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Cristianismo pós-igreja – Parte 2

24 de janeiro de 2010

Por Frank Viola.

Em meu primeiro artigo, argumentei que o texto usado para fundamentar a visão do cristianismo pós-igreja não aborda a questão da natureza da Igreja. Na verdade, o texto aborda o processo de excomunhão. Agora, apresentarei outras evidências contra a visão pós-igreja. Em minha opinião, ela falha em seis testes importantes:

O Teste das Linguas Originais

Os eruditos em Novo Testamento concordam que a palavra ekklesia (traduzida como “igreja”) significava uma comunidade local de pessoas que se encontravam regularmente. A palavra era usada para denominar uma assembléia grega em uma determinada cidade, onde as pessoas eram “chamadas para fora” de suas casas para encontrar-se (congregar-se) no fórum municipal para tomar decisões pela cidade. A ekklesia cristã é uma comunidade de pessoas que se reúnem e possuem uma vida compartilhada em Cristo.

Como tal, a ekklesia, na maneira como é retratada na literatura neotestamentária, é visível, pode ser tocada, pode ser encontrada em uma localidade e é tangível. Você pode visitá-la. Você pode observá-la. Você pode inclusive viver nela. Biblicamente falando, não se pode chamar um grupo de ekklesia, a não ser que ele tenha o costume de se reunir regularmente.

O Teste da Epístola

A maioria das vinte e uma cartas do Novo Testamento foram escritas a igrejas locais – ekklesias – em diversas cidades. O apóstolo Paulo escreveu uma carta para a igreja em Corinto, por exemplo. Havia ali um corpo de crentes – literal, concreto, em um determinado lugar, que podia ser visitado – que se reunia na casa de Gaio. Ele fez o mesmo à igreja em Tessalônica, Colossos, Filipo, Laudicéia, etc (Col 4:16).

Aqueles que fazem parte de uma “igreja” pós-igreja devem perguntar-se a eles mesmos: “Será que alguém poderia escrever uma carta à minha igreja? Será que esta carta poderia ser recebida pela igreja e lida por todos os seus membros, ao mesmo tempo?”

O Teste da Visita

Se você vivesse no primeiro século, poderia literalmente visitar qualquer igreja. Poderia visitar a igreja em Jerusalém no ano 35 e conhecer a Pedro, Tiago, João e Maria, a mãe de Jesus. Poderia visitar a igreja em Corinto, sentar-se em uma sala de estar na casa de Gaio, e conversar com Estéfanas, Fortunato e Acaico. A casa de Cloé podia visitar a igreja em Corinto e participar de suas reuniões (1 Cor. 1:11). Há muitos outros exemplos.

Pergunta: Se alguém visitar sua cidade, este alguém poderá localizar e visitar sua igreja? Poderá conhecer membros de sua igreja e hospedar-se em suas casas por uma semana?

O Teste da Consistência

Três críticas comumente feitas pelos que abraçam o cristianismo pós-igreja contra a igreja institucional são:

  1. A falta de compromisso das pessoas.
  2. A fé consumista e individualista que eiva o cristianismo ocidental nos dias atuais.
  3. Pouca transformação na vida das pessoas que fazem parte deste sistema.

Ironicamente, estas mesmas falhas podem ser apropriadamente imputadas à “igreja” pós-igreja. O cristianismo pós-igreja estimula a falta de compromisso, porque não há reuniões regulares, nem uma vida em comunidade consistente. Comunicar-se com cristãos na internet é algo virtual.

O cristianismo pós-igreja reflete o mesmo consumismo e individualismo que permeia nossa cultura. Não há devoção ou compromisso com uma comunidade de crentes. É um tipo de igreja em que você determina suas próprias regras. Acontece quando você estiver disposto. A verdade é que o cristianismo pós-igreja é mais conveniente e fácil para a carne do que qualquer outra forma de igreja.

O Teste do “Uns aos Outros”

Ao longo das epístolas do Novo Testamento, há aproximadamente sessenta exortações estilo “uns aos outros”. Todas elas implicam em uma comunidade que nutre relacionamentos bem próximos. Aqui estão alguns deles:

  • Viver em harmonia uns com os outros (Rom. 12:16; 1 Pe. 3:8);
  • Cuidar uns dos outros (1 Cor. 12:25);
  • Servir uns aos outros (Gal. 5:13);
  • Carregar as cargas uns dos outros (Gal. 6:2);
  • Falar uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais (Ef. 5:19);
  • Submeter-se uns aos outros (Ef. 5:21);
  • Perdoar uns aos outros (Col. 3:13);
  • Ensinar uns aos outros (Col. 3:16).

Estes imperativos “uns aos outros” implicam em relações profundas e vida em comunidade.

O Teste do Propósito de Deus

O Novo Testamento deixa bem claro que o propósito de Deus é intensamente coletivo. Deus não está atrás de um grupo de pedras vivas individuais. Ele quer que estas pedras sejam “juntamente edificadas” para formar uma casa para sua total habitação e expressão.

Você não é a Igreja. Tampouco eu. A Igreja é a expressão coletiva de Cristo que é expressa visivelmente em uma localidade, onde as pessoas podem ver, tocar, ouvir, conhecer umas às outras, viver e compartilhar suas vidas no Senhor.

Considere esta analogia de um pai que tem sete filhos. No dia de Natal, ele dá a cada um de seus filhos um instrumento diferente, os quais seus filhos aprendem com afinco. Os anos passam, e cada um deles ama tocar seus instrumentos individualmente. É um prazer para eles.

Anos depois, o pai se senta com todos os seus filhos e diz: “Estou feliz que vocês tenham aprendido a tocar seus instrumentos tão bem. Cada instrumento lhes foi concedido gratuitamente. Mas eu não lhes dei estes instrumentos para que vocês os desfrutassem sozinhos. Estou criando uma orquestra que produzirá um tipo de música que este mundo nunca ouviu. E eu os convidei para fazer parte desta orquestra. Por isso lhes dei estes presentes.”

Assim é com nosso Senhor. O dom da vida eterna não é para nós mesmos. Deus quer uma orquestra em cada cidade. Ele quer um edifício espiritual, não uma coleção de pedras vivas individuais. Ele deseja uma expressão corporativa, que revele seu filho glorioso. E isso requer a renúncia de nosso individualismo e independência.

Conclusão

Em minha opinião, o cristianismo pós-igreja falha nestes seis testes. As raízes deste paradigma estão na tentativa de se praticar o cristianismo sem pertencer a uma comunidade identificável que se reúne para adorar, orar, ter comunhão, edificar-se e cuidar-se mutuamente.

Repito que não há nada de errado em ter comunhão com outros cristãos pela internet, pelo telefone, ou encontrar-se na Starbucks. Particularmente, amo fazer estas coisas. Mas chamar estas atividades de “igreja” ou substituir a ekklesia por estas coisas é um erro.

Fonte: Out or Ur. Tradução: Pão & Vinho.

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One Comment
  1. Wanderlei permalink
    30 de julho de 2012 18:11

    Penso que não somente o cristianismo pós-igreja falha nestes seis testes, como qualquer instituição cristã, ou mesmo comunidades cristãs também falham. E por que falhamos? Simplesmente pelo fato de que não somos capazes de fazer (ao menos pelos nossos próprios esforços), o que a igreja primitiva fez.

    “E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns. E os apóstolos davam, com grande poder, testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça. Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha”. (Atos 4:32-35).

    Amados, será mesmo que estamos dispostos a vender nossas herdades ou casas para repartir com nossos irmãos menos favorecidos, de acordo com a necessidade de cada um, para que não haja entre nós necessitado algum? Mas ainda que não sejamos capazes de tal feito, isso faremos, se o Senhor assim desejar, mas tudo a Seu tempo. Portanto, todos falhamos não somente nesses seis testes, mas no teste maior de de Atos 4:32-35, que no meu humilde entendimento fala melhor.

    No amor do Mestre, graça e paz!!

Comentários encerrados.

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