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Quando Linguas e Profecias Finalmente Cessarão

17 de agosto de 2009

É proibido profetizar ou falar em linguas

É proibido profetizar ou falar em linguas

Como apontei em A Ironia Cessacionista, ninguém que leia somente a Bíblia (Sola Scriptura) poderá chegar a conclusão de que os dons espirituais cessaram. O cessacionismo (que tão veementemente ostenta a bandeira do Sola Scriptura) precisa incorporar elementos extra-bíblicos à sua teologia, para somente assim poder sustentar seu postulado.

O cessacionismo não é doutrina bíblica, é somente um conceito filosófico imposto ao texto bíblico. Não fazia parte do didaque apostólico – é o mau fruto do declício gradual que a Igreja sofreu ao longo dos séculos.

Um dos poucos versos bíblicos usados pelo cessacionismo que aborda a questão do carisma de forma direta é 1 Corintios 13:8-10 que diz:

O amor jamais acaba; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas, quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado.

Os cessacionistas se utilizam deste verso para dizer que linguas e profecias cessariam com a manifestação daquilo que é perfeito.1 E o “perfeito”, de acordo com nossos irmãos conservadores, é a formação do cânon das Escrituras. Assim, reza o postulado cessacionista que uma vez que já temos as Escrituras, não precisamos mais de profecias ou línguas.

Ainda na igreja batista, aprendi que “texto fora de contexto vira pretexto”. Ali aprendi que não devemos interpretar um texto de forma isolada, mas tecer uma exegese coerente com o contexto em que está inserida a Escritura. Partindo desta premissa, pergunto: o que é o “perfeito” que Paulo afirma que haveria de vir?

Na verdade, em nenhum momento o texto se refere ao fechamento do cânon. Esta é uma interpretação totalmente arbitrária que não leva em consideração o que diz o restante da Escritura no verso 12 do mesmo capítulo:

Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido. (grifos acrescentados)

Paulo nos esclarece quanto ao significado do que se refere quando faz menção ao “perfeito”: conhecer a Deus e vê-lo face a face, conhecendo-o da mesma forma que somos conhecidos por Ele. Na época de Paulo, os espelhos eram metais polidos (como bronze ou cobre) que davam como reflexo uma imagem obscura, como uma espécie de penumbra. Não refletia uma imagem clara e nítida como nos dias atuais. Essa é a imagem de Deus que possuímos hoje: vemos em parte, conhecemos Deus em parte e ainda não o contemplamos face a face. Portanto, o “perfeito” a que se refere Paulo é a mesma coisa que João descreve em 1 Jo 3:2:

Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifesto o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é, o veremos.

Neste contexto, e não antes disso, obviamente linguas e profecia se tornarão desnecessárias, pois estaremos contemplando Deus face a face. Mas até que que seja “manifesto o que havemos de ser”, até que “Ele se manifestar”, poderemos contar com os dons espirituais que Deus deu a sua Igreja, sem nos preocuparmos com data de expiração.

Nota

[1] Continuístas e cessacionistas concordam que línguas e profecias, na passagem em questão, são dons representativos e não exclusivos. Em outras palavras, são exemplos dados por Paulo, para ensinar que todos os outros dons sobrenaturais, como cura e operação de milagres, cessarão quando o que é perfeito se manifestar. A discordância se dá quanto ao tempo desta cessação, que é o que procuro expor de forma exegética neste texto.


© Pão & Vinho

Este artigo está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcial ou integralmente, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

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3 Comentários
  1. Wandelson permalink
    16 de junho de 2011 10:59

    Ótimo texto. Curto e eficiente. Esclareceu uma dúvida minha: por que alguns não acreditam no dom de línguas (e em alguns outros dons também)?

  2. JOSILENE PATRIAL DE OLIVEIRA permalink
    19 de outubro de 2013 9:12

    Muito bom! Nunca imaginei algo tão simples, tão profundo e tão esclarecedor! Obrigada, o fardo da dúvida não está mais em mim! Agora, mais alegre, livre deste fardo , prossigo Nele e para Ele!

  3. Joel permalink
    27 de fevereiro de 2014 12:19

    De fato é muito simples. Simples como chupar uma manga. Contudo, quando se busca saber como ela foi formada, nos surpreendemos com a química envolvida. Tem muito mais do que parece ser. Isso reflete nossa teologia. Simples e superficial.

Comentários encerrados.

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