Skip to content

A Ironia Cessacionista

17 de agosto de 2009
É proibido profetizar ou falar em linguas

É proibido profetizar ou falar em linguas

Para quem não está familiarizado com o termo, “cessacionista” é aquele que crê que certos dons espirituais como linguas, profecia, cura e milagres cessaram com a morte dos primeiros apóstolos. Esta linha teológica se propõe a refutar a validade dos dons espirituais (no grego carisma) listados nas Escrituras para os dias de hoje.

Como ex-batista e leitor de cessacionistas como John MacArthur (autor de O Caos Carismático e do artigo aqui publicado intitulado O Âmago da Verdadeira Ética), tenho o maior respeito por estas pessoas. Em tempos em que a Igreja está sendo infestada pelo liberalismo teológico, precisamos do sólido Fundamento que estes irmãos pregam, que é Cristo crucificado, e de sua ênfase na inerrância das Escrituras. Em momento nenhum questiono sua fé, devoção ou sinceridade diante do Senhor. No entanto, quando o assunto é dons espirituais, os conservadores deixam a desejar. Apesar de seu forte apelo intelectual, o cessacionismo se embasa em frágeis postulados que não se sustentam diante de um exame minucioso das Escrituras.

O cessacionismo é fruto de um gradual declínio histórico da Igreja (que culminou no Milênio das Trevas), não é um ensinamento apostólico. Não é bíblico.

Se trancássemos uma pessoa em um quarto de seis meses a um ano e lhe déssemos uma Bíblia para ler, no fim deste período, quando saísse do quarto, esta pessoa estaria crendo na validade e no exercício de dons carismáticos como linguas, profecia e cura. Absolutamente ninguém que leia somente a Bíblia (Sola Scriptura) chegará à conclusão de que os dons espirituais cessaram. Toda e qualquer especulação quanto ao fim do carisma não é embasada nas Escrituras, e sim em uma tradição anti-carismática que se cristalizou na Igreja ao longo dos anos, na História pós-canônica.

Esta é a ironia cessacionista: se você confrontar um conservador usando 1 Corintios 14:39, onde encontramos o mandamento apostólico de “não proibais o falar em línguas”, ouvirá de sua boca que esta Escritura já não vale para os dias de hoje. Se um carismático vai na TV e diz que algum outro trecho das Escrituras já não é válido para os dias atuais, os conservadores entoarão em coro a palavra “herege”. No entanto, por alguma razão, os mesmos conservadores pensam que podem cometer a mesma atrocidade.

Ironicamente, os cessacionistas são os primeiros a colocarem data de expiração em certas Escrituras, e depois criticam os cristãos liberais que defendem o homossexualismo utilizando-se da mesma prática.

É irônico que os conservadores com orgulho entoem a bandeira do Sola Scriptura, mas precisem incorporar elementos extra-bíblicos da tradição humana em sua teologia, para somente assim poder sustentar o postulado cessacionista.

Ironicamente, os conservadores criticam os católicos por sua devoção ao papa, mas abraçam os extremos anti-carismáticos dos reformadores, chamando de herege qualquer um que não reze a apostila doutrinária de Calvino ou Lutero.

Ironicamente, também criticam aqueles que embasam sua ortodoxia na experiência de seus cinco sentidos (ao invés de fundamentá-la nas Escrituras), mas adotam todo um sistema teológico que não se fundamenta nas Escrituras, mas na má experiência de viver na estiagem da era pós-moderna (em que o sobrenatural é raro), ou na má experiência proporcionada por alguma meninice no meio carismático (como Benny Hinn e Cia Ltda).

De fato os carismaníacos não são os melhores agentes de Relações Públicas a favor da validade e do livre exercício do carisma na Igreja, mas não obstante, as Escrituras nos dão testemunho daquilo que é verdadeiro. Excessos devem ser tratados com cuidado pastoral, a exemplo do que fez Paulo em Corinto, mas jamais com ceticismo.

Eliminar a prática dos dons espirituais de nossa ortodoxia por causa dos abusos carismáticos é tão rídiculo quanto o médico que manda amputar o pé de seu paciente por causa de uma unha encravada.

Que o Senhor nos ajude a encarnar o mistério entre Cristo e a Igreja (Ef 5:32) e que possa encontrar uma Casa onde tenha liberdade para se manifestar na plenitude de sua glória entre os santos, que são os membros de seu Corpo.

© Pão & Vinho

Este artigo está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcial ou integralmente, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

Anúncios
7 Comentários
  1. Rafael permalink
    4 de outubro de 2009 16:44

    As vezes eu me pergunto de qual lado anda a ironia. Do lado dos cessacionistas ou dos não-cessacionistas.

    Um dilema confronta os não-cessacionistas. Se profecia e línguas (como elas funcionavam no Novo Testamento) continuam hoje, então, os não-cessacionistas estão de frente com a implicação totalmente prática e preocupante de que as Escrituras somente não são uma revelação verbal suficiente de Deus. Na melhor das hipóteses, o cânon está fechado relativamente. Alternativamente, se – como muitos não-cessacionistas insistem – “profecia” e “línguas” hoje não são revelatórios ou são menos do que totalmente revelatórios, então, este fenômeno contemporâneo é chamado pelo nome errado. Eles são alguma outra coisa além daqueles dons de profecia e línguas que encontramos no Novo Testamento. Os não-cessacionistas são pegos num anacronismo redentivo-histórico. Eles estão procurando dentro da fase construção-superestruturada da história da igreja o que pertenceu a sua fase lançamento-do-fundamento. Eles estão envolvidos no esforço contraditório de tentar manter que o cânon do Novo Testamento está completo e fechado ao mesmo tempo, e que os dons revelatórios do período do cânon aberto – dons para quando os documentos do Novo Testamento ainda estavam sendo escritos – continuam.

    O mais ironico de tudo isso é que os que mais estudam sobre o dom ( não-cessacionistas ). Parecem ser os que menos entendem sobre os dons!

  2. Hugo permalink*
    5 de outubro de 2009 1:16

    Pois eu lhe digo, Rafael, que sem sombra de dúvida a ironia está no cessacionismo. Quando alguém profetiza para a edificação ou exortação do Corpo de Cristo, está fluindo em um dom que as Escrituras legitimizam e sancionam. Não se trata de um corpo estranho àquilo que as próprias Escrituras dão testemunho. Já o cessacionismo arbitrariamente determina que certas partes das Escrituras possuem data de expiração, e não servem mais para os dias de hoje. Ironicamente, pela tradição religiosa é que o cessacionismo invalida a mesma Escritura que tanto exalta como norma de fé e prática, adotando uma forma de piedade que nega o poder de Deus.

    Foi a “tradição dos anciãos”, e não o Senhor, quem atrelou a manifestação de milagres à produção de Escrituras da Bíblia. Tal crença é fruto de ignorância, tanto bíblica quanto histórica. Historicamente, os dons carismáticos permaneceram na Igreja após o fechamento do canon, o que pode ser comprovado pelos registros de pais da Igreja como Orígenes, Irineu, Clemente de Alexandria, Tertuliano e Justino Martir, em um período pós-canônico. Nenhum destes homens indicaram crer que os dons estavam cessando e que deveriam estar restritos à geração apostólica.

    Os dons carismáticos não cessaram com a morte dos apóstolos bíblicos, muito menos com o fechamento do canon, antes foram desaparecendo gradativamente ao longo dos séculos, à medida que a Igreja foi afundando em um formalismo estéril que exaltava o clericalismo em detrimendo do sacerdócio universal, e a liturgia em detrimento da espontaneidade do Espírito, registrada nas Escrituras.

    Em nenhum momento as Escrituras dizem que os dons carismáticos cessariam com o fechamento do canon. Muito pelo contrário, os ensinos de Paulo em 1 Cor 12-14 tornam tais manifestações normativas e parte do cotidiano da Igreja. Dizer o contrário é dizer algo que a Bíblia não ensina. Se formos adotar o princípio da Sola Scriptura, tão prezado por você e os demais cessacionistas, então temos que pregar o tempo de cessação dos dons que as Escrituras determinam: após a volta de Cristo, quando o que é perfeito se manifestar, ou seja, quando o conhecermos como Ele nos conhece (1 Cor 13:8-13).

    A Bíblia serve como a âncora de nossa fé, mas os dons carismáticos nos foram dados para confirmá-la. Esta bibliolatria que exalta o conhecimento intelectual das Escrituras em detrimento do poder de Deus é uma falsa dicotomia, algo que a própria Escritura não ensina. Não é doutrina bíblica. É fruto da histórica queda da Igreja e do “greguismo” (idolatria ao conhecimento) pelo qual a Noiva foi contaminada com o passar dos séculos.

  3. Rafael permalink
    5 de outubro de 2009 18:48

    Com respeito a Bíblia Hugo, posso dizer que em 1 Coríntios 13:8 faz-se referência a diversos dons miraculosos — profecia, línguas e conhecimento. Note que o versículo 9 refere-se novamente a dois desses dons — o conhecimento e a profecia — dizendo: “Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos.”

    Daí, o versículo 10 diz: “Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado”.

    A palavra “perfeito” é traduzida do grego té·lei·on, que transmite a idéia do que é plenamente desenvolvido, completo ou perfeito.

    Note que não é o dom de línguas que se diz ser “imperfeito”, “em parte”, ou parcial. Diz-se isso da ‘profecia’ e do ‘conhecimento’. Em outras palavras, mesmo com esses dons miraculosos, os primeiros cristãos só tinham entendimento imperfeito ou parcial do propósito de Deus. Mas, quando as profecias chegassem a se cumprir, quando o propósito de Deus se realizasse, então viria “o que é perfeito”, ou completo. Portanto, esta não é uma consideração sobre por quanto tempo o ‘dom de línguas’ continuaria.

    Eu poderia usar outro raciocínio em cima do que você acredita. Um pouquinho “oposto”.
    Reformulando a sentença. Veja:

    1 Coríntios 13:8 faz-se referência a diversos dons miraculosos — profecia, línguas e conhecimento. Note que o versículo 9 refere-se novamente a dois desses dons — o conhecimento e a profecia — dizendo: “Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos.”

    Daí, o versículo 10 diz: “Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado”

    Note: o versículo 9 refere-se novamente a dois desses dons — o conhecimento e a profecia. Daí, o versículo 10 diz: “Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado”

    Então se formos entrar na questão da contemporaneidade dos dons extraordinários vemos que Paulo deixa de mencionar Linguas e fala sobre profecias e ciencias ( conhecimento ). Aí afirma “Mas, quando vier o que é perfeito…..etc.

    Então a contemporaneidade deveria ser Profecias e conhecimento.

    Línguas na verdade, cessam. Está bem claro no texto. Mas profecias e ciência não cessam.

    Agora sobre a Historia Secular agente pode ver o que os outros pensavam. Por hora deixo pela Bíblia mesmo.

    Abraçosss

  4. Hugo permalink*
    5 de outubro de 2009 23:20

    Rafael,

    É bom recordar-lhe que “linguas” é uma forma de expressão profética pois, quando acompanhado de interpretação, comunica de forma sobrenatural o coração de Deus para uma situação em particular, e cumpre o mesmo propósito de edificação que o dom de profecia. Portanto, é mais do que óbvio que o v. 9 inclui também o dom de linguas.

    Toda esta cirurgia que você faz no intuito de minuciosamente separar o v. 8 do 9 se torna ilógica diante do CONTEXTO das passagens, e sem dúvida é um dos maiores malabarismos que eu já vi um cessacionista fazer. Até mesmo cessacionistas renomados (como John MacArthur) reconhecem que os dons que Paulo cita nos vv. 8 e 9 têm como função exemplificar, mas de modo algum limitar a cessação aos dons carismáticos alí citados. A única discordância entre cessacionistas e carismáticos é quanto ao tempo da cessação profetizado pelo apóstolo Paulo nos vv. 9-12 (os cessacionistas dizem que se deu com o fechamento do canon). Se lermos a passagem de maneira imparcial, veremos que no v. 8, Paulo nos dá alguns EXEMPLOS de dons que cessarão. Nos vv. 9-11, Paulo explica a RAZÃO para a cessação do carisma (estes dons, ainda que importantes, nos levam somente a uma experiência e compreensão parcial de Deus). No v. 12, esclarece QUANDO CESSARÃO: quando o que é perfeito (τελειος) se manifestar. Observe que, em nenhum momento, Paulo inclui nestes vv. dons de cura e operação de milagres (cuja operação nos dias atuais você também questiona), o que não invalida a premissa de que, quando o que é perfeito (τελειος) se manifestar , não somente profecias e linguas se tornarão desnecessárias, mas todos os demais dons carismáticos. Não se faz necessário conhecer grego ou ter um QI de três dígitos para se compreender isso e sei que, até aqui, a maioria absoluta dos cessacionistas concordaria comigo.

    A questão crucial é: o que é o “perfeito” que se manifestaria?

    É desnecessario gastar nosso grego aqui para entender o que o texto em questão diz, mas como bem esclarecido por você, τελειος, traduzido como PERFEITO, que dizer COMPLETO ou FINALIZADO. O v. 12 torna mais do óbvio o fato de que o verbete não se refere a um dom em particular, seja linguas ou profecia (apesar de Paulo usar estes dons como exemplo), mas a um processo muito mais abrangente que, quando completo, nos permitirá conhecer a Deus como Ele nos conhece e vê-lo face a face – quando a obra da graça será terminada e culminará na glorificação de nossos corpos.Tal ensinamento está de acordo com o que João diz em 1 Jo 3:2 quando afirma que “agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifesto o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é, o veremos. ” Isso ainda não ocorreu, nem na Igreja Primitiva, muito menos na Igreja Contemporânea. As profecias ainda não se cumpriram em sua totalidade, e o propósito de Deus ainda está longe de ser finalizado (τελειος), como você parece propor. E se o “perfeito” ainda não se manifestou, tampouco o carisma cessou.

    Quanto à experiência dos pais da Igreja, gostaria de lembrá-lo de que não estamos tratando de mera “história secular”, como você colocou, mas da História da Igreja. A Reforma Protestante desperta a nostalgia dos cessacionistas, mas a História da Igreja não começou no século XVI. É irônico que alguns cessacionistas façam tanta menção aos apelos anti-carismáticos de Lutero e ao mesmo tempo ignorem o que a História da Igreja nos tem a dizer a respeito do carisma nos primeiros séculos de sua existência. A Bíblia, sem dúvida, tem mais peso do que o que qualquer exegeta histórico nos têm a dizer. Mas, diante do fato de que as Escrituras em momento nenhum ensinam que o tempo da cessação do carisma se dará antes da volta de Jesus, a história corrobora (e não contradiz) o que a Bíblia já nos ensina. O relato dos pais da Igreja nos confirmam que OS DONS CARISMÁTICOS NÃO CESSARAM COM O FECHAMENTO DO CANON E COM A MORTE DOS APÓSTOLOS, que é a premissa que você se propõe a defender. Dizer o contrário é apelar a uma tradição cessacionista EXTRA-BÍBLICA e colocá-la em pé de igualdade com o mesmo canon que você e outros cessacionistas dizem tanto prezar e respeitar. E aí reside a ironia cessacionista.

  5. Evelin Olívia Fróes permalink
    6 de outubro de 2009 13:04

    O quê será que os cessacionistas pensam das manifestações carismáticas da Rua Azuza e na cidade alemã de Kassel, ambos fenômenos 100% obra do Espírito Santo ocorridos no início do século XX, incluindo o dom de líguas? O cessacionismo traz em si a semente da blasfêmia imperdoável: todos que criticaram as manifestações carismáticas acima citadas blasfemaram contra o Espírito Santo. Não duvido que fossem cessacionistas, pois eram protestantes bastante tradicionais.

  6. Dom Rafael permalink
    15 de outubro de 2012 13:22

    Cara…

    Como é que uma pessoa que se diz cristã não crê no que está escrito na Bíblia?! cara, e o pior é que essa turma de calvino (talvez não todos) são um porre: só eles são cristãos!
    E ainda vêem com essa de somente as Escrituras e ficam inventando datas para justificar a HERESIA deles!

    Shalom

Trackbacks

  1. Tweets que mencionam "A Ironia Cessacionista" de Pão & Vinho -- Topsy.com

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: