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Retornando à Galiléia

6 de janeiro de 2010
Este artigo é a continuação de Peregrinos na Pós-modernidade.

“Tenho desprezo pela religião organizada. Já passei dessa fase.”

“Não dependo de uma instituição para ser cristão.”

“Considero-me uma pessoa espiritual, mas não religiosa.”

“Amo a Jesus, mas não quero saber da Igreja. O cristianismo organizado, católico ou protestante, está cheio de gente hipócrita.”

“Sou contra a religião porque virou empresa. Deus está nas pequenas coisas.”1

Preparem-se para escutar, mais e mais, as frases acima. Estamos no pós-modernismo, onde o cristianismo está passando pelo crivo de uma nova geração que desconfia da religião institucional, de suas hierarquias eclesiásticas, de sua pompa e de seu formalismo religioso.

De repente, as pessoas se cansaram da fúnebre liturgia dos conservadores e da histeria dos carismaníacos. Os pregadores com suas belas oratórias, a música animada, as belas catedrais, aos poucos foram perdendo a cor e a graça. A indiferença social, marcada pela prática de enfeitar capelinhas e negligenciar o pobre (dentro e fora das capelinhas) se tornou inaceitável. A religião institucional, de repende, deixou de ser um espetáculo pelo qual vale a pena pagar (literalmente) para ver.

Os peregrinos decidiram sair em busca de uma igreja mais orgânica, mais pessoal, mais simples e mais espontânea. Na caminhada, devemos estar preparados para enfrentar, de forma apologética, o relativismo, o universalismo e o secularismo sorrateiramente embrulhados em atraentes propostas de uma “ortodoxia generosa”.  Estamos passando pela estiagem pós-moderna, onde absolutos não existem e o inferno (que tampouco existe) se enche de boas intenções.

Ganharemos, no entanto, se sairmos de uma postura meramente defensiva e, mediante o contexto em que vivemos, analisarmos as áreas em que temos falhado como Igreja, principalmente no tocante a uma eclesiologia mais simples e mais comunitária. A geração pós-moderna, em meio a todos os sofismas que a assolam, está em busca da autenticidade de uma ortodoxia menos ritualística, mais servicial e acima de tudo, mais afetiva e pessoal – o que, até então, não é nenhuma blasfêmia, pois este é o modelo de Ekklesia que as Escrituras nos propõem.

A bem da verdade, Jesus não gastou tempo administrando organizações religiosas. Como discipulador, sua prática tampouco se resumia em levar seus discípulos a uma sinagoga para “estudar a Bíblia”. Ele caminhou com seus discípulos e os chamou para viver com ele. Ele não concedeu títulos e não estabeleceu hierarquias entre eles. Ele sequer proporcionou formação acadêmica a seus discípulos,2 mas formou seu caráter por meio da convivência e com demonstrações práticas de serviço ao próximo.

A Igreja moderna se assemelha mais a uma multinacional, estilo General Motors ou Microsoft, do que com a Ekklesia neotestamentária – o triste resultado de um processo de mutação que ocorreu ao longo de dois milênios de cristianismo. Os conservadores justificam suas práticas eclesiológicas (organização, edifícios, hierarquias, etc) apresentando-as como componentes de um modelo inocente, que simplesmente reflete as tendências culturais de um cristianismo que “evoluiu” (isto é, se institucionalizou) com o tempo. Para eles, toda esta discussão a respeito da necessidade que a Igreja (não) tem de possuir edifícios, hierarquias ou estruturas organizacionais é uma perda de tempo, pois os contrastes entre a Igreja Primitiva – totalmente informal e descentralizada – e a Igreja moderna representariam somente uma questão cultural que não merece ser considerada.

Quem sabe os teólogos conservadores, que consideram as nuances culturais do passado para usá-las a seu favor (na manutenção do modelo eclesiológico da Igreja moderna), poderão também fazer uso do mesmo peso e da mesma medida ao analisar também as mudanças de paradigmas que estão ocorrendo na pós-modernidade, e assim reavaliar sua eclesiologia …

Devemos rejeitar o relativismo pós-moderno e a espiritualidade sem compromisso, mas igualmente devemos reconhecer que as rígidas estruturas que herdamos do catolicismo medieval nos levaram a, muitas vezes, vivenciar uma igreja plástica, sem calor humano, com muito ativismo religioso, mas pouca afetividade entre os membros. Possuímos a “doutrina correta”, mas toleramos a heresia de um sistema religioso movido à programas, que favorece a prática de uma fé platônica e individualista – em que se idolatra o conhecimento (bibliolatria), mas se negligencia a vida comunitária (koinonia), a ajuda ao necessitado e o serviço (ministério) de todos os santos.

Obviamente, não podemos nos afundar em um estilo de vida que perpetua a solidão, em nome de um idealismo que nos pode levar a um isolamento pior do que aquele que vivenciamos na Igreja institucional. Peregrinar não é para todos (sugiro aos que estão contentes com a religião organizada que sirvam a Deus com sinceridade de coração e lá permaneçam), mas aos dotados de uma veia mais idealista, o êxodo é inevitável e nesta peregrinação haverá erros e acertos.

Alguns pastores mais conservadores já denunciaram este êxodo como uma fuga da realidade, alegando que a igreja é imperfeita e que melhor do que sair do sistema institucional seria nele permenecer para enfrentar seus problemas e resolvê-los. Minha opinião é que a afirmação pode até soar correta, mas não é realista. O cristianismo institucionalizado possui um eixo bem posicionado que gira em torno de atividades religiosas (pulpitocentrismo) e da manutenção de sua estrutura (templocentrismo). Mudar este eixo de lugar seria praticamente cometer “suicídio institucional”, o que causaria mais confusão, feridas e estragos na vida de pessoas sinceras que amam a Deus.

Não temos a pretensão de achar que Deus já não se utiliza do sistema denominacional e que agora somos “os profetas da vez”. Entretanto, sentimos que é nosso desafio, em meio à estiagem pós-moderna, cavar novos poços, fora dos arraiais do institucionalismo, e eliminar de nossa ortodoxia todas as coisas que entendemos não serem essenciais à vida da Igreja – deixando de lado o ativismo religioso e vivendo uma eclesiologia mais comunitária, de partir o pão de casa em casa, de buscar a Deus em simplicidade e de servir os mais necessitados em nosso meio. Temos o dever de dar ao ensino das Escrituras seu devido lugar em nossa ortodoxia, mas devemos aprender a depender menos dos oradores evangélicos e seus sermões (promovendo um estilo de estudo bíblico mais participativo e menos passivo). Como obreiros da lavoura de Deus, devemos aprender a formar o caráter e não somente o intelecto das ovelhas, a sermos educadores do Evangelho (discipuladores) mais na prática do que na teoria. Devemos abandonar um kerigma meramente posicional, para viver uma cristologia “transformacional”, em que não somente “teologizemos” a respeito da graça, mas que juntos busquemos, como juntas e medulas bem ajustadas, crescer à estatura do varão perfeito – que é o cumprimento total da obra da graça na vida da Igreja.

Voltemos à Galileia, lugar de intimidade, onde o Mestre escolheu doze não para levá-los a uma sinagoga, mas para estar com ele, viver com ele, comer com ele, dormir com ele, rir com ele e aprender com ele.

Ecclesia semper reformanda est.

Nota

[1] Dita pelo rapper Mano Brown, vocalista do grupo Os Racionais.
[2]
A formação acadêmica não representa necessariamente um problema, desde que se entenda que o que forma um mestre do Reino não é o seu diploma teológico e sim o seu dom natural. Mestres são reconhecidos e estabelecidos na Igreja por naturalmente operarem no dom de ensino, e não por uma instituição terrena que lhes concede um pedacinho de papel. Particularmente, conheço excelentes mestres do Reino que jamais passaram por um instituto bíblico. Biblicamente falando, a formação acadêmica não deve ser um requisito para a obra do ministério. As heresias não se propagam na Igreja pela falta de treinamento acadêmico, e sim por causa daqueles que operam fora de seu dom (por exemplo, profetas ou evangelistas que se aventuram a ensinar doutrina). Precisamos de eruditos nas linguas originais e em outras áreas teológicas, mas a formação acadêmica não eleva o obreiro a um nível superior aos demais membros do presbitério. Mestres no Reino de Deus operam em igualdade e submissão a outros membros do presbitério local (profetas, evangelistas e pastores). A especialização, nestes termos, pode ser conquistada por aqueles que assim desejarem.

Leitura Recomendada

O que Definirá uma Igreja Orgânica nos Próximos Anos – Partes 1, 2 e 3.


© Pão & Vinho

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One Comment
  1. 20 de abril de 2011 13:12

    O fenômeno pós-igrejismo ou Cristianismo Pós-Igreja(CPI) é muito complexo porque não podemos abrir mão da organizacionabilidade no Reino de Deus e nem de uma espiritualidade cristã sem conhecimento objetivo das Sagradas Escrituras.Entendo que o pós-modernismo é uma realidade chocante, confrontadora e contundente, mas o Espírito Santo ainda reina soberanamente no seio da igreja do Senhor Jesus; Ele vai apontar as estratégias santas que a igreja precisará usar nestes tempos de mudanças radicais e ninguém irá perder o seu rumo espiritual, mesmo numa sociedade onde a institucionalização da igreja ou a hierarquização da mesma seja tratada com desconfiança.

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