sistema judaíco de templos e castas sacedotais, os carpinteiros (como Jesus), pescadores (como alguns dos 12) e fazedores de tenda (como Paulo) estavam obrigados a dizimar perante a Lei, somente a pagar o imposto do templo (algo bem distinto do dízimo).

3) No sistema de dízimos da Tanach (ou Antigo Testamento) os ricos dizimavam e os pobres eram beneficiários, não contribuintes.

4) A Igreja primitiva gentílica, fora dos arraiais do judaísmo, não dizimava, somente ofertava conforme a necessidade, algo que não somente a Bíblia demonstra, mas que Pais da Igreja como Tertuliano ensinavam e a História dos seis primeiros séculos da Igreja confirma.

Todos os pontos acima são explicados, com suas devidas referências, em meu artigo “O Dízimo na Bíblia e na História.”

© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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9 Comentários
  1. Guilherme permalink
    11 de julho de 2010 21:17

    Hugo, você deve ter lido “Cristianismo Pagão” de Frank Viola. Tem algum ponto do capítulo sobre Dízimo e Salário do Clero que você discorde? Se positivo, gostaria de conhecer um pouco mais de sua opinião sobre a posição do autor. Acrescento que concordo com o que li.

  2. Hugo permalink*
    12 de julho de 2010 16:04

    Guilherme,

    Nas linhas gerais, estou de acordo com as colocações de Viola neste sentido. Estou revisando minhas anotações a respeito desta questão e em breve as publicarei aqui no blog, porque gostaria de acrescentar alguns pontos.

    Abraços!

  3. 4 de agosto de 2010 18:26

    Não seria porque não havia necessidade de se repetir, no N. T. sobre o dízimo? Em Mt 23.23 Jesus ñ diz que ñ precisava devolver o dízimo. Antes não nos dá a entender q é como se Ele tivesse dando continuidade? Bem, pelo o outro lado fica
    difícil viver a vida cristã hoje com tantas discórdias. Lembro-me de uma vez que vivia quase que mendigando, e fui numa
    tarde receber uns bicos que havia feito. Voltando para casa sem nada receber, dentro da da minha casa orei triste, tenti como
    que alguém me incentivasse a abrir a Bíblia em Gêneses. Quando abri foi exatamente cap. 14.20. Ali mesmo entendi q era
    para mim também aquela passagem. Imediatamente, sai dos bicos para trabalho, melhor em seguida entrei numa creche, logo
    depois, voltei ao cais onde estou até hoje!

  4. 4 de agosto de 2010 19:38

    Pedro,

    Não penso que foi por “falta de necessidade de se repetir” que Paulo nunca ensinou o dízimo malaquiano aos gentios..

    Pensar que eles sustentassem as castas sacerdotais judaicas e um templo no qual eles sequer podiam entrar é algo realmente surreal. Além disso, a história já do segundo século prova que os gentios não dizimavam obrigatoriamente.

    Quando a sua experiencia pessoal, é bom lembrar que:

    1) Gen 14:20 é um dízimo voluntário , antes da Lei e não se enquadra nos moldes do dízimo malaquiano que a Igreja evangélica cobra.

    2) Não foi em dinheiro e nem de seu salário, foi dos despojos de guerra.

    3) Dizimar voluntariamente é o direito de cada crente. Mas cobrar o dízimo obrigatório não é direito da Igreja, pelos motivos já explicados.

  5. silvan permalink
    21 de junho de 2011 20:03

    congreguei por alguns anos em uma igreja onde sempre dei o dizímo. recentemente passei a congregar em outra igreja onde se crê que odizimo não faz parte da nova aliança (a CBB). Procurei alguns artigos que falassem sobre o assunto na internet e encontrei vários que esclareceram o assunto para mim. Agora creio que novo testamento (nova aliança) as cristãos contribuem voluntariamente, não por lei (antiga aliança). Claro que, como é voluntário quem quiser pode dar a décima parte, mas voluntariamente. Parabens pelo artigo, com certeza ajudará muitas pessoas.

    obs: congrego na CCB.

  6. 17 de julho de 2012 13:06

    crio que o dizímo é serimonial da antiga aliança, os cristão, são
    da nova .portanto, não estão obrigados a pagar nada,amenos que
    queiram. a paz.

  7. Flávia permalink
    2 de janeiro de 2013 11:02

    Hugo, amei este artigo me esclareceu muito, mas por muito tempo ter houvido que tinha que da o dízimo que era uma ordem me sinto ainda que na obrigação de da os 10% e quando não dou fico pensando que estou roubado a Deus depois que li todos os artigos fique mais confusa sei que tem me ajudado muito mais se poder me da mais base biblica eu acradeço.
    fiaca na Paz do Senhor Jesus.

  8. 3 de janeiro de 2013 11:35

    Flávia, clique na tag “dízimo” para ler os outros artigos a respeito do assunto. Neles, procurei apresentar todas as referências bíblicas para esta questão. Mas se você se sente culpada em não dizimar e confusa com os textos, minha recomendação é que você continue contribuindo na denominação onde frequenta conforme a sua consciência, e não mude o seu modo de contribuir.

  9. 11 de janeiro de 2013 0:03

    Oi Hugo, gostaria que voce comentasse o que foi decidido para a Igreja Gentilica no Concilio de Jerusalém. Atos 3:15,

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