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Perigos Emergentes – Introdução

10 de abril de 2010

Muitos estão perguntando hoje em dia o que é Igreja Emergente (IE). Particularmente, como alguém que se desiludiu com a Igreja Institucional em 1998, sempre usei o termo “Igreja emergente” para descrever uma Igreja atenta ao que o Espírito de Deus diz às igrejas da atualidade. Antes de conhecer a Vila Emergente (Emergent Village) e seus derivados, sempre entendi que a IE era uma companhia profética que surgia às margens do institucionalismo eclesiástico como uma espécie de “João Batista” que emerge no deserto, ou seja, fora do arraial da “religião oficial” – vivendo de forma simples, sem pompa, sem “linhagem clerical” e portando uma mensagem profética e cortante para sua geração.

Ainda creio que este é o correto conceito de IE e muitos emergentes concordarão com esta descrição. Particularmente, porém, deixei de aplicar o termo às minhas idéias porque penso que, a cada dia que passa, o termo “emergente” é associado a práticas vão muito além da proposta simplista de meus conceitos. Antes, eu via e definia a IE de um ponto de vista mais avivalista (isto é, a restauração e a expressão da Igreja gloriosa de Ef. 5:27 na terra no final dos tempos). Entretanto, a IE atual se edifica nas bases de um fenômeno mais intelectual do que místico. É um movimento filosófico pós-moderno que permeia igrejas de diferentes tradições e escolas teológicas, tanto dentro como fora do institucionalismo cristão.

Devemos entender que ainda não é possível encapsular todos os emergentes em uma única categoria. A primeira coisa que aprendemos a respeito do movimento emergente é que ele ainda é amorfo do ponto de vista teológico. Não há uma determinada teologia ou uma determinada eclesiologia que caracterize uma Igreja como emergente. Isso se dá porque a IE, como concebida hoje, é uma rede de cristãos oriundos de diversas tradições religiosas na qual se discute a expressão da Igreja em um contexto pós-moderno. Formas alternativas de adoração, evangelismo e vida em comunidade são discutidas de forma ampla e livre nesta nova esfera.

Participantes deste diálogo se apresentam como evangélicos, pós-evangélicos, liberais, pós-liberais, carismáticos, pós-carismáticos e neo-carismáticos. Alguns são anti-institucionais em sua abordagem, outros não. A princípio, a única característica em comum entre todos os emergentes é o descontentamento com a atual Igreja Institucional, o que por sinal é a coluna vertebral e o combustível do diálogo proposto pela Igreja Emergente.

A “desconstrução” é um processo inevitável em todo movimento que clama por reforma. Muitas das tradições que a Igreja foi adquirindo ao longo dos séculos são como pomposos ornamentos em uma grande árvore de natal (pagã) que necessitam ser reavaliados e eliminados, se necessário, de nossa ortodoxia. Como alguém que há mais de dez anos acompanha a Igreja nos lares (hoje em dia conhecida também como Igreja Simples ou Igreja Orgânica), sou simpático a muitas propostas do diálogo emergente que visam a desconstrução de algumas crenças/práticas do evangelicalismo moderno no intuito de fazer da Igreja:

  1. um organismo, e não uma organização, em que relacionamentos pessoais sejam priorizados ao invés de programas religiosos;
  2. uma família em que líderes se apresentem como servos e cooperadores e não como senhores feudais;
  3. uma fraternidade em que a ajuda aos necessitados da Igreja e fora dela seja priorizada;
  4. uma esfera de comunhão em que cada crente desenvolva seu sacerdócio ao invés da manutenção de uma casta clerical;
  5. uma “Igreja missional”, ou seja, uma comunidade cristã que se orienta pelas necessidades do mundo ao seu redor ao invés de girar exclusivamente em torno de sua própria preservação – como reação a uma síndrome da igreja (institucionalizada ou não) que eu particularmente chamo de “eclesiocentrismo” (a Igreja que gira em torno dela mesma).

Todas estas propostas são excelentes à Igreja contemporânea e algo que pessoalmente idealizo. Há, sem dúvida , muitas linhas de intercecção entre o que a Igreja nos lares crê e a IE defende. Este blog foi criado, entre outras coisas, para que tais questões sejam abordadas.

Além das questões acima, é importante identificarmos a coluna vertebral do diálogo emergente: sua ênfase missiológica. Todo o diálogo emergente surgiu a partir da preocupação em se pregar o Evangelho às novas gerações em uma roupagem mais condizente com o contexto pós-moderno. Até aqui, pessoalmente não tenho nenhum problema com a IE.

O que me preocupa, no entanto, e que procurarei abordar nesta série chamada “Perigos Emergentes”, são algumas tendências que parte do movimento está adotando, tendências estas que já começam a dar uma característica predominante à IE. A mais preocupante delas, sem dúvida, é o neoliberalismo teológico.

Em função disso, mestres proeminentes como John Piper já emitiram o atestado de óbito à IE, dizendo que em 10 anos o movimento estará liquidado. Não sabemos de fato se em 10 anos a IE será somente parte da história, mas seguramente podemos utilizar-nos da própria história da Igreja para  discernir os rumos da IE, pois pelo menos no tocante à sua teologia liberal, a IE não se trata de algo novo.  É somente a reciclagem de velhas idéias que já ameaçaram o Cristianismo no passado.

Ainda uso de cautela e hesitação em colocar todos os emergentes “no mesmo saco”, mas tenho a impressão de que em alguns anos o movimento que se denomina como Igreja Emergente será mais conhecida por seu liberalismo teológico, e por suas tristes consequencias, do que necessariamente pelas boas propostas que traz à mesa, acima numeradas. Eis a razão pela qual me dedicarei a discorrer sobre esta e outras questões nesta série de artigos chamada “Perigos Emergentes.”

© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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4 Comentários
  1. Adriana Helena permalink
    10 de abril de 2010 16:33

    Ler os seus artigos tem sido gratificante. Estou há alguns anos passando pelo processo de desconstrução da igreja instituição, o processo começou com alguns questionamentos e quando “eu” não mais queria levar as pessoas “para a minha igreja”, mas até Cristo. Queria falar do amor de Deus para as pessoas, mas pensava que se elas frequentassem a “minha igreja” não encontrariam amor, nem união, nem compaixão… E sim muitos eventos sociais, muita liturgia organizada metodicamente, uma hierarquia que não abre espaço para discussões, um mover do espírito que entendo como mover emocional, um lugar que quer preservar muito mais a instiuição do que as relações entre pessoas…
    Ainda tenho muitas dúvidas, ainda faço parte de uma “igreja” instituição, mas estamos nos reunindo e conversando sobre a igreja orgânica e o que realmente Jesus veio pregar aqui na Terra. Tenho lido Frank Viola e fico grata a Deus quando encontro mais pessoas com as mesmas idéias e interpretações, agradeço pela sua contribuição neste processo importante em que estamos vivendo.

  2. Hugo permalink*
    10 de abril de 2010 22:19

    Adriana,

    Obrigado pelas palavras de apoio. O blog surgiu de uma necessidade pessoal de exteriorizar muitas coisas que eu sentia. E é gratificante quando encontramos mais pessoas que estão passando pelas mesmas veredas. Que Deus abençoe vocês nesta busca.

  3. Edu Lopes permalink
    5 de maio de 2010 11:39

    Prezado Hugo, Graça e paz…

    Tenho gostado muito de ler os artigos postados neste site. Ele tem sido um espaço para repensarmos a igreja. Estamos vivendo dias em que o que havíamos construído sobre a igreja, está sendo desconstruído. O grande desafio agora é reconstruir… E esse não é um processo fácil.
    Concordo plenamente com você no que diz respeito ao liberalismo teológico que pode transformar a igreja emergente num perigo emergente. Acredito que precisamos ser cautelosos e coerentes nesse momento, pois, na busca desenfreada por um cristianismo neo-testamentário, muitos cristãos podem se tornar presas fáceis das velhas heresias que aparecem nos nossos dias como algo novo, mas que já ameaçaram a igreja no primeiro século.

    Que Deus nos ajude… Shalom!

  4. 6 de maio de 2010 19:27

    Amem, Edu.

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