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Os Guinness: "Precisamos de uma Reforma na Igreja Institucionalizada"

31 de outubro de 2009
Os-Guiness

Os Guiness

Considerado por alguns como o sucessor de Francis Schaeffer, Os Guinness é filho de missionários britânicos e nasceu na China de cultura budista durante a Segunda Guerra Mundial. O teólogo concedeu uma entrevista à Cristianismo Hoje. Nela Guiness dá sua opinião a respeito de diversos temas relacionados com a fé cristã. Guiness é episcopal (anglicano) e suas palavras nos dão a perspectiva de uma das mentes pensantes da Igreja institucional a respeito das mazelas e das atuais tentativas de reforma na Igreja.

Apontando os erros sem discernir a verdade

E esta é uma área em que Schaeffer exagerou um pouco e fez muito estrago. Ele atacava Soreen Kierkergaard ou Karl Barth por causa de algo particular na sua posição geral – e isso foi um erro. E aí ele dispensava todo o conteúdo do autor, o que é perigoso. Kierkergaard pode ter coisas que não concordamos, como o seu salto de fé, que é muito subjetivo. Mas devemos lembrar que ele atacava a religião seca e abstrata de seu tempo. A mesma coisa é verdade em Bonhoeffer, Barth e outros. A igreja nos seus primórdios, tinha uma pequena frase que dizia: “Toda a verdade é a verdade de Deus”. Então devemos ser os primeiros a reconhecer a verdade. É claro que se um irmão cristão estiver certo, como Kierkergaard, devemos rapidamente reconhecer seu lado certo, não focar sua fraqueza. Mas devemos fazê-lo com discernimento.

Sobre o Cristão na Política

Apenas o cristianismo dá uma visão de mundo que oferece soluções coerentes e definitivas para as incertezas que estamos atravessando. Por isso, o cristão não pode ter medo de engajar-se no debate dos problemas mundiais.

[Mas] se você pegar os últimos 50 anos nos Estados Unidos, existem dois extremos que os evangélicos abraçaram. Um é o extremo privado – a fé, nesta concepção, é vista como algo extremamente pessoal, e, portanto, publicamente irrelevante. E isso foi o que aconteceu com a maioria dos cristãos americanos. Infelizmente, eles dormiram ao longo de toda a década de 1960, o período mais crucial da história do país no século 20. Quando acordaram, lá por meados da década seguinte, foram para o outro extremo: adotaram uma fé politizada e confiaram aos políticos mais do que eles podem fazer. Sob muitos aspectos, isso levou a fé cristã americana a se tornar serva do Partido Republicano.

Essa atitude da direita cristã, sua subserviência ao republicanismo, criou uma resistência contra a religião de uma maneira geral, e especificamente, em relação ao Evangelho. Agora, sob a presidência de George W. Bush, essa resistência chegou ao seu mais alto grau. As pessoas dizem assim: “Se Bush é religioso, eu não quero ser religioso”. E o fato é que aqueles que apoiaram Bush e ajudaram a elegê-lo – os evangélicos – agora estão pagando por esse erro. Eu argumentaria que o cristão deveria estar engajado politicamente, mas nunca abraçado e unido a um partido ou ideologia.

O maior de todos os políticos evangélicos foi William Wilberforce, um conservador que, apesar disso, votou contra seu próprio partido quando concluiu que ele estava errado. Ele nunca foi um homem do partido; e antes de mais nada, era um homem de princípios, que agia de acordo com sua consciência cristã. Nos Estados Unidos, os cristãos têm que se libertar das algemas do Partido Republicano. Agora, seria igualmente horrível ir para o outro lado e fazer a mesma coisa em relação aos democratas.

Sobre a Hipocrisia

A coisa que faz com que os não-cristãos fiquem mais enojados com a nossa fé é a hipocrisia. É a atitude daquelas pessoas que dizem uma coisa e praticam outra. Neste sentido, a hipocrisia tem sido o grande obstáculo à fé. E ninguém teve uma posição mais contrária à hipocrisia do que Jesus – então, quando nós, que dizemos ser seguidores de Cristo, somos hipócritas, estamos traindo tudo aquilo que o Mestre nos chamou a ser. Erasmo, no tempo da Renascença, disse: “Se quisermos levar os turcos para Cristo, precisamos, antes de mais nada, sermos cristãos nós mesmos”. Hoje, ocorre a mesma coisa. Toda vez que um cristão não vive no padrão de Jesus, estamos vulneráveis à acusação de hipocrisia.

Sobre o Futuro das Denominações Protestantes

Há uma resistência às instituições hoje. No mundo globalizado, as nossas instituições – incluindo a família e a Igreja – estão claramente perdendo a força. Talleyrand, um político francês do século XIX, disse que, sem indivíduos, nada acontece; mas sem instituições, nada permanece. Hoje, muito se fala da fé dos sem-igreja, e isso acaba levando a uma espiritualidade muito ruim e contrária à Bíblia. Muitos cristãos, sobretudo os jovens, têm uma percepção equivocada daquilo que devem almejar. As pessoas dizem: “Posso adorar a Deus num campo de golfe da mesma maneira que na igreja”. Sem dúvida. Mas esse tipo de fé, além de não ter respaldo bíblico, não tem força – é como um cogumelo que cresce na madrugada e de manhã já desaparece. A Igreja é uma instituição da qual precisamos; porém, a Igreja institucionalizada está perdendo sua verdade. Nós precisamos de uma instituição com verdade, com vida. Precisamos, portanto, de uma reforma das instituições.

Sobre a Falsa Dicotomia entre o Secular e o Sagrado

Não é que os cristãos não estejam aonde deveriam estar; o problema é que eles não são o que devem ser, exatamente onde estão. E precisamos de cristãos que saibam como aplicar o senhorio de Jesus e fazer a integração de sua fé em cada parte, em cada esfera da vida. A fé de cada um precisa ser integrar ao todo de sua vida. Os crentes devem viver de maneira cristã, devem trabalhar de maneira cristã. Quem é advogado e conhece Jesus deve exercer a advocacia de maneira cristã. Isso vale para qualquer um que professe fé no Salvador – o médico, o técnico da computação, o lixeiro. Só assim teremos chance de ser sal e luz e ganhar de volta a cultura. Infelizmente, o número de cristãos que pensam é uma minoria. Nas Escrituras, temos o mandamento de amar ao Senhor nosso Deus com todo o nosso entendimento. Mesmo assim, muitos cristãos simplesmente não pensam. Dessa forma, nunca conseguiremos ganhar o mundo moderno, a não ser que tenhamos uma geração que aprenda a pensar biblicamente e de maneira cristã.

Sobre o Pós-modernismo

Esse pós-modernismo tem raízes em Nietzsche e outros pensadores tremendamente anticristãos. O que é mais chocante é que o pós-modernismo tem muita força entre os evangélicos na Inglaterra e nos Estados Unidos, bem como em outras partes do mundo – e, pelo que ouço falar, aqui no Brasil também. É irônico porque floresce na França nos anos 1960 quando não havia terreno para crescer na Alemanha do pós Guerra. Daí quando perde força na França, ela floresce nas universidades americanas – bem quando as universidades francesas já tinham abandonado essas idéias. Mas o que é mais terrível ainda, é que agora está florescendo entre os os cristãos em boa parte do mundo. E isso no exato momento em que essas idéias estão morrendo nas universidades americanas.

Conhecemos o principio do mercado de investimentos: compra-se na baixa, vende-se na alta. Se você quer fazer lucro, jamais poderá comprar na alta e vender na baixa. Mas os evangélicos têm esse habito estúpido de abraçar as idéias bem quando elas estão moribundas. E são sempre as últimas pessoas acreditando nessas idéias passageiras. O pós-modernismo é profundamente anti-bíblico. É o grande perigo que ronda a fé cristã hoje.

O antídoto [para isso] é um entendimento biblicamente pleno da verdade, da Palavra e do Espírito. E eu espero que o colapso do pós-modernismo crie um vácuo e que a fé cristã seja suficientemente forte – cultural, intelectual e teologicamente – para ocupar esse espaço e fazer a diferença.

Entrevista Completa: Revista Cristianismo Hoje.

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3 Comentários
  1. Evelin Olívia Fróes permalink
    31 de outubro de 2009 11:42

    Os Guinnes está corretíssimo! Em tudo, incrível! Os evangélicos dos EUA confundiram Cristianismo com ideologia de direita do Partido Republicano e é óbvio que eles sempre serão vistos com antipatia. A mentalidade deles é tão ideológica a ponto de ser simplesmente contra a Reforma do Sistema de Saúde que o Presidente Barack Obama quer fazer… esses pseudo – cristãos (porque são hipócritas como bem denunciou Os Guinness) querem negar a um segmento vulnerável da sociedade americana o direito básico de acesso à saúde ao mesmo tempo que se dizem contra o aborto e a eutanásia. Os Fariseus do tempo de Jesus corariam de inveja de tanta hipocrisia!
    Wilberforce é que deveria ser o modelo de político cristão a ser seguido: nem direita e nem esquerda, simplesmente bíblico e cristão. Podem criticar a Marina Silva e o Flávio Arns à vontade, mas eles deixaram o PT porque têm brios, têm honestidade, e são fiéis aos seus princípios, e isso é um fato. Se todos os políticos cristãos brasileiros fossem como eles o Brasil seria muitíssimo melhor!
    Quer dizer que a filosofia pós – moderna já perdeu terreno nas academias européia e estado – unidense? Que excelente notícia! Aqui no Brasil os intelectuais continuam pós – modernos, infelizmente. Eu sou uma das poucas estudantes da minha turma de especialização que não segue o relativismo filosófico, moral e cultural, o restante é muito de esquerda e pós – moderno. Esse povo está atrasado e precisa ser avisado da perda de credibilidade do pós – modernismo nas academias do hemisfério norte. É incrível como o Brasil e os evangélicos conseguem chegar tão atrasados!

  2. Evelin Olívia Fróes permalink
    13 de novembro de 2009 10:01

    Olá Hugo! Graças a Deus estou finalizando minha monografia, espero terminar bem e a tempo! Na minha última pesquisa “descobri” (porque eu já os conhecia de leitura de jornais, mas não em profundidade) dois filósofos alemães que com certeza contribuíram para o descrédito da filosofia pós – moderna: Jürgen Habermas e Karl – Otto Apel, mas principalmente o Apel. Vale a pena lê – los, o Apel é um que diz combater o relativismo filosófico. Pena que ainda tem gente no Brasil, salvo raras exceções como Luiz Felipe Pondé que escreve para a Folha de São Paulo, que ainda insiste na tecla surrada do relativismo. Nem tudo está perdido no terreno das idéias, ainda bem!

  3. 11 de maio de 2011 19:45

    Tenho uma forte impressão de que a Igreja Evangélica Contemporânea não se preparou como Jesus orientou: não olhou os sinais dos tempos. E agora está perplexa e sem respostas objetivas para problemas reais que o mundo global está apresentando.Cadê os pensadores da Igreja? Cadê os profetas de Deus? Cadê os pastores segundo o coração de Deus, conforme Jeremias 3:15?Reforma na Igreja não acontecerá sem estratégias apresentadas pelo Deus da Igreja.

Comentários encerrados.

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