Skip to content

O Sofisma dos 13

10 de agosto de 2009

PauloIronicamente, as igrejas cessacionistas (que não crêem no exercício dos dons espirituais nos dias de hoje) e algumas igrejas pentecostais têm algo em comum: ambas crêem que houve somente 13 apóstolos antes do fechamento do cânon, sendo estes os 12 originais (que acompanharam Jesus em seu ministério terreno) e Paulo de Tarso. Alguns afirmam que a escolha de Matias foi equivocada, e que na verdade Paulo foi levantado pelo Senhor, como o último apóstolo, para substituir Judas.

Ao analisarmos o Novo Testamento, porém, vemos que o termo “apóstolo” (αποστολος), cujo significado é “enviado”, é aplicado a outras pessoas além dos 13 apóstolos que o cessacionismo propõe. Em At 14.14, o termo é aplicado a Barnabé; em Rm 16.7 refere-se a Andrônico e Júnias; em Fp. 2:25, é aplicado a Epafrodito, porém traduzido no português como “mensageiro”; em 1 Ts 2:7, αποστολος refere-se não somente a Paulo, mas também à Silvano e Timóteo e aqui é traduzido como “enviados”; em 2 Co 8.23 é aplicado aos integrantes da equipe de Paulo, traduzido como “mensageiros”.

Ainda que “mensageiro” e “enviado” sejam de fato sinônimos de “apóstolo” (αποστολος) no Novo Testamento, é obvio que a aplicação de sinônimos aqui é um jogo de palavras. O intuito é criar uma distinção entre sinônimos para assim suprimir a intensidade da palavra “apóstolo” quando aplicada a alguém que não faça parte da casta apostólica de 13 integrantes que o cessacionismo propõe.

Portanto, biblicamente, podemos dizer que o grupo de apóstolos nunca esteve restrito a 13. No entanto, o cessacionismo dispensacionalista se vale de um outro argumento para explicar a aplicação de “apóstolo” aos demais irmãos.

Postula-se que αποστολος é empregada em dois sentidos: um sentido técnico, referindo-se aos 13, e um sentido amplo, referindo-se aos demais. Em outras palavras, no Novo Testamento há duas castas de αποστολος, sendo uma categoria restrita de APÓSTOLOS e outra categoria de apóstolos inferiores.

As Escrituras, porém, aplicam o vocábulo de forma indistinta quando se referem a um obreiro neotestamentário que opera a nível extra-local, servindo as igrejas de Deus. Tal interpretação não dispõe de nenhum embasamento lingüístico ou sintático. É como criar uma diferença entre seis e meia dúzia. Uma análise bíblica do ministério de Barnabé, por exemplo, coloca esta teoria por terra:

A Palavra nos mostra em At 13 que Paulo e Barnabé receberam juntos seu comissionamento apostólico em Antioquia. Foram juntos chamados e apartados para a obra apostólica, mediante Palavra profética e imposição de mãos. Antes disso, Barnabé era um profeta e Paulo era Saulo, o mestre. Em At 14, Barnabé é descrito como um apóstolo (vv. 4, 14) cuja mão também operava sinais e maravilhas (v. 3), um dos requisitos para o apostolado. Barnabé portava uma revelação apostólica aos gentios, assim como Paulo. At 15 e Gl. 2.9 nos mostram que pela revelação que portava, Barnabé (juntamente com Paulo) foi reconhecido pelos demais em Jerusalém como apóstolo aos gentios assim como os 12 eram apóstolos aos judeus. Paulo considerava Barnabé como apóstolo, não de menor categoria, mas como ele e os outros 12 (1 Co 9.6) .

Concluímos, portanto, que o chamado de Barnabé em nada era inferior ao chamado de Paulo. Portanto, o apóstolo número 14 coloca por terra a teoria de que o apostolado estava restrito a um grupo de 13 pessoas.

A diferença entre a equipe dos apóstolos originais  e os demais apóstolos neotestamentários  não está na autoridade de seu cajado, mas somente na missão e no tempo em que seu chamado se deu. Pedro e os 10 apóstolos que caminharam com o Senhor na terra foram enviados aos judeus. Já Paulo, Barnabé, Timóteo, Silvano e os demais apóstolos foram enviados aos gentios. Eles representavam uma nova safra apostólica composta de homens que não caminharam com o Senhor Jesus durante seu ministério terreno, mas que foram igualmente testemunhas de sua ressurreição pelo Espírito de Deus e pelo Espírito receberam seu comissionamento.

© Pão & Vinho

Este artigo está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcial ou integralmente, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

Anúncios
7 Comentários
  1. Guilherme permalink
    10 de novembro de 2010 17:55

    Estou entre aqueles que pensam que a escolha de Matias foi equivocada e que o próprio Jesus veio e escolheu a Paulo para ser o 12º apóstolo “do Cordeiro” citado em Apocalípse. Também estou entre aqueles que creem que o ministério apostólico nunca expirou, continuando até os dias de hoje.

    No caso de Matias, penso que Pedro, em sua ânsia de fazer a coisa certa e servir ao seu amado Senhor, mais uma vez se precipitou ao propor a escolha do substituto de Judas Iscariotes. Jesus nunca disse que “apóstolos” seriam aqueles que andaram com ele desde o início até sua ressurreição. Para mim, este parâmetro nasceu na mente de Pedro e não de Deus. Jesus mandou que seus discípulos fossem para Jerusalém e lá ESPERASSEM que se cumprisse a promessa do derramento do Espírito Santo. Era para ESPERAR e não ficar querendo ajudar o Espírito Santo.

  2. Eribaldo Pereira permalink
    28 de abril de 2012 11:58

    No artigo acima dois pontos utilizados pelos cessacionistas são reforçados. O que era necessários milagres para servir de distinção os autenticando-os como apóstolos e que fossem testemunhas oculares de sua ressurreição.

  3. 28 de abril de 2012 16:19

    Você pode me mostrar no texto onde você encontra sustentação para estes pontos, Eribaldo?

  4. Eribaldo Pereira permalink
    29 de abril de 2012 1:15

    1- “Em At 14, Barnabé é descrito como um apóstolo (vv. 4, 14) cuja mão também operava sinais e maravilhas (v. 3), um dos requisitos para o apostolado.” (Hugo)

    2- “Eles representavam uma nova safra apostólica composta de homens que não caminharam com o Senhor Jesus durante seu ministério terreno, mas que foram igualmente testemunhas de sua ressurreição pelo Espírito de Deus e pelo Espírito receberam seu comissionamento.” (Hugo)

    1- Eles afirmam que os milagres eram realizados apenas pelos apóstolos ou gente ligada a eles. Os milagres portanto eram distintivos característicos de particularidade apostólica.
    2- Pelo fato da impossibiliadede de haver hoje em dia testemunhas oculares do Senhor ressuscitado, sendo isso necessário para um apóstolo ser considerado apóstolo, logo não há apóstolos em nossos dias.

    No texto acima você confirmou essas duas premissas argumentativas dos que advogam a cessação dos dons apostólicos.

    Seria interessante você ter ressaltado em que essas premissas são falsas e inadequadas.

  5. 29 de abril de 2012 22:36

    Eribaldo,

    Não vejo como o texto possa advogar a favor do cessacionismo, mas infelizmente muitas pessoas já estão persuadidas em sua mente a uma determinada disposição teológica e enxergam aquilo que elas mesmas querem, às vezes. Não posso fazer nada quanto a isso, visto ser impossível, em um texto somente, abordar todas as questões envolvendo o cessacionismo ou continuísmo dos dons.

    Este texto em particular somente aborda a questão do apostolado ser ou não limitado aos 13 da Bíblia e nada mais. Portanto, em si é incompleto para abordar todas as variáveis desta questão. Mas qualquer um que queira sustentar a filosofia cessacionista embasada no texto acima, construirá uma base extremamente frágil para sua argumentação, diante daquilo que o texto bíblico nos explica.

    Vejamos: no ponto # 1, há uma diferença entre dizer que a operação de milagres era na Bíblia uma das marcas do apostolado e dizer que a operação de milagres estava limitada aos apóstolos. Em 1 Cor 14:26, operação de milagres é um dom listado de forma distinta ao apostolado, o que automaticamente nos instrui quanto fato de que nem todo o que opera milagres é apóstolo (ver Felipe em Samaria – Atos 8).

    No ponto # 2, escrevi o texto justamente na tentativa de demonstrar que houve outros na Bíblia que NÃO testemunharam a ressurreição física do Senhor. Essa é a coluna vertebral do texto, e em si contraria a tese cessacionista de que para ser apóstolo era necessário ser testemunha ocular de sua ressurreição. Paulo, Barnabé e os demais desta safra de apóstolos aos gentios viram o Cristo ressurreto pelo Espírito, depois de sua ascensão física aos céus, e foram comissinados ao apostolado por palavra profética. Creio que esta experiência é totalmente possível nos dias de hoje, à medida que o Senhor restaura sua Igreja e permite que juntas e medulas espirituais se encaixem e operem de forma orgânica no fim dos tempos, para que assim venhamos a operar no mesmo teor profético da igreja neotestamentária experimentar as mesmas antes dos tempos do fim.

  6. Eribaldo Pereira permalink
    30 de abril de 2012 0:05

    Eles afirmam que uma vez que Paulo defende o seu apostolado apontando para a sua capacidade de operar milagres “Os sinais do meu apostolado foram manifestados entre vós com toda a paciência, por sinais, prodígios e maravilhas.” (II Coríntios 12 : 12), isso demonstra que os milagres eram distintivos característicos somente dos apóstolos ou a um grupo restrito estreitamente ligado a eles. O exemplo de Filipe se encaixa aqui.

    Imaginar Jesus continuando a se revelar em nossos dias como fez com Paulo e comissionando apóstolos pode ser um prato cheio para credibilizar toda sorte de gente inescrupulosa balizando suas visões. Tem gente aí dizendo que teve uma visão de um Jesus com mais de 20 metros de altura que o ordenou a fazer isso e aquilo etc…

    Entendo as suas razões de limitar o texto a alguns pontos não abordando todas as possíveis variáveis.

    Grato.
    Graça e paz, em Cristo, Eribaldo.

  7. 30 de abril de 2012 1:36

    No capítulo 12, Paulo cita operações de milagres, juntamente com curas e profecias como dons normativos dados a Igreja. E ele não nos dá nenhuma data de expiração para essas coisas, até a volta de Cristo.

    Como dito, operação de milagres é um dom DISTINTO ao apostolado: “E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro mestres, depois operadores de milagres, depois dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas.”(v. 28) E muito embora apóstolos possam, profetizar, serem mestres, falar em línguas e curar, de acordo com as Escrituras estes dons são distribuídos no Corpo de Cristo a indivíduos DIFERENTES e não estão limitados aos apóstolos: “Porventura são todos apóstolos? são todos profetas? são todos mestres? são todos operadores de milagres?”(v.29) Paulo se dirige aqui a uma igreja cujos membros operavam em todos estes dons e ensina sobre o tema como se tais manifestações fossem normativas em um contexto de Igreja.

    Então, diante do testemunho bíblico, como o cessacionismo não consegue provar que os milagres e demais dons estiveram restritos aos apóstolos, resolveram criar uma nova cláusula extra-bíblica: “e a um grupo de pessoas estreitamente ligados”. O duro é encontrar uma única porção do texto sagrado que afirme isso. E como se as Escrituras já não fossem o suficiente, milagres sempre acompanharam a Igreja, mesmo em um período pós canônico e há registros de sobra para comprovar isso e desbancar este sofisma.

    Quanto a Jesus se revelar nos dias atuais, eu acredito que Deus nunca se limitará por causa das infantilidades do homem. Em um ambiente profético, onde o Espírito tem liberdade para agir, eu acredito tudo ser possível. Visões e profecias fazem parte de uma igreja sã. Lembremo-nos que quando Paulo e Barnabé foram comissionados ao apostolado (Atos 13), as Escrituras nem sequer nos falam a respeito de uma teofania. Foi somente a palavra profética por meio do Espírito. Eu creio em uma presença “antiseptica” do Espírito de Cristo em momentos como esse, que em sua preciosidade nos dá a graça de sua presença, quebrando todo ego inflado, subjugando toda a carne e levando-nos a intimidade do cenáculo, onde ele ceiou com os seus, sem o sensacionalismo da multidão.

    E os seus frutos dirão se estiveram o não com Ele…

Comentários encerrados.

%d blogueiros gostam disto: