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Esclarecendo a relação entre o ministério apostólico e as Escrituras

25 de setembro de 2009

PauloO cessacionismo dispensacionalista afirma que o dom apostólico cessou com a morte da geração da Igreja Primitiva. No entendimento dos irmãos que defendem esta crença, um dos requisitos do dom apostólico era redigir as Escrituras do cânon. Os apóstolos supostamente eram um grupo seleto com autoridade exclusiva para escrever e/ou supervisionar a redação dos livros da Bíblia.

A conclusão, portanto, é a de que, uma vez que o cânon já está fechado e a Palavra de Deus está completa, não há e jamais haverá apóstolos que sucedam os apóstolos bíblicos, pois nenhum homem tem o poder de adicionar livros às Sagradas Escrituras.

A verdade, porém, é que este silogismo está comprometido, pois parte de uma premissa totalmente carente de sustentação bíblica. A idéia de que a operação do dom apostólico está relacionada de forma restrita à redação de Escrituras é uma filosofia que se fossilizou ao longo dos anos, mas não é algo que a Bíblia nos ensina, como veremos.

Ironicamente, o primeiro Apóstolo, Jesus (Hb 3.1), não escreveu absolutamente nada além de algumas palavras na areia (Jo 8:6). Dos 12 apóstolos originais, somente uma minoria produziu escritos canônicos (Pedro, João, Mateus). Dos demais apóstolos, somente Judas e Tiago (meio-irmãos do Senhor Jesus) e Paulo escreveram Escrituras. A maioria absoluta dos apóstolos não se preocupou em escrever ou incluir novos escritos no cânon, pois para eles as Escrituras já existiam (o Antigo Testamento) e toda sua revelação apontava para elas.

É mais do que óbvio, portanto, que “escrever ou supervisionar a redação das Escrituras” não é a marca principal do apostolado. O principal papel do ministério apostólico/profético não é expandir o cânon, mas manifestar, no tempo e no espaço, a revelação para a qual o cânon aponta.

A própria Bíblia nos demonstra claramente que, a exemplo de Barnabé, apóstolos e profetas não têm que necessariamente criar novas Escrituras. A principal característica destes ministérios é trazer revelação (literalmente “tiram o véu”) das Escrituras já existentes, pela natureza e operação de seu dom. São catalisadores do Espírito Santo para levar a Igreja da Letra para a Realidade pela Palavra Viva – a manisfestação ao vivo e em cores daquilo que antes estava restrito à letra. Apóstolos e profetas sempre apontam para as Escrituras já existentes, pois elas é que testificam de sua mensagem e de seus frutos. Assim foi com o primeiro Apóstolo, Jesus, assim foi com os demais e assim será com os vindouros.

Um outro equívoco, amplamente difundido entre os cessacionistas dispensacionalistas, é o de que as Escrituras hoje cumprem o papel do ministério apostólico. Em outras palavras, cada vez que a Palavra de Deus no Novo Testamento é lida e proclamada, o ministério apostólico cumpre o seu papel.

Em primeiro lugar, é bom nos recordarmos de que 1 Co 12:28 relaciona o dom apostólico juntamente com os demais dons espirituais. Portanto, é lógico pensar que, assim como os demais dons não cessaram e estão disponíveis à Igreja, do mesmo modo o dom apostólico.

De acordo com Efésios 4.11-13, o plano de Deus é que a Igreja seja suprida com apóstolos e profetas assim como é com pastores, evangelistas e mestres “até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo”. Se ainda não chegamos ao pleno conhecimento do Filho de Deus e à perfeita varonilidade, apóstolos e profetas são tão necessários quanto pastores, mestres e evangelistas.

Paulo uma vez mais lista apóstolos e profetas de maneira indistinta dos demais ministérios. Se o ministério apostólico estivesse restrito a um número limitado de pessoas, Paulo não os teria relacionado com os demais quando escreveu aos Coríntios e aos Efésios. Não há absolutamente nenhuma passagem bíblica que afirme que alguns dons continuariam sendo dados ao Corpo de Cristo e outros cessariam ou seriam substituídos pelas Escrituras.

Como frutos de uma sociedade ocidental, e consequentemente do escolasticismo grego, realmente pensamos que o ministério apostólico se resumia na proclamação e no ensino das Escrituras. Reduzimos o apostolado à mera exposição exegética de um conjunto de doutrinas bíblicas. Como filhotes de Aristóteles, de Sócrates e de Platão, pensamos que realmente podemos entender e manifestar o mistério entre Cristo e a Igreja somente usando o lóbulo frontal do cérebro. Mas o Fundamento apostólico não se limita à mera exposição exegética das Escrituras.

Apóstolos são pessoas que possuem revelação do DNA da Igreja e entendem seu funcionamento. Em outras palavras, o ministério apostólico vai muito além de pregar a “doutrina correta”, mas se estende a capacitar os membros da Ekklesia a operarem em uma dimensão real de sacerdócio universal (algo que a Igreja Protestante somente recita, mas pouco implementa na prática). Quando um apóstolo lançava o Fundamento, como sábio arquiteto (1 Co 3:10), não apresentava um conjunto de doutrinas, mas provocava a manifestação de uma Pessoa no Corpo de Cristo. Os dons apostólico e profético na Igreja funcionam como catalisadores do Espírito que organizam os elementos da Casa de Deus (a Palavra e os dons espirituais) de forma que seus membros operem organicamente, literalmente como o Corpo. Apóstolos e profetas não se limitam a somente estabelecer conceitos corretos, mas também o modus operandi (MO) correto da Igreja, de acordo com os moldes lançados pelos primeiros apóstolos. Isso é lançar o Fundamento apostólico/profético.

O alicerce (fundamento) de uma casa determina sua forma. O MO ou a forma da Igreja atual não reflete o fundamento dos primeiros apóstolos e profetas. Seu fundamento não é apostólico-profético, é fruto de uma tradição greco-romana clerical-templocêntrica que se cristalizou na Casa de Deus ao longo de milênios. A Igreja hoje opera nas bases da organização (institucionalismo romano) e da teologia contemplativa que exalta o poder do conhecimento intelectual (escolasticismo grego), em detrimento da Palavra Viva revelada. O homem está satisfeito com seu modelo greco-romano de Igreja, visto que apresenta uma necessidade inerente de controlar as coisas para se sentir seguro. Apóstolos e profetas nos dias atuais apontam para a revelação bíblica de uma Igreja simples, que opera de forma descomplicada , espontânea, orgânica e acima de tudo descentralizada.

A Igreja sempre teve a Palavra Escrita em suas mãos. Mas anos e anos de tradição religiosa encobriram muitos princípios nela revelados. Necessitamos de apóstolos e profetas nos dias atuais que possam levar a Igreja de volta à simplicidade e ao dinamismo descritos na Palavra Escrita, mas que por falta de revelação, estão congelados na forma da Letra.

É bom ressaltar o óbio: os primeiros apóstolos possuem a primazia. Mas eles são singulares, não porque foram os únicos, mas por que foram os primeiros e portanto estabelecem a referência. São nossos pais espirituais porque, como prudentes construtores, nos apresentaram a planta da Casa de Deus (e ninguém jamais deverá edificar fora das medidas por eles apresentadas). O ministério apostólico nos dias vindouros não fará novas adições à Casa, antes edificará segundo as medidas que foram apresentadas no passado (e que foram encobertas pela tradição religiosa). Não haverá “nova revelação” a ser acrescentada e sim a revelação das coisas que já nos foram dadas nas Escrituras e que outrora estiveram encobertas. Assim foi com o primeiro Apóstolo, assim foi com os demais e assim será com os vindouros. Da Letra para a Realidade. Da Palavra Escrita à Palavra Viva.

© Pão & Vinho

Este artigo está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcial ou integralmente, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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9 Comentários
  1. Elison permalink
    18 de março de 2010 12:27

    Caro Hugo, Deus abençoe, multiple e alarque a tenda do conhecimento e sabedoria Divina sobre sua vida.
    Gostei muito Do texto, coerente, lógico, lúcido mas acima de tudo… BÍBLICO.
    Aquilo que parecia herético, modismo ou até o fim dos tempos, para aqueles vitimados pelo gesso do engano, Hoje, pelo poder de Deus, O MINISTÉRIO APOSTÓLICO MOSTRA-SE BÍBLICO, DURADOURO E REVELADOR DA VONTADE DE DEUS NOS ÚLTIMOS DIAS.

  2. Hugo permalink*
    18 de março de 2010 20:41

    Obrigado, Elison.

  3. 24 de maio de 2010 1:04

    Para apreciar como os líderes da igreja primitiva reuniram, preservaram, e provaram a autenticidade dos escritos que nós agora chamamos o Novo Testamento visita… http://www.aigrejaprimitiva.com/dicionario/CANONDONOVOTESTAMENTO.html

  4. Leonardo permalink
    28 de fevereiro de 2011 17:51

    Hugo,

    Existe o ato de ordenação de apostolos e profetas ?

    Já leu Caos Carismático e os Carismáticos de John MacArthur Jr.?
    Já leu a explicação de Arthur Pink sobre esse tema?

    O que pensa a respeito?

    Att. Leonardo

  5. 28 de fevereiro de 2011 18:13

    Oi Leonardo,

    Penso que a Igreja não estabelece ministérios, apenas os reconhece e os confirma à medida que eles surgem naturalmente no Corpo de Cristo – pelo serviço, testemunho e pelos frutos do obreiro. Apóstolos, profetas, pastores, evangelistas e mestres são funções e não cargos na Igreja. Assim, a imposição de mãos se dá como reconhecimento de algo que já está sendo feito naturalmente, resultado natural do dom recebido por Deus. Em alguns casos, a imposição de mãos também se dá como resultado de profecia. Assim, a “ordenação” é somente um reconhecimentoo público de algo que já está sendo feito, ou um comissionamento apostólico (como em Atos 13) mediante uma palavra profética.

    Particularmente, nunca li Arthur Pink sobre o tema. Mas já li o “Caos Carismático” e algumas resenhas de CamismátiCAOS de John MacArthur. MacArthur é reformado cessacionista e acusa o movimento carismático/pentecostal de não crer na suficiência das Escrituras. Mas há outros reformados como Wayne Grudem, Mark Driscoll e John Piper que crêem na continuidade dos dons espirituais. Será que MacArthur teria a coragem de acusar estes grandes mestres da Palavra do mesmo?

    O erro grotesco de McArthur é selecionar o que é pior no movimento carismático nos EUA e dizer: “Veja só o que é o movimento carismático”. O problema de tal abordagem é que ela é mais embasada na (má) experiência do que necessariamente no exame daquilo que as Escrituras têm a dizer sobre os dons espirituais.

  6. 1 de janeiro de 2012 12:07

    muito bom o texto,mas…nao sei como podemos defender o continuismo. e´muito confuso,conceber o dom de aostolado hoje e no minimo heretico. o dom era exclusivo para a revelaçao escrituristica do novo testamento, para comprovar a vontade de jave aos cristaos, e isso por meios miraculosos. se necessitamos de revelaçoes atuais para um constante caminhar cristao, entao a biblia nao tem autoridade suprema e infalivel e estamos constantemente a cair em terreno movediço, bom eu poderia escrever muito mais aqui sobre dons miraculosos,no entanto, isso deve ser omitido por ora.

  7. 1 de janeiro de 2012 14:47

    Joel, o artigo acima busca provar que o dom do apostolado não tem relação com a produção de Escrituras. Quando entendemos isso, o dom do apostolado para os dias de hoje deixa de herético. De modo algum quero endossar este pseudo-apostolado neopentecostal (estes são papas/patriarcas, não apóstolos), mas somente ressaltar a possibilidade do dom apostólico para nossos dias.

    Partimos então para a questão do cessacionismo, que busca contrastar a autoridade das Escrituras com os dons espirituais. Os ensinamentos apostólicos nunca nos levam a ter que escolher entre uma coisa e outra. Esse é um sofisma que a tradição religiosa produziu ao longo dos séculos. Estas questões são respondidas nos artigos abaixo:

    Quando Linguas e Profecias Finalmente Cessarão

    A Ironia Cessacionista

  8. Eribaldo Pereira permalink
    28 de abril de 2012 10:17

    O problema principal com relação validade quanto à atualidade apostólica a meu ver tem a ver com a falta de distinção entre o papel verdadeiro e significância dos apóstolos da era primitiva dos assim chamados apóstolos dos tempos atuais. Gente como Ed Rene Terra Nova, apóstolo Valdomiro etc…

    Essas pessoas estão usurpando o direito ao apostolado verdadeiro. O que fazer? Devemos categoricamente a exemplo dos primeiros cristãos e apóstolos primitivos denunciar esses falsos apóstolos que se autodenominam apóstolos e se aproveitam dessa posição que para eles não é de servo, mas de donos do rebanho.

    É preciso tomar cuidado por causa da mentalidade herdada tradicionalmente institucionalizada que dar privilégios administrativos a gente empossada por cargos religiosos para não tomar proveito do continuísmo apostólico estabelecendo-se como mais um comando hierárquico.

    Graça e páz, em Cristo, Eribaldo.

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