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Fé versus Determinismo

1 de abril de 2010

@Marcus Vinícius: Podemos afirmar, como fazem os neopentecostais, baseados em Isaías 53, que Deus tem que curar todas as enfermidades?

Marcus, obrigado por sua pergunta.

Is 53:4 foi citado por Mateus (8:16-17) com referência às curas realizadas por Jesus. Portanto, não é errado usar a Escritura para encorajar o enfermo e lhe dizer que Deus pode curá-lo. Tiago 5:14-15 também nos diz para orar por cura, ungindo o enfermo com azeite e “o Senhor o levantará.” Assim, temos muitas referências bíblicas que embasam a prática de se impor as mãos sobre os enfermos e orar por cura divina.

Entretanto, uma coisa é pregar e crer que Deus tem poder para curar e outra é pregar que “Deus tem que curar sempre”. A primeira prática se chama fé. A segunda, determinismo, uma vertente da Teologia da Prosperidade que não está restrita ao neopentecostalismo, mas está presente em muitas igrejas pentecostais também.

Fé é orar crendo totalmente que Deus tem poder para curar. A mesma fé diz que ainda que Deus não cure naquele momento, ele ainda nos ama e continua no governo da situação.

As passagens que falam sobre cura devem ser lidas e contrabalanceadas com outras porções igualmente canônicas do Texto Sagrado. Definitivamente, todos podem orar por cura. Mas, comprovadamente, há pessoas que normalmente são mais usadas nesta área do que outras. Estas são aquelas que podemos dizer que possuem o dom carismático de cura. Mas até mesmo os que possuem o dom de cura não “curam em seu próprio nome.” Eles não tem o poder de decretar cura por si mesmos, mas somente sob a direção do Espírito de Deus.

Em diversas passagens, a Bíblia nos diz que Jesus curou a todos os enfermos presentes. Mas houve pelo menos uma circunstancia na Bíblia em que Cristo não curou a todas as pessoas: no tanque de Betesda (Jo 5). Por alguma razão, Cristo fez um paralítico andar, mas em sua soberania não curou os demais enfermos, não porque não podia, mas simplesmente porque não quis. Semelhantemente, as Escrituras dizem que o próprio Paulo deixou Trófimo doente em Mileto (2 Tim 4:20). Paulo, o mesmo apóstolo usado em curas e milagres em outras situações também aconselhou seu discípulo, Timóteo, a tomar vinho “por causa do teu estômago e das tuas freqüentes enfermidades” ( 1 Tim 5:23).

Alguns cessacionistas tentam utilizar estes episódios na vida de Paulo para dizer que o dom de cura já estava cessando nos tempos dos apóstolos. Uma vez que a Bíblia não nos fala a respeito de um tempo anterior à vinda de Cristo em que os dons carismáticos cessariam, nos mandando inclusive orar por cura, digo que o que as Escrituras realmente nos ensinam aqui é que até mesmo aqueles que possuem o dom carismático de cura não têm uma procuração de Deus para curar o tempo inteiro, do mesmo modo que aquele que tem o dom de profetizar não profetiza todo o tempo, mas somente quando apraz ao Espírito.1 Jesus foi o primeiro a dar o exemplo, quando esvaziou-se de si mesmo, tomou a forma de servo (Fp 2:5-7) e disse que “não posso de mim mesmo fazer coisa alguma, mas somente aquilo que vejo o Pai fazer” (Jo 5).

Fé é maturidade. Determinismo é a birrinha dos anões espirituais. A linha entre uma coisa e outra é bem tênue, mas desde que não tenhamos uma postura cética com relação à cura divina, o Senhor nos levará à maturidade à medida que caminhamos com Ele e experimentamos os seus dons, em humildade e serenidade, com os dois pés no chão.

Nota

[1] Isso também responde aos surrados argumentos cessacionistas: “Se os continuístas têm o dom de cura, porque não vão aos hospitais curar todos os enfermos?” ou então “O dom de cura bíblico cessou e não existe mais, porque na Bíblia TODOS os enfermos eram curados”.


© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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One Comment
  1. 5 de abril de 2010 11:49

    Maravilhosa mensagem, obrigado!

    Deus abençoe grandemente!

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