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O Papado na História

19 de agosto de 2009

VaticanoComo já discutido anteriormente em O Papado Na Bíblia e Quem é a Pedra?, não há evidência bíblicas que possam sustentar o dogma da primazia de Pedro. A Bíblia nos demonstra que o poder e a autoridade que repousou sobre Pedro repousava igualmente sobre os outros apóstolos. A história pós-canônica corrobora aquilo que as Escrituras nos demonstram, pois nenhuma menção ao papado é encontrada nos primeiros escritos pós-apóstolicos.

Quase 150 anos depois da morte de Pedro, quando a inspiração e a autenticidade do evangelho de Mateus já era incontestável, presbíteros influentes como Clemente de Alexandria e Orígenes – que escreveram exaustivamente sobre doutrina e governo da Igreja – não disseram uma só palavra acerca do papado. Papias, Policarpo e Justino Martir tampouco fazem menção de tal ofício. Nos escritos pós-apostólicos dos primeiros dois séculos da Igreja, Pedro sempre é mencionado ao lado de Paulo em Roma:

Clemente de Roma, Inácio e mais tarde Irineu atestam que Pedro e Paulo estiveram em Roma e foram martirizados. Paulo e Pedro são citados como os que lançaram os alicerces da Igreja em Roma, mas nenhum diferencial é atribuído a Pedro.  Inácio, no capítulo 5 de sua epístola à Maria de Nápoles, diz que Lino substituiu Clemente no bispado de Roma e que Clemente, por sua vez, era discípulo de Pedro e Paulo. Inácio não diferencia Pedro de Paulo em termos de autoridade nem em Roma e muito menos sobre a Igreja Universal.

Irineu advogava a favor de uma sucessão apostólica (referindo-se a uma linhagem episcopal que remetia aos apóstolos em Roma para combater certas “reuniões não autorizadas” que estavam sendo realizadas) e nem mesmo ele faz menção a Pedro como papa. Em Against Heresies livro III 3, Irineu é claro ao dizer que a Igreja em Roma foi organizada pelos apóstolos que comissionaram Lino como bispo em Roma (Pedro não aparece isoladamente na ponta do “pedigree” episcopal que os católicos defendem). Em outras partes, diz que Pedro e Paulo (mais uma vez nenhuma diferenciação é feita entre os dois apóstolos) organizaram a Igreja em Roma e que Pedro e Paulo instituíram Lino como bispo, o qual foi seguido por Anacleto e depois Clemente.  Sua lista de bispos difere em ordem da lista de Inácio (que diz que Clemente foi bispo antes de Lino), mas os dois escritores tem algo em comum: não diferenciam o apostolado e a obra de Pedro da de Paulo (em termos de autoridade) e concordam que o primeiro bispo de Roma não foi Pedro e sim um bispo instalado pelos apóstolos Pedro e Paulo (que seria Lino ou Clemente).

Está historicamente comprovado que Pedro nunca foi bispo em Roma. Seu ministério em Roma foi igual ao de Paulo, simplesmente fazendo aquilo que apóstolos intinerantes faziam em todas as outras cidades: instituiu bispos para governar o Corpo Local e, no caso de Roma, não o fez sozinho mas ao lado de Paulo. Absolutamente nenhum escritor pós-apostólico coloca Pedro nesta órbita isolada que os defensores do papado defendem.

Os chamados Pais da Igreja entendiam que a centralização ministerial era o melhor remédio contra as heresias que se proliferavam entre os discípulos. Por isso, foi justamente nos primeiros dois séculos de história de Igreja que a praga do clericalismo começou a se cristalizar na Igreja (em contraste com a premissa bíblica do sacerdócio de todos os crentes). Se o ofício do papado fosse real, certamente encontraria lugar de destaque na Bíblia e nos escritos pós-apostólicos deste período, que abordam questões referentes ao governo da Igreja de forma exaustiva.

Concluímos, portanto, que o papado é um elemento totalmente estranho às Escrituras e à História da Igreja dos primeiros dois séculos. O conceito de papapo e “santa sede” em Roma foram instituições que evoluiram com o passar dos séculos. Somente ganharam força a partir do século III, promovidas tão somente pelos interesses pessoais do bispo de Roma, que almejava a ascenção da Igreja em Roma sobre as demais, algo a que as igrejas no Oriente jamais aceitaram. A História nos mostra que entre o período apostólico e a implementação do papado e da santa sede em Roma, há um enorme vácuo que nem mesmo os historiadores católicos conseguem explicar de maneira convincente.

© Pão & Vinho

Este artigo está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcial ou integralmente, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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One Comment
  1. solange de brito permalink
    29 de setembro de 2009 10:27

    muito show!

Comentários encerrados.

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