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O Tempora! O Mores!

25 de maio de 2010

Se de acordo com a Torah o problema inicial da humanidade era a construção de uma única torre de Babel, hoje vemos várias torres sendo simultaneamente levantadas com técnicas diferentes, com medidas diferentes, por pessoas diferentes, que falam linguas diferentes mas que, ironicamente, possuem um mesmo objetivo: alcançar os céus.

Alguns buscam o Reino de Deus por meio da doutrina. Outros querem manifestar o Reino pelo poder do Espírito.

Uns querem proclamar o Reino ao atar o “homem forte” por meio de Batalha Espiritual. Outros pensam que é melhor pregar o Reino enfatizando mais as coisas boas que Deus faz do que as coisas más que o diabo apronta.

Alguns buscam o Reino de Deus por meio da contemplação meditativa. Outros querem manifestar o Reino de Deus por meio do ativismo social e político.

Para uns, organização e estrutura de governo é essencial para cultivar o Reino de Deus. Para outros, o Reino de Deus se manifesta quando os membros da Ekklesia se relacionam informalmente, como uma família.

Alguns pregam o Reino por meio da santidade e da separação deste mundo. Outros pregam o Evangelho do Reino na mesa do bar e na seção de fumantes do restaurante.

Arthur Willis, escritor cristão, diz que “a verdade é como uma foto. Quando enfatizamos uma determinada parte de forma exagerada, transformamos o retrato da verdade em uma caricatura.” Todas as ênfases acima são positivas desde que se relacionem de forma equilibrada, interdependente e se complementem mutuamente. Entretanto, quando se isolam umas das outras, emergem fora de proporção com relação aos demais elementos do Evangelho Pleno, desfigurando assim a Noiva de Cristo, transformando-a em uma espécie de Noiva de Chuck. Cada uma destas correntes isoladas se constituem em mais uma torrezinha nos horizontes de Babel – todas com suas boas intenções de alcançar o Reino dos Céus. Assim, confirma-se a veracidade do provérbio popular: “De boas intenções o inferno está cheio.”

Pois se de um lado vemos a fossilização da igreja institucional devido à mecanização burocrática da religião e o corporativismo insano do cristianismo organizado, do outro lado contemplamos os anarquistas pós-modernos que promovem um cristianismo que, de tão informal, se torna líquido, amorfo e virtual.

Se de um lado vemos os carismaníacos com seu emocionalismo carnal e suas exuberâncias pentecostais, do outro vemos intelectualóides cessacionistas que, à semelhança de um médico néscio, decidem amputar toda uma perna por causa de uma unha incravada no dedão do pé.

Se de um lado vemos uma maratona de rituais para “quebra de maldições” e gente ignorante expulsando demônio de neurótico,  do outro lado vemos aqueles que transformam o diabo em uma figura meramente mitológica e levam o Zé Pilintra e o Exú Caveira para o divã do analista.

Se de um lado vemos igrejas-monastérios que se trancam entre quatro paredes e ignoram o contexto social em que vivem, do outro lado vemos aqueles que trocam a pregação apostólica  pela militância política-social, usando a Igreja como plataforma para um determinado partido ou ideologia política.

Se de um lado vemos os talibãs evangélicos que fazem do Evangelho uma subcultura – erigindo muralhas e cercas de arame farpado entre a Igreja e o pecador – do outro lado vemos a neo-ortodoxia emergente que, de tão inclusivista, se faz semelhante à rameira que abre as pernas para qualquer um que lhe pareça atraente e lhe dê um sorriso.

Se de um lado nos entendiamos com o vazio ritualista do catolicismo romano, do outro lado nos enojamos com um evangelicalismo cheio de si, megalomaníaco e exuberante.

Que fazer? Como diz o oráculo popular: Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come!

Jesus veio pregando um Evangelho simples, mas o homem o complicou. E se Cristo veio ao mundo para manifestar o Reino de Deus aos homens, a Igreja muita vezes o esconde.

E como se não bastasse a diversidade de arranha-céus babilônicos que encobrem os horizontes do Reino dos Céus, ainda somos testemunhas oculares das tremendas proezas que colocam a Igreja contemporânea na mídia, que hoje se destaca mais pelo mal que causa do que pelo bem que faz: entre os evangélicos, denominações que se prostituem com a política e estelionatários (alguns deles alados) vendendo água benta e sementes de prosperidade na TV. Entre os católicos, pedófilos embatinados que se beneficiam de imunidade graças à cumplicidade corporativista do Vaticano (que prefere comprar o silêncio de suas vítimas, pelo pagamento de indulgêngias reversas, do que entregar os culpados à justiça).

Como cristãos, as únicas marcas que deveríamos mostrar ao mundo são os estigmas de Cristo que anunciam a paz entre Deus e a humanidade. E se os estígmas de Cristo trazem Deus para perto do homem,  os estigmas da Igreja levam o homem para longe de Deus. E receio que, atualmente, o mundo tem contemplado mais os estígmas da Igreja do que os de Cristo.

Anima-me, entretanto, saber que Moisés teve um encontro com Deus que mudou sua vida no Monte Horebe (palavra em hebraico cuja raiz quer dizer “desolação”). Tenho a esperança de que, no meio de sua desolação, a Noiva de Cristo também possa ter um reencontro com seu Noivo, e mudar seus rumos. Oremos por um grande avivamento que venha a aterrar todo vale e nivelar todo monte, para que uma Igreja profética possa emergir pregando o Evangelho do Reino de forma integral e equilibrada, em singeleza e santidade.

Maranata.

© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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