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Cristão Reformado? Não. Cristão ReformANDO.

30 de novembro de 2009

Apesar de nutrir grande admiração pelos irmãos conservadores, entre eles algumas mentes reformadas, discordo da postura que alguns deste meio têm com relação à Reforma. A tendência que muitos reformados têm de endeusar os reformadores, ao mesmo tempo em que ignoram ou demonizam os outros movimentos de reforma que os sucederam é, além de uma hipocrisia do ponto de vista histórico, uma idolatria ideológica.

(r)evolution

(r)evolução

No blog anterior, escrevi alguns artigos de natureza apologética, alguns bem ácidos com relação a uma onda de cristãos liberais que estão surgindo, sobretudo no movimento conhecido por alguns como Igreja Emergente. Por causa de minha ênfase na infalibilidade da Bíblia, na cruz de Cristo e na depravação do gênero humano, atraí um certo número de irmãos reformados (calvinistas) ao sítio.

Por mais de uma vez fui indagado, por email e também nos comentários do blog, se sou calvinista. Digo em público o que outrora já disse em privado: não sou um cristão reformado. Sou um cristão reformANDO.

Penso que alguns conservadores pararam no tempo. A auto-suficiência de alguns reformados (que ignoram ou demonizam outros movimentos que sucederam a Reforma) e a nostalgia que desenvolveram com relação à Reforma Protestante é fruto de ignorância, na melhor das hipóteses, e na pior delas se deve a uma tendência religiosa que o povo de Deus tem de resistir à mudança. Historicamente falando, todo movimento de reforma rejeitou o movimento que o sucedeu.

Qualquer cristão que conheça um pouco de História da Igreja, seja cessacionista ou carismático, reconhecerá que a Igreja contemporânea fez muitos avanços desde os tempos da Reforma. Mas, aos que discordam de mim neste ponto, gostaria de dar-lhes um presente, se fora possível: uma viagem ao século XVI na máquina do tempo. Tenho certeza que muitos de meus oponentes voltariam decepcionados.

Veriam que Lutero, por exemplo, tornou-se um antissemita declarado. Favorecia o domínio classista da aristocracia, perseguindo os plebeus cansados das injustiças sociais de seu tempo. Não somente era pedobatista (cria na eficácia do batismo infantil), como também mandava “batizar” os anabatistas que decidiam rebatizar-se mediante o arrependimento e a fé em Cristo – matando-os afogados. Certamente muitos em nossos dias se escandalizariam com alguns dos ícones da Reforma, se seu conceito a respeito dos reformadores fosse menos romântico e mais realista.

Não quero demonizar o grande reformador Martinho Lutero. Seria estupidez de minha parte não reconhecer o legado que tanto ele como Melanchton, Calvino, Zwinglio, Knox e outros irmãos deixaram para a Igreja de nosso Senhor. Sou, como muitos, um beneficiário dos sacrifícios que estes irmãos, apesar de suas limitações, fizeram e que deram origem à Reforma. Minha intenção é somente provar duas coisas: 1) nenhum movimento de reforma é perfeito e suficiente em si mesmo 2) a Reforma Protestante foi um mover profético de Deus no século XVI, mas não representa o fim da agenda restauracionista de Deus – foi necessário que outras gerações tomassem a tocha profética da mão dos reformadores e dessem continuidade na restauração da Casa do Senhor. E assim será até a consumação dos tempos, até a restauração de todas as coisas (At 3.20,21; Hb 10.12,13).

Os conservadores adoram citar Lutero, e inclusive usar algumas de suas citações anticarismáticas, como se tais palavras fossem ex-cathedra e tivessem mais peso na ortodoxia da Igreja do que os ensinos do apóstolo Paulo na questão do carismata. A verdade, porém, é que a Reforma Protestante mudou conceitos, mas tocou de forma superficial na espiritualidade das pessoas (os anabatistas que o digam). Seria incompleta sem os anabatistas, sem o movimento pietista, sem os avivamentos de santidade e o avivamento pentecostal ocorridos entre os séculos XVIII e XX.

Em todos estes movimentos houve falhas e excessos, facilmente detectados e amplamente documentados na História. Não obstante, o Senhor em sua soberania se encarregou de separar o trigo do joio e um legado nos foi deixado, apesar das limitações dos vasos de barro que foram usados. A tendência que os conservadores têm de endeusar os reformadores, ao mesmo tempo em que demonizam todos os outros movimentos de reforma que os sucederam é, além de uma postura hipócrita do ponto de vista histórico, uma idolatria ideológica. Antes de mandar os católicos quebrarem seus ídolos de barro, é necessário que os protestantes comecem a quebrar seus próprios santinhos ideológicos.

Como a moda da vez, além de bater nos neopenteco$tai$, é ridicuralizar os carismaníacos do ré-té-té e o balê dos sapatinhos de fogo, o que mais encontro na rede são sítios que se denominam “apologéticos”. Meus olhinhos castanhos chegam a arder e lacrimejar sempre que leio nestes sítios alguns suspiros nostálgicos do tipo: “devemos viver o evangelho pregado por Lutero e Calvino”, ou “devemos voltar às raízes da Reforma”.

É sempre bom recordar os fundamentos. Mas o problema destes auto-denominados apologistas é que sabem somente apontar e ridicularizar o óbvio, mas não sabem identificar certas heresias corporativas cometidas por suas próprias instituições religiosas como, por exemplo: a hedionda divisão entre reverendos e leigos que o protestantismo herdou de Roma (ironicamente, uma das inovações da Reforma foi a premissa do sacerdócio universal) e deste narcisismo institucional, que faz com que a Igreja gaste mais com seus edifícios, e demais elementos de uma estrutura eclesiástica grego-romana, do que com os pobres, os órfãos e as viúvas dentro e fora de suas congregações.

Não sou reformado. Sou reformANDO, porque creio que a Reforma ainda não acabou. Como diziam os próprios reformadores, Ecclesia semper reformanda est (a Igreja sempre necessita ser reformada). Entendo que assim como Deus promoveu uma reforma na doutrina (séc. XVI) e na espiritualidade (séc. XVIII – XVIV), o Espírito de Deus está se movendo agora rumo a uma reforma eclesiológica. Sim, porque embora ostentemos com muito orgulho as “cinco solas” da Reforma Protestante, eclesiologicamente falando, ainda somos meros católicos com uma doutrina melhorada.

É lamentável que, em pleno pós-modernismo, os nostálgicos ainda queiram viver a Igreja de 500 anos atrás e percam tanto tempo discutindo o que Calvino pensava a repeito da música, ou se Lutero falava em línguas. É por toda esta idolatria ideológica, e pela incapacidade de enxergar a reforma que ainda necessita ser feita na Casa de Deus, que o próprio Senhor está permitindo que muitos emergentes liberais (que enxergam certas coisas como elas são) tenham mais expressão nesta geração do que muitos daqueles que rezam a correta soteriologia dos reformadores.

Quando a estéril Ana estava confortável em sua posição de esposa preferida de Elcana, Deus permitiu que Penina tivesse filhos para provocá-la ao ciúmes (1 Sam 1). Foi preciso que Penina a humilhasse com seus filhos para que Ana se derramasse em intercessão diante de Deus, e assim saísse de seu conformismo estéril. Receio que, em nossa geração, Deus permitirá que muitas Peninas surjam com pencas de filhos por todos os lados, para que assim Ana possa ser sacudida e abandone esta lastimável complacência intelectualóide em que vive.

Sola Scriptura, Sola Fide, Sola Gratia, Solo Christo, Solo Deo Gloria …

Ecclesia semper reformanda est.

© Pão & Vinho

Este artigo está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcial ou integralmente, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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One Comment
  1. Evelin Olívia Fróes permalink
    30 de novembro de 2009 10:41

    Gostei! Finalmente um texto para denunciar a hipocrisia e a arrogância dos evangélicos! Eles são experts em fazer listas de seitas e listas de heresias, mas são incapazes de se olhar no espelho. Parece que aquele versículo de Jesus ordenando (não foi um pedido, foi uma ordem!) que os hipócritas tirassem primeiro a trava dos seus olhos antes de tirar o cisco no olho do próximo ainda não entrou nos corações reformados. Eu também acho muita arrogância da parte dos evangélicos criticar católicos, mórmons, testemunhas de Jeová, etc. Por que eles não fazem uma auto – avaliação? uma auto – crítica? É como você Hugo disse: os protestantes estão cheios de si, e eu Evelin estou cansada das igrejas evangélicas.

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