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Peregrinos da Pós-Modernidade

3 de janeiro de 2010

A estiagem pós-moderna e seus efeitos …

Um dos fenômenos que testemunharemos mais e mais nos dias atuais é aquilo que particularmente chamo de “peregrinos pós-modernos”.

Algumas características do pós-modernismo são a rejeição ao cristianismo institucionalizado, suas hierarquias eclesiásticas e seu formalismo religioso; um interesse na vida comunitária, na justiça social e em uma “espiritualidade não religiosa”. Como resultado, há hoje um discreto êxodo de pessoas da Igreja tradicional que estão partindo em busca de uma expressão de fé mais genuína e autêntica que, supostamente, não pode mais ser encontrada em meio aos emaranhados institucionais.

Entre aqueles que se identificam como cristãos, posso identificar três tipos de peregrinos pós-modernos:

1) Aqueles que, influenciados pelo relativismo da pós-modernidade, vêem o compromisso doutrinário do cristianismo ortodoxo como uma atitude beligerante e procuram se desassociar de um sistema fechado de valores absolutos (doutrina), característico da Igreja Protestante. Na opinião destes peregrinos, os dogmas do protestantismo geram uma fé exclusivista. Para eles, a Igreja se tornou ensimesmada e indiferente com as mazelas de nossa sociedade. Por estas e outras razões, estes peregrinos se denominam, entre muitas coisas, “cristãos pós-protestantes”.  Eles estão em busca de uma religião mais relevante em um contexto pluralista pós-moderno, o que se traduz por uma ortodoxia mais inclusivista e igualitária, de serviço ao próximo e que promova o diálogo aberto com outros grupos religiosos. Exemplos disso são os diálogos ecumênicos, iniciativas de ação social (cuja espinha dorsal, na America Latina, é em grande parte formada por postulados da Teologia da Libertação) e, em uma atitude mais “inclusivista”, o apoio à união civil homoafetiva (casamento gay) promovidos por parte da Igreja Emergente.

2) O segundo tipo de peregrino pós-moderno é aquele que não tem pretensões tão idealistas quanto à relevância da Igreja na pós-modernidade, mas está simplesmente cansado da liturgia oca da religião institucionalizada. Este tipo de peregrino pós-moderno preferiu adotar uma expressão de fé informal e desprovida de ritualismos (espiritualidade sem religiosidade). O slogan destes peregrinhos é “onde quer que eu esteja, eu sou Igreja”. A idéia por trás desta afirmação é que as pessoas são a Igreja, e que não necessitamos fazer parte de uma congregação para estar na Ekklesia. Estes pensam que se “dois ou três estiverem reunidos” para comer na Lanchonete do Zé, aí está a Igreja. Não há um compromisso formal de congregar-se e cultua-se uma fobia a qualquer coisa que cheire “organização” ou “sistema religioso”.

3) O terceiro grupo de peregrinos é composto por aqueles que rejeitam o relativismo e o secularismo característicos na pós-modernidade, mas entendem que a Igreja está engessada em um modelo eclesiológico medieval que necessita ser reformado. Em outras palavras, estes peregrinos são essencialmente evangélicos que não propõem uma mudança nas questões doutrinárias essenciais à fé (como a soteriologia, por exemplo), mas sim uma reforma radical nos odres do institucionalismo cristão, com seus templos e castas clericais. Na concepção destes peregrinos, a Igreja moderna sofre de eclesiocentrismo, pois gira somente em torno da manutenção de sua própria estrutura (programas, cargos assalariados e manutenção de edifícios) e daí derivam todos os seus problemas: falta de comunhão entre os membros, falta de discipulado e crescimento espiritual, falta de serviço (ministério de todos os santos), etc. Há uma busca pela restauração dos dons espirituais, do dinamismo e da simplicidade que caracterizaram a Igreja Primitiva.

Os três grupos conseguem corretamente apontar os problemas da máquina eclesiástica que herdamos do catolicismo medieval. Mas o primeiro tipo de peregrino erra ao abraçar o liberalismo teológico.1 Já o segundo peregrino peca por adotar uma “espiritualidade sem religiosidade” que se traduz em uma fé sem compromisso, uma informalidade excessiva que desintegra o Corpo de Cristo em uma determinada localidade.2 O terceiro grupo, longe de estar isento de erros, é o que me parece estar caminhando em uma direção mais segura. Em minha opinião, apenas erra quando se perde ao longo da caminhada, e acaba não produzindo nada além de uma versão em miniatura, “mais enxuta”, daquilo que eles mesmos condenavam.

Nem todas as propostas da pós-modernidade são vãs ou heréticas. Devemos sair de uma postura meramente defensiva e analisar as áreas em que temos falhado como Igreja, principalmente no tocante a uma eclesiologia mais simples e mais comunitária, como veremos na segunda parte deste artigo.

Notas

[1] Esta ala da Igreja Emergente abraçou a filosofia pós-moderna na formação de seus conceitos, que prega a inexistência da verdade: o que é verdade para você, pode não ser verdade para outros. Tais patrocinam uma visão “anti-fundamentalista” que elimina todos os absolutos da fé cristã (o único absoluto é a “lei do amor”). Assim, o inferno não existe e a cruz é uma propaganda enganosa do evangelho. Nesta prática de fé universalista, o sacrifício de Cristo deixa de ser entendido como um ato expiatório em favor da humanidade, para tornar-se somente um exemplo de pacifismo e auto-negação por parte do Mestre. As Escrituras Sagradas deixam de ser vistas como a Palavra de Deus, para tornar-se um mero produto cultural de Israel da antiguidade. Seguindo a tendência pós-moderna, os emergentes liberais substituem os aspectos sobrenaturais da fé e o compromisso doutrinário pelo “evangelho social.”
[2] Toda expressão de Igreja que envolva o “congregar” requer algum tipo de “sistema”. O corpo humano é formado por diversos sistemas (nervoso, digestivo,  linfático, etc) com suas diversas rotinas, o que não o torna necessariamente um robô. Todo indivíduo possui algumas rotinas básicas (escovar os dentes, tomar banho, ir ao trabalho) o que tampouco o torna um robô. A ausência total de rotinas e sistemas no universo – ou na vida de um indivíduo – resultaria  em caos. O mesmo se aplica à Igreja: nosso desafio não é o de viver uma Igreja sem nenhum tipo de sistema no congregar e financiar o Reino, mas o de  tornar a prática destas coisas a mais simples e orgânica possível, eliminando toda distração e burocracia religiosa de nosso meio. Infelizmente, muitos que saem do cristianismo organizado  se tornam demasiadamente informais e “soltos”, isto é, sem vínculos formais com uma congregação, contrariando o mandamento apostólico em Hb 10:25. Estes praticam um tipo de igreja virtual e imaginária, perpetuando um estilo de vida solitário, indisciplinado e descomprometido que não contribue para a edificação do indivíduo, nem para a expansão do Reino na terra. É o fenômeno que particularmente chamo de pós-igrejismo.


© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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3 Comentários
  1. 10 de janeiro de 2010 1:41

    Olá!
    Passando pra avisar que repostei seu texto no meu blog, e fiz uma breve crítica (construtiva, calma) a ele.
    Abs e a Paz!

  2. Hugo permalink*
    10 de janeiro de 2010 4:49

    @Robson Lima: Visitei o seu blog. Pode dissecar o texto à vontade, amigão. Obrigado pela visita!

  3. 20 de abril de 2011 12:44

    A temática dos decepcionados com a igreja institucionalizada não pode ser confundida com os fenômenos socio-eclesiológicos objetivos, tais como Igreja Emergente(IE),Movimento da Igreja nas Casas(MICas),Movimento dos Sem Igreja(MSI),Movimento dos Desigrejados Peregrinos(MDP) ou Movimento dos Sem Religião(MSRel). A temática exige mais reflexão,muito debate, mais discussão e profundo estudo das Escrituras Sagradas diante da globalização, da secularização religiosa e da crise do pensamento ocidental. Vamos aprofundar esta questão?

Comentários encerrados.

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