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Evangélicos – Sintomaticamente Apocalipticos

6 de novembro de 2009

O tema “O Cristão e a Política” ainda é um tabu na Igreja Evangélica brasileira. De um lado, os triunfalistas neopentecostais, com seu plano estratégico para a “Redenção Nacional”. De outro lado, o pessimismo evangélico tradicional, de quem pensa que não vale a pena lutar no processo democrático para que vivamos em uma nação melhor. Será que é possível encontrar um equilíbrio entre os extremos?

urnaOs triunfalistas neopentecostais aliam a evangelização à uma maratona de “atos proféticos”, cuja constância e falta de espontaneidade genuinamente profética me faz lembrar certos rituais pagãos para apaziguar divindades. Parte de sua estratégia de Redenção Nacional também inclui a infiltração de cristãos na política nacional que, infelizmente, muitas vezes não representam os interesses do Reino, e sim os interesses das instituições religiosas que os elegeram.

No outro extremo, a maioria dos evangélicos totalmente aversos a qualquer tipo de militância ou a carreira política. Tais entendem que não vale a pena lutar no processo democrático para que vivamos em uma nação melhor.

Não creio no utópico triunfalismo neopentecostal, que em parte é uma teologia importada dos anglo-saxões americanos. Bíblica e historicamente falando, não há e nunca haverá nenhuma nação redimida na terra, com exceção de Israel Teocrático. Penso, entretanto, que assim como o triunfalismo é um extremo, igualmente infundado é este pessimismo descomedido que faz com que os crentes banquem as avestruzes sociais ao enfiar a cabeça em um buraco, ignorando o contexto político-social em que vivemos.

Sempre entendi que, até que sejamos arrebatados, devemos aspirar por tempos de refrigério e vida tranquila em nossa nação. Justamente por isso, Paulo nos exorta a orar por todos os homens investidos de autoridade (1 Tim. 2:1-4). E penso que o próximo passo para obtermos tempos de refrigério, depois de orar, é participar do processo democrático, por meio do voto consciente e, em alguns casos, por meio da vocação à carreira política.

Temos que eliminar de nossas mentes este tabu que transformou a carreira política em algo ilegítimo para o cristão. A carreira política é tão legítima quanto qualquer outra, seja medicina, informática ou direito. Já sabemos que este mundo jaz no maligno e que não vamos transformar a terra em um paraíso. Podemos, porém, “amansá-lo” por meio da oração, do voto consciente e da vocação para a política (de acordo à vocação) até que nosso Senhor regresse para nos buscar.

O Paradoxo da “Parousia” Evangélica

Ironicamente, a Igreja brasileira vive, na maior parte do tempo, como se Jesus nunca fosse voltar. Hoje em dia, a Igreja Evangélica, em grande parte, cobra o dízimo do pobre de forma legalista para investir em empreendimentos imobiliários, como se fôssemos ficar aqui para sempre (em contraste com os crentes de Atos dos Apóstolos, que vendiam suas propriedades para alimentar os pobres). Porém, quando o assunto é política, a maioria da “crentaiada” já está de malas prontas para subir e, tomados por um espírito apocalíptico, dizem que a corrupção que está aí é o fim do mundo, que a coisa vai piorar e que, portanto, não há nada mais a ser feito.

Com todo o respeito que devo a estes irmãos, pergunto: Por que as pessoas que pensam desta forma não tiram seus filhos da escola? Por que não param de trabalhar? Por quê não vendem tudo o que têm e dão para os pobres, antes do soar da trombeta? Por que as denominações evangélicas não vendem suas riquezas corporativas para aliviar o sofrimento dos desfavorecidos, tanto dentro como fora da Igreja? Obviamente ninguém faria isso nos dias de hoje. Boa parte dos evangélicos faz planos para viver neste mundo – às vezes como se Jesus não fosse jamais voltar – mas quando o assunto é política, de repente se tornam sintomaticamente apocalípticos…

Quero esclarecer que não dou um centavo furado por esta corja de oportunistas, ditos evangélicos, que usam a Igreja como plataforma política. Penso que o cristão deve passar pelo crivo da sociedade como um todo, representando os interesses do povo em geral, desfrutando de credibilidade tanto dentro como fora da Igreja ao lutar por valores morais e pelo bem comum, demonstrando caráter e integridade. Não acredito nos políticos de araque que começam nos púlpitos com a suposta pretensão de defender “os interesses da Igreja”, mas estou disposto a dar um voto de confiança a um cristão “comum” que comece na carreira política de forma legítima: nas favelas, nos guetos, na Associação de Amigos de Bairro, no condomínio do prédio, etc, e cuja evidente vocação seja a luta pelo bem comum.

Temos que reconhecer que se ainda não sucumbimos mediante o liberalismo total que se instala na Europa atualmente, é pela presença de certos valores cristãos em nossa sociedade e consequentemente na política (em grande parte, uma herança católica). Esta é a única razão pela qual o aborto não foi liberado de forma geral, os gays (ainda) não tem o privilégio da união civil, e homossexualismo (ainda) não é ensinado aos nossos filhos na rede escolar como mais uma “opção sexual”.

A Igreja na Política

Não sou a favor de uma Igreja na política e penso que a separação entre Igreja e Estado (Estado Laico) é o melhor remédio contra as catástrofes da Idade Média. A Igreja, como entidade, não deve abraçar nenhuma ideologia política. A agenda da Igreja, cuja missão possui, em parte, um aspecto social (quando alimenta os pobres e abraça os excluídos da sociedade), não se orienta por nenhuma ideologia humana, seja de direita ou esquerda.

Justamente por acreditar neste muro de separação, sou averso à Teologia da Libertação (favorecida pela Igreja Emergente/missional), que erroneamente mescla os interesses da Igreja com a agenda marxista/esquerdista. Tampouco estou de acordo com a posição dos conservadores evangélicos norte-americanos que atrelam seus interesses como Igreja aos do Partido Republicano de direita. A igreja é uma entidade espiritual, norteada pelos interesses do Reino de Deus e não pelos interesses de qualquer poder instituído ou de uma ideologia humana.

Como muitos, tenho “pesadelos medievais” somente em pensar em uma Igreja na política, no entanto defendo o desenvolvimento de uma maior consciência individual entre os cristãos quanto ao contexto político-social em que vivem, o exercício do voto consciente, o direito de fazer militância e, em aguns casos, de perseguir a carreira política – de acordo à suas vocações e convicções individuais.

O cristão, como qualquer cidadão, deve participar de seu contexto sócio-político. Entretanto, no caso de exercer militância ou perseguir a carreira política, sua filiação ou orientação partidária devem ser exercidas de forma livre e independente da Igreja como um todo. Sua fidelidade deve ser, acima de tudo, bíblica e não partidária/ideológica.

Nossa experiência como congregação, no sul da California, é a de ter que lidar com irmãos republicanos e irmãos democratas. Entre nós há aqueles que amam Obama, e também aqueles que pensam que ele é o anticristo. Como obreiro, particularmente, esforço-me por não cometer o engano que muitos cometem neste país, que é o de atrelar a agenda da Igreja a um determinado partido político. Como Igreja, nos movemos de forma totalmente independente das agendas políticas deste país, e não influenciamos os discípulos a votarem para um ou outro canditado, mas a seguirem suas consciências individuais.

O Testemunho da Bíblia e da História

Não podemos “redimir nações.” Realisticamente falando, um “novo Israel” está fora de alcance do Estado Democrático. O sistema deste mundo é como um leão que pode até ser parcialmente domesticado por um tempo, até que seus instintos o levem a tentar  nos devorar. Entretanto, tanto a história bíblica como a secular nos mostram que podemos amansar um pouquinho este leão, ainda que temporariamente. As Escrituras nos mostram que Deus pode se utilizar de estadistas tementes a Deus na contenção do caos e da injustiça total, enquanto nos for permitido.

Se homens como José e Daniel puderam fazer a vontade de Deus, sem se contaminar em pleno regime totalitário, porque homens de Deus na atualidade não poderiam fazer a diferença na contenção do caos (traduzindo: na aprovação e na execução de leis alinhadas com princípios cristãos) em pleno regime democrático?

William Wilberforce (1759 – 1833) foi um político cristão que lutou contra o escravagismo na Inglaterra. Seu compromisso era com sua consciência cristã, e não com seu partido político. Sua luta repercutiu em todo o mundo e mudou os rumos do tráfico negreiro, inclusive no Brasil (foi por pressão da Inglaterra que o Brasil foi forçado a abolir a escravidão). Sua história é relatada no filme Amazing Grace e é uma prova de que Deus ainda pode levantar homens tementes a Ele para mudar os rumos de povos e nações.

O pastor Martin Luther King Jr. (1929 – 1968) não foi político, mas foi um dos principais militantes contra o apartheid racial nos EUA. O Movimento por Direitos Civis nos EUA tirou os negros americanos do status de “cidadãos de segunda categoria”.

Em um país como o Brasil, onde há tanta corrupção e impunidade, é difícil para o brasileiro comum ter alguma esperança de que as coisas estarão melhores. Entretanto, orar por nossa nação não é uma sugestão, é um mandamento apostólico. Se, ao cumprimos este mandamento, projetarmos todo o pessimismo que a maioria evangélica tem com relação ao país e sua política, nossas orações serão canceladas (pela falta de fé) e não passarão do teto de nossas casas. Portanto, todo cristão que deseja tempos de refrigério sobre a nação deve ter a esperança de tornar seu país um pouco melhor (não perfeito), através da oração, do voto consciente e da carreira política – por parte daqueles que possuem tal chamado.

Que o Senhor possa levantar, em nossa nação, homens e mulheres cristãos com o caráter de José e Daniel, que não se contaminem com os manjares deste mundo, e não se prostituam em alianças profanas, mas que tenham uma plataforma profética para trabalhar em favor dos planos de Deus para o país, até o dia de nossa Redenção.

© Pão & Vinho

Este artigo está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcial ou integralmente, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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2 Comentários
  1. Evelin Olívia Fróes permalink
    6 de novembro de 2009 8:19

    Gostei! É isso aí! Ainda bem que falamos a mesma língua, engraçado como quase não discordamos (só discordei uma vez, no blog anterior, daquele texto sobre os grogues da América). É preciso equilibrar realismo com otimismo, mas não é fácil. Temos que orar não somente pelos políticos tradicionais (do Executivo e do Legislativo), mas também do Judiciário, pelo Ministério Público, pela Defensoria Pública e pela Advocacia, pois todas essas instituições têm influência e importância nos rumos econômicos e políticos do Brasil. As boas novas eu trago do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que está fazendo um excelente trabalho para aperfeiçoar, tornar transparente e democrático o Poder Judiciário no Brasil. Se Deus influi na política, então a CPI do Poder Judiciário instaurada em 1999 foi divinamente providencial, pois uma das consequências foi a Reforma do Judiciário pela Emenda Constitucional 45/2004. No início o corporativismo falou mais alto, ninguém queria fiscalização de juízes e tribunais, mas graças a Deus o CNJ vem mostrando a que veio. Eu, quando era advogada, não tinha esperanças de mudança no Judiciário brasileiro, sinceramente não acreditava na nossa Justiça, mas depois que conheci o trabalho do CNJ no seu site http://www.cnj.jus.br eu finalmente voltei a ter esperanças na Justiça brasileira.

  2. Evelin Olívia Fróes permalink
    6 de novembro de 2009 18:53

    Hugo, tem um vídeo do programa Sem Fronteiras do canal Globonews dentro do site da Globo sobre os 20 anos da queda do muro de Berlim. Lá você vai perceber que a igreja protestante alemã contribuiu para a queda do muro da vergonha. Eis o link:

    http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1368907-17665,00-O+MUNDO+CELEBRA+OS+ANOS+DA+QUEDA+DO+MURO+DE+BERLIM.html

    Se não der certo pelo link é só entrar na http://www.globo.com.

    Bom proveito!

Comentários encerrados.

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