Skip to content

A Maldição da Culpa

18 de outubro de 2009

Por John Piper

culpaEm 26 anos de pastorado, o mais perto que eu havia chegado de ser demitido da Igreja Batista Bethlehem foi em meados da década de 1980, depois de escrever um artigo intitulado Missões e masturbação para nosso boletim. Eu o escrevi ao voltar de uma conferência sobre missões presidida por George Verwer, presidente da Operação Mobilização. No evento ele disse como seu coração pesava pelo imenso número de jovens que sonhavam em obedecer completamente a Jesus, mas que acabavam se perdendo na inutilidade da prosperidade americana. A sensação constante de culpa e indignidade por causa de erros sexuais dava lugar, pouco a pouco, à falta de poder espiritual e ao beco sem saída da segurança e conforto da classe média.

Em outras palavras, o que George Verwer considerava trágico – e eu também considero – é que tantos jovens abandonem a causa da missão de Cristo porque ninguém lhes ensinou como lidar com a culpa que se segue ao pecado sexual. O problema vai além de não cair; a questão é como lidar com a queda para que ela não leve toda uma vida para o desperdício da mediocridade. A grande tragédia não são práticas como a masturbação ou a fornicação, e nem a pornografia. A tragédia é que Satanás usa a culpa decorrente desses pecados para extirpar todo sonho radical que a pessoa teve ou poderia vir a ter. Em vez disso, o diabo oferece uma vida feliz, certa e segura, com prazeres superficiais, até que a pessoa morra em sua cadeira de balanço, em um chalé à beira de um lago.

Hoje de manhã mesmo, Satanás pegou seu encontro das duas da manhã – seja na televisão ou na cama – e lhe disse: “Viu? Você é um derrotado. O melhor é nem adorar a Deus. Você jamais conseguirá fazer um compromisso sério para entregar sua vida a Jesus Cristo! É melhor arrumar um bom emprego, comprar uma televisão de tela plana bem grande e assistir o máximo de filmes pornográficos que agüentar”. Portanto, é preciso tirar essa arma da mão dele. Sim, claro que quero que você tenha a coragem maravilhosa de parar de percorrer os canais de televisão. Porém, mais cedo ou mais tarde, seja nesse pecado ou em outro, você vai cair. Quero ajudá-lo a lidar com a culpa e o fracasso, para que Satanás não os use para produzir mais uma vida desperdiçada.

Cristo realizou uma obra na história, antes de existirmos, que conquistou e garantiu nosso resgate e a transformação de todos que confiarem nele. A característica distintiva e crucial da salvação cristã é que seu autor, Jesus, a realizou por completo fora de nós, sem nossa ajuda. Quando colocamos nele a fé, nada acrescentamos à suficiência do que fez ao cobrir nossos pecados e alcançar a justiça que é considerada nossa. Os versículos bíblicos que apontam isso com mais clareza estão na epístola de Paulo aos Colossenses 2.13-14: “Quando vocês estavam mortos em pecados e na incircuncisão da sua carne, Deus os vivificou com Cristo. Ele nos perdoou todas as transgressões e cancelou o escrito de dívida, que consistia em ordenanças, e que nos era contrária. Ele a removeu, pregando-a na cruz”.

É preciso pensar bem nisso para entender plenamente a mais gloriosa de todas as verdades: Deus pegou o registro de todos os seus pecados – todos os erros de natureza sexual – que deixavam você exposto à ira. Em vez de esfregar o registro em seu rosto e usá-lo como prova para mandar você para o inferno, Deus o colocou na mão de Seu filho e pregou na Cruz. E quem são aqueles cujos pecados foram punidos na cruz? Todos que desistem de tentar salvar a si mesmos e confiam apenas em Cristo. E quem assumiu essa punição? Jesus. Essa substituição foi a chave para a nossa salvação.

Alguma vez você já parou para pensar no que significa Colossenses 2.15? Logo depois de afirmar que Deus pregou na cruz o registro de nossa dívida, Paulo escreve que o Senhor, “tendo despojado os poderes e as autoridades, fez deles um espetáculo público, triunfando sobre eles na cruz”. Ele se refere ao diabo e seus exércitos de demônios. Mas como são desarmados? Como são derrotados? Eles possuem muitas armas, mas perdem a única que pode nos condenar – a arma do pecado não perdoado. Deus pregou nossas culpas na cruz. Logo, houve punição por elas – então, seus efeitos acabaram! O problema é que muitos percebem tão pouco da beleza de Cristo na salvação que o Evangelho lhes parece apenas uma licença para pecar. Se tudo que você enxerga na cruz de Jesus é um salvo-conduto para continuar pecando, então você não possui a fé que salva. Precisa se prostrar e implorar a Deus para abrir seus olhos para ver a atraente glória de Jesus Cristo.

Culpa Corajosa

A fé que salva recebe Jesus como Salvador e Senhor e faz dele o maior tesouro da vida. Essa fé lutará contra qualquer coisa que se coloque entre o indivíduo salvo e Cristo. Sua marca característica não é a perfeição, nem a ausência de pecados. Quem enxerga na cruz uma licença para continuar pecando não possui a fé que salva. A marca da fé é a luta contra o pecado. A justificação se relaciona estreitamente com a obra de Deus pregando nossos pecados na cruz. Justificação é o ato pelo qual o Senhor nos declara não apenas perdoados por causa da obra de Cristo, mas também justos mediante ela. Cristo levou nosso castigo e realiza nossa retidão. Quando o recebemos como Salvador e Senhor, todo o castigo que ele sofreu, e toda sua retidão, são computados como nossos. E essa justificação vence o pecado.

Possuímos uma arma poderosa para combater o diabo quando sabemos que o castigo por nossas transgressões foi integralmente cumprido em Cristo. Devemos nos apegar com força a essa verdade, usando-a quando o inimigo nos acusar pelas nossas faltas. O texto de Miquéias 7.8-9 apresenta o que devemos lhe dizer quando ele zombar de nossa aparente derrota: “Não te alegres a meu respeito; ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei (…) Sofrerei a ira do Senhor, porque pequei contra ele, até que julgue a minha causa e execute o meu direito”. É uma espécie de “culpa corajosa” – o crente admite que errou e que Deus está tratando seriamente com ele. Mas, mesmo em disciplina, não se afasta da bendita verdade de que tem o Senhor ao seu lado!

Há vitória na manhã seguinte ao fracasso! Precisamos aprender a responder ao diabo ou a qualquer um que nos diga que o Senhor não poderá nos usar porque pecamos. “Ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei”, frisou o profeta. “Embora eu esteja morando nas trevas, o Senhor será a minha luz.” Sim, podemos estar nas trevas da iniqüidade; podemos sentir culpa, porque somos, realmente, culpados pelo nosso pecado. Mas isso não é toda a verdade sobre o nosso Deus. O mesmo Deus que faz nossa escuridão é a luz que nos apóia em meio às trevas. O Senhor não nos abandonará; antes, defenderá a nossa causa.

Quando aprendermos a lidar com a culpa oriunda de nossos erros com esse tipo de ousadia em quebrantamento, fundamentados na justificação pela fé e na expiação substitutiva que Cristo promoveu por nós, seremos não apenas mais resistentes ao diabo como cometeremos menos falhas contra o Senhor. E, acima de tudo, Satanás não será capaz de destruir nosso sonho de viver uma vida em obediência radical a Jesus e de serviço à sua obra.

Fonte: Cristianismo Hoje

Anúncios
5 Comentários
  1. Evelin Olívia Fróes permalink
    18 de outubro de 2009 11:56

    Belo texto! Mas antes da conversão e da salvação é preciso ter um relacionamento de discipulado: Jesus o nosso Mestre e nós os seus discípulos. Pois até o apóstolo Paulo disse que não saberia o que é o pecado se antes ele não conhecesse a Lei. Os judeus messiânicos costumam dizer que o maior erro do Cristianismo é ver Jesus apenas como Salvador e não como seu Senhor (Rei). E eu acrescento: o outro maior erro do Cristianismo é não ver Jesus como Mestre. Eu descobri o óbvio, mas o antissemitismo presente nas igrejas não consegue enxergar: Jesus Cristo foi, nessa ordem,: 1º) Criador; 2º) Mestre (lembra da aula que ele proferiu aos doze anos?); 3º) Médico e Pastor; 4º) Salvador e Rei.
    Os evangélicos preferem ficar somente com o Jesus Médico (os milagres de cura) e o Jesus Salvador (perdão dos pecados e salvação). O Jesus Criador, o Mestre, o Pastor e o Senhor são rejeitados! Explico: O Jesus Criador é rejeitado, porque muitos evangélicos, principalmente conservadores, pensam que cuidar da criação é movimento Nova Era, cristão não pode ser ambientalista, os acidentes ecológicos não trazem consequências que os cristãos tenham que se preocupar, etc; O Jesus Mestre é Rejeitado, pois se Ele é a Palavra, por quê se restringem aos Evangelhos, por quê essa espécie de alergia ao Antigo Testamento? Parece que o AT só serve para fins escatológicos, quando o assunto é a Torah a acusação mais comum e surrada é a de legalismo, mas sem o conhecimento da lei, como poderei conhecer minhas transgressões para me arrepender delas?; O Jesus Pastor também é rejeitado devido à estrutura hierarquizada e centralizada no sacerdote das igrejas, os padres e pastores não pastoreiam como deveriam, alguns só querem saber de poder e riquezas e fama…; O Jesus Senhor é rejeitado também pela mesma razão do Jesus Mestre: a alergia à Torah equivale à alergia ao Direito Divino que consta na Torah e esparsamente nos outros livros do Antigo e do Novo Testamento. Pois são justamente essas leis as que vigerão e terão eficácia no Reino Milenar.
    Digo isso porque existem muitos pastores (é só fazer uma pesquisa na internet, é assombroso!) que nos pedem para fazer a Oração do Pecador ANTES do estudo da Bíblia, um absurdo! A perspectiva judaica da igreja desaparece! Jesus foi Mestre antes de ser crucificado e coroado! Jesus ensinou para que o povo se convertesse. Mas as igrejas estão colocando a carroça na frente dos bois, não à toa que não ensinam como lidar com a culpa! Eu já passei por uma crise espiritual por causa dessa maldita prática de fazer a Oração do Pecador sem antes investigar minha vida à procura de meus pecados, pois conversão verdadeira não pode ocorrer se ainda existirem pecados escondidos! Somente o estudo da Palavra é que pode trazer à luz todos os pecados escondidos. Somente assim Deus aceita nosa oração , nos perdoa e Jesus nos salva.
    Devemos reivindicar TODOS os títulos de Jesus Cristo e não apenas alguns!
    Eu também espero uma segunda chance, eu cai ao tentar me converter sem sucesso, espero que Deus me levante e me aceite de novo.

  2. Hugo permalink*
    19 de outubro de 2009 0:30

    Evelyn,

    Concordo plenamente que a ênfase evangélica geralmente está somente na salvação e por anos pouco se falou na questão de discipulado. Mas eu acredito que o Senhor está restaurando esta verdade entre os mais atentos ao que o Espírito de Deus está falando às Igrejas.

    Não creio na graça barata (sou de orientação wesleyana), mas pessoalmente não creio que a salvação dependa do conhecimento ou do cumprimento da Torah, e sim da revelação espiritual de Jesus Cristo, que é em si mesmo a encarnação e o cumprimento da Torah. Nossa salvação deve estar assegurada nesse relacionamento que temos com o Filho, e não em nada que fazemos ou conhecemos a respeito de Deus.

    Quando Deus me visitou pela primeira vez, ninguém havia pregado coisa alguma a mim ou me discipulado. Foi sua Presença que me tocou, que entrou nesse lugar onde eu estava e, de tão intensa, me assustou e me fez correr para um bosque que havia perto de onde eu estava. Neste momento, tive convicção de pecados e entreguei minha vida ao Senhor. Não tinha nenhuma teologia, não entendia o sacrifício expiatório e tampouco entendia que Jesus era a Torah encarnada. Entretanto, entreguei minha vida ao Senhor completamente neste dia, e foi a partir daí que o Espírito Santo começou a colocar a Lei em meu coração, ainda não pela Letra, mas pela força do relacionamento que tinha com Ele já neste tempo. Com o tempo é que fui exposto às Escrituras e entendi quem era o Filho de Deus.

    Por isso penso que o conhecimento das Escrituras é imprescindível, assim como uma relação de discipulado. Estas coisas fazem parte do “desenvolver nossa salvação” (Fp 2:12), do crescimento espiritual do talmidim, mas a salvação em si não depende destas coisas porque não se dá por obras, e sim pela simples fé no Filho de Deus.

  3. Luciano Martins permalink
    19 de outubro de 2009 11:41

    Puxa vida. Como eu gosto do John Piper.

    Que Deus o abençoe.

    Quando ele estava com cancer de próstata, escreveu o seguinte:

    NÃO DESPERDICE SEU CÂNCER

  4. Evelin Olívia Fróes permalink
    19 de outubro de 2009 21:45

    Hugo, infelizmente eu não tive o privilégio de ser visitada pelo próprio Jesus Cristo. Creio que Deus já se comunicou comigo várias vezes, mas ainda não tive nenhuma experiência sobrenatural com Deus ou com Jesus. Mas ainda tenho esperança, como eu gostaria de receber a visita do Rei dos Reis… com certeza eu também me converteria dos meus pecados e seria transformada completamente. Mas o conhecimento da verdade eu tenho contigo, com os judeus messiânicos, com outros evangélicos que ousam pensar diferente ao invés de seguir a orientação das massas acriticamente. Há pouco tempo eu aprendi o que é fé… aos poucos Deus vai se revelando a mim, mas infelizmente Jesus ainda não bateu em minha porta…

  5. Ronaldo permalink
    26 de abril de 2010 4:17

    Sinto que tudo isso só acontece num encontro profundo com o Mestre.
    Eu também tive algumas experiências fortes, no início de minha conversão.
    Mas ultimamente estou mais para a parte em que o profeta diz: Verdadeiramente tu és um Deus que se esconde.
    Uma vez eu li algo a respeito de cantares sobre a noiva sair desesperada para encontrar o seu noivo e perguntava para os outros aonde estava o seu noivo.
    Eu estou nessa fase, não o encontro.
    De todos os sonhos que tive com Deus, nenhum se realizou, muito menos na minha conduta pessoal. Às vezes isso abala minha fé e me sinto sozinho.
    A única revelação que tenho tido é de minha podridão e incapacidade. Realmente me sinto completamente incapaz, fraco e desajeitado.
    Mas eu espero que o encontre em algum momento. Diz a palavra que Ele está dentro de mim, mas ainda não consigo discernir, não consigo entender, nem ouví-lo.
    Mesmo no silêncio, na escuridão, não o toco.
    Espero que a vida interior que Ele tem em mim se revele, pois a criação aguarda por esta manifestação.

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: