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CNPJlatria

11 de maio de 2010

Que o advento literário de Frank Viola, Neil Cole, Wolfgang Simson e outros pensadores estava causando um discreto “zum-zum-zum” nos bastidores da Igreja institucionalizada, eu já sabia. Mas ao que parece, depois de algumas décadas, a Igreja nos Lares está finalmente chamando a atenção da Igreja Institucional.

Artigos estão sendo escritos a respeito daquilo que alguns chamam de MSI ou  “movimento sem igreja”. Muitos destes artigos estão partindo da pena de irmãos de orientação reformada, e é irônico que alguns destes reformados, 500 anos depois da Reforma Protestante, soem tão católicos em seu corporativismo exacerbado:

“Fora da ‘Santa Madre Igreja’ não há Igreja …”

Realmente, comprova-se que a história não muda, somente se recicla.

Muitos vêem e se referem com desdém àqueles que decidiram sair das capelas e adorar o Senhor na simplicidade das casas. Estes são tachados pelos denominacionais de  “desviados” ou, como mais recentemente se adotou, são rotulados de “desigrejados”.

Mas quem e o que define o que é a Igreja? Um “templo”? Uma determinada liturgia? Um pastor ordenado por uma “respeitada instituição”? Um CNPJ? Uma placa pendurada do lado de fora do edifício?

Ora, amigos, se estes elementos fossem vitais para a existência da Ekklesia, seguramente o Senhor nos especificaria, com riqueza de detalhes, qual o procedimento jurídico a ser adotado para que uma comunidade de discípulos seja oficialmente reconhecida como Igreja. Ou ao tipo de liturgia a ser adotada para que um “culto” tenha o selo de aprovação de Deus. Se assim fosse, as Escrituras também dariam ênfase na construção de “casas de adoração” (ou templos) para legitimizar uma comunidade de discípulos como “Igreja”. Mas, surpreendentemente, nada disso vemos nas Escrituras.

Gostaria de lembrar os adeptos do Sola Scriptura que nenhum destes elementos caracterizou a Igreja do primeiro século. Na verdade, tais coisas eram totalmente estranhas àquilo que os primeiros discípulos chamavam de Ekklesia. Para a primeira geração de cristãos, a Igreja era simplesmente um grupo de pessoas regeneradas em Cristo que amavam a Deus, se serviam mutuamente e, em seu Nome, se reuniam de casa em casa para partir o pão, orar e ler as Escrituras (na época porções do AT e as cartas apostólicas). Esta pode até ser uma descrição simplista de Igreja para alguns, mas é exatamente esse o retrato que as Escrituras nos dão da Verdadeira Igreja.

Assim, não há nada que biblicamente impeça um grupo de cristãos que apresentam as características acima de ser chamado de Ekklesia. E quem não enxerga a igreja fora dos emaranhados institucionais seguramente sucumbiu ao danino processo da institucionalização.

Filhos “Legítimos” vs Filhos “Bastardos”

Há uma diferença entre um cristão que participa de uma Igreja institucional e um cristão institucionalizado.  É possível estar na instituição sem ser institucionalizado. Alguém pode ser parte de uma denominação e, mesmo assim, desenvolver e nutrir uma visão de Reino (e não de feudo/organização). Este participa de Igreja A ou B por uma questão de convicção e conveniencia pessoais, mas  jamais menospreza ou anatemiza outros irmãos em Cristo que possuem uma expressão de Corpo diferente da sua (tenho diversos amigos que se encaixam nesta categoria).

Já para um cristão institucionalizado, Deus é seu Pai e a Instituição (Católica, Batista, Assembleiana, Presbiteriana, Metododista) é a sua Mãe. São os filhos da “Santa Madre Igreja”. Surpreendentemente, a “Santa Madre Igreja” não é algo exclusivamente católico, mas está bem enraizado na Igreja Protestante. Pode ser que não apareça no chavão, mas  sem dúvida é bem visível na prática.1

Um cristão institucionalizado enxerga o Reino de Deus somente pelas lentes da instituição da qual faz parte. O DNA de sua “Mãe” predomina sobre o DNA de Cristo. Qualquer pessoa que não saia das entranhas de sua “Mãe” não é seu irmão, na pior das hipóteses. Ou, na melhor das hipóteses, é um filho bastardo (mesmo pai, mães diferentes) sem direito ao mesmo sobrenome e portanto à mesma herança do filho “legítimo”.

Os cristãos institucionalizados confudem a Noiva de Cristo com seus vestidos (estruturas religiosas) e elevam os andaimes (estruturas religiosas) ao mesmo nível do Edifício de Deus a ponto de, na falta de algum destes elementos cosméticos (edifício, liturgia, CNPJ, etc), já não conseguirem enxergar a Ekklesia. Este é um caso óbvio de MIOPIA ECLESIOLÓGICA, ou CNPJlatria.

Pedras que dão à luz

Quando João Batista foi levantado para profetizar e batizar no deserto, a religião institucionalizada da época enviou emissários para perguntar-lhe quem era ele e quem lhe havia dado autoridade para fazer o que fazia. Ao mesmo grupo de religiosos, João Batista se dirigiu duramente, repreendendo aqueles que ostentavam sua linhagem para advogar privilégios diante de Deus. A estes, João disse que até mesmo de pedras Deus poderia fazer nascer filhos de Abraão.

Este é uma advertência válida nos dias de hoje a todos aqueles que permitiram que o espírito religioso do orgulho denominacional inflamasse seu ego: se Deus pode fazer com que pedras dêem à luz filhos de Abraão, certamente tem poder para fazer nascer filhos de Deus também: pessoas sem linhagem denominacional, sem a linguagem e os costumes igrejeiros de nossos tempos, com vestimentas e pregação diferentes, mas que no entanto estão em sintonia com o que o Espírito está dizendo às igrejas.

Benditas sejam as pedras que dão à luz em tempos em que as mulheres são estéreis.

Conclusão

As instituições religiosas estão passando pelo crivo do pós-modernismo. Sem dúvida Deus ainda usa a Igreja institucional, mas é preciso reconhecer que muitos de seus elementos representam modelos da Igreja Moderna que procuram atender às necessidades de uma geração pós-moderna (que está em busca de uma religião menos litúrgica e mais relacional, de carne e osso).

A Igreja Orgânica busca preencher o vácuo deixado pelas comunidades que se engessaram pelo institucionalismo. A Igreja Orgânica não é G12. Não é “Movimento Sem Igreja”. Tampouco é uma comunidade anárquica. A Igreja Orgânica é uma comunidade de cristãos que apresenta todos os elementos da Ekklesia que a Bíblia nos retrata, dispensando somente os outros elementos que, com o passar dos séculos, foram sendo agregados ao modus operandi da Igreja – certas coisas que os CNPJólatras confundem com a própria Ekklesia em si, mas que não obstante não fazem parte de sua natureza: são somente elementos humanamente criados, totalmente dispensáveis à vida da Ekklesia.

Nota

[1] Este amor denominacional em exagero é comum no coração daqueles que foram tomados por um espírito religioso, semelhante ao dos religiosos dos tempos de Cristo. Tais colocam o nome de uma determinada organização acima do Reino. Eles ignoram que o Reino de Deus é muito maior do que a ínfima organização que representam. Um pouco de conhecimento sobre a História da Igreja talvez traria algumas rachaduras a este orgulho institucional, pela conscientização de que suas organizações são relativamente novas comparadas com a idade da Igreja do Senhor (não remetem aos tempos apostólicos) e que um dia suas instituições também foram consideradas grupos rebeldes e filhotes desgarrados da “Santa Madre Igreja” da época.


© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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9 Comentários
  1. 11 de maio de 2010 18:30

    Olá Hugo, quero dizer que concordo plenamente com seu artigo. Em todos os aspectos. como você sabe sou de uma igreja institucional, mas a cada dia tenho me tornado menos institucionalizado. Tento ver o Reino acontendo, até mesmo na Internet.

    Como escrevi num blog hoje, comentando um artigo sobre os desigrejados, me parece gritaria semelhante a que aconteceu quando surgiu o G12: pastores que estão perdendo ovelhas, quase que demonizando quem é irmão, mas simplesmente cansou de rodar a roda da engrenagem.

    Fica na paz, vou citar seu artigo lá no blog.

    Marcus Vinicius
    http://marcusviniciuscomenta.blogspot.com/

  2. 12 de maio de 2010 11:28

    Olá Hugo,

    Gostei da expressão do Marcos Vinicius ao dizer que embora ainda faça parte da instituição ele não é institucionalizado. Acredito que há um clamor no interior dos verdadeiros discípulos de Jesus, pela restauração da simplicidade da igreja, por uma comunidade orgânica e não institucional. Sem dúvida, estamos vivendo um momento ímpar na história da igreja.

    Hoje existe uma verdadeira concorrência no meio evangélico. Exemplo: A denominação X é fruto de divisão da denominação Y, mas ao mesmo tempo elas são parecidas, portanto, são concorrentes. Vendo assim, os fiéis passam a ser tratados como clientes na corrida do mercado da fé.

    Fica na paz.

    No amor de Jesus

    Edu
    Arujá – SP

  3. Ronaldo Maia Corrêa permalink
    13 de maio de 2010 21:21

    Deus está preparando os odres no Brasil. Uma revolução está acontecendo secretamente e ao mesmo tempo em baixo dos nossos narizes, aleluia!! Creio que é o prenúncio do fim, o Senhor preparando sua igreja para recebê-lo. Maranata Senhor Jesus!

  4. 17 de maio de 2010 18:39

    Onde se localiza essa igreja nos lares Americana que aparece no vídeo acima? Quem puder responder eu agradeço… Isso tem sido comum nos EUA?
    Paz
    Dani

  5. Hugo permalink*
    17 de maio de 2010 18:54

    Danielli,

    As Igrejas nos lares estão espalhadas por todos os EUA.

    Este é um fenômeno que vem ocorrendo discretamente na América. Não penso que ainda é algo comum, mas está crescendo.

  6. Edye permalink
    20 de maio de 2010 10:18

    Você poderia ter resumido todo o seu discurso com somente duas palavras,
    PODER e DINHEIRO.
    Eles são o tesouro pelos quais os pastores institucionais guerreiam, infelizmente não pelas almas.

  7. 27 de junho de 2010 3:33

    Meu caro irmao,

    Como já disse em artigos lidos por você lá no Púlpito Cristao, nao acredito em nenhuma forma de igreja que abra mao da doutrina biblica para parecer atraente à geraçao pós-moderna, como fazem os emergentes de teologia liberal, alguns dos quais se reunem em casas.

    Também nao creio em uma igreja em que todos se consideram pastores, sendo cada crente pastor de si mesmo. Entendo que embora cada cristao possa ter um ministério, nem todos temos os mesmos dons, e a igreja (seja ela no lar ou em templo construído para este objetivo) precisa reconhecer a necessidade deste ministério.

    Finalmente, gostaria de citar um comentário informal do rev. Augustus Nicodemus, o qual expressa algumas opinioes que também sao minhas, sendo estas razoes as que me impede em crer no tal cristianismo “desisntitucionalizado”, nem no protestantismo “pós-igreja”:

    “Se quiséssemos nos organizar hoje para viver com simplicidade este “mínimo” acima, teríamos necessariamente de:

    – ter um local regular de reunião, quer seja numa casa, quer seja num salão alugado, quer seja num templo construido. Este último tem mais vantagens, caso nosso grupo comece a crescer, as crianças começarem a chegar – quem vai cuidar delas? e onde?

    – definir quem são os líderes. Para isto, teremos de nos organizar num sistema de escolha, etc. para evitar que gente destemperada e autoritária assuma a liderança. Isso se chama “estatuto” e geralmente se registra em cartório.

    – definir o que cremos, pois afinal somos cristãos e não um clube social.

    – quem paga pelas despesas de água, luz, telefone, cafezinho, da casa ou local de reunião? Vai ser preciso levantar ofertas regulares ou escolher um sistema de contribuição para fazer face às despesas que inevitavelmente ocorrerão.

    – Se um membro do grupo se sentir injustiçado e for à justiça comum com ação de perdas e danos, pois ele é homossexual e queria ser o líder do grupo, e foi rejeitado – vamos precisar ter um estatuto do grupo, registrado em cartório, que nos garanta o direito de decidirmos quem pode ser membro ou lider do grupo.

    Em outas palavras… taram taram! eis uma igreja organizada e institucionalizada!! Para que, entao, reinventarmos a roda?”

    Diante disso, aclaro que estou disposto a reconhecer e honrar qualquer irmao, igreja ou movimento que se encaixe no que mencionamos acima (doutrina, liderança, culto), seja ele em casas ou templos construídos para este fim. Aliás, é meu dever reconhecê-los e honrá-los. Contudo, desprezo a tentativa inocente e pouco útil de “desinstitucionalizar” a coisa, bem como me oponho ferrenhamente àquelas mentes medíocres que pensam que um simples CNPJ descaracteriza um grupo como igreja de Deus.

    Assim como um CNPJ nao é prova irrefutável de que somos a verdadeira igreja, também a falta de um registro jurídico nao faz de uma igreja no lar a expressao correta e completa do autentico cristianismo.

    Um grande abraço, e que Deus te abençoe sempre.

    Leonardo Gonçalves.

  8. Hugo permalink*
    27 de junho de 2010 4:31

    Caro Leonardo,

    Obrigado por seu comentário.

    Publiquei um artigo dedicado inteiramente a responder as suas colocações e espero que possamos continuar este diálogo:

    http://paoevinho.org/?p=4919

    Saludos y bendiciones a la iglesia en Peru, con o sin casas de adoración o estatutos.

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