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O Espinheiro Eclesiástico

29 de abril de 2014

Reencontrei hoje esta parábola no Antigo Testamento:

Certo dia as árvores saíram para ungir um rei para si. Disseram à oliveira: ‘Seja o nosso rei!’. “A oliveira, porém, respondeu: ‘Deveria eu renunciar ao meu azeite, com o qual se presta honra aos deuses e aos homens, para dominar sobre as árvores?’ “Então as árvores disseram à figueira: ‘Venha ser o nosso rei!’ “A figueira, porém, respondeu: ‘Deveria eu renunciar ao meu fruto saboroso e doce, para dominar sobre as árvores?’ “Depois as árvores disseram à videira: ‘Venha ser o nosso rei!’ “A videira, porém, respondeu: ‘Deveria eu renunciar ao meu vinho, que alegra os deuses e os homens, para ter domínio sobre as árvores?’ “Finalmente todas as árvores disseram ao espinheiro: ‘Venha ser o nosso rei!’ “O espinheiro disse às árvores: ‘Se querem realmente ungir-me rei sobre vocês, venham abrigar-se à minha sombra;” (Juízes 9:7-15).

Interessante como somente o espinheiro, árvore infrutífera, aceitou reinar sobre as demais. Agora compare isso com o que o Senhor tem a nos dizer abaixo:

Vocês sabem que os governantes das nações AS DOMINAM, e as pessoas importantes EXERCEM PODER sobre elas. NÃO SERÁ ASSIM ENTRE VOCÊS; ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo, como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos. (Mat. 20:25-28)

…Os reis das nações DOMINAM sobre elas, e os que EXERCEM AUTORIDADE sobre elas são chamados de benfeitores; MAS VOCÊS NÃO SERÃO ASSIM. Ao contrário, o maior entre vocês deverá ser como o mais jovem, e aquele que governa como o que serve. Pois quem é maior, o que está à mesa, ou o que serve? Não é o que está à mesa? Mas eu estou entre vocês como o que serve. (Luc. 22:25-27).

O modelo atual de liderança eclesiástica, com suas patentes e hierarquias, parece ser nada mais do que um grande espinheiro.

Ecce Homo

25 de abril de 2014

Ecce Homo

Alguém se lembra desse incidente (ou poderíamos dizer “acidente”)? Aconteceu no ano passado, em meados de agosto. A pintura se chama(va) Ecce Homo (Eis o Homem) de Elias Garcia Martinez. Por mais de um século, a pintura foi o orgulho da Igreja Santuário da Misericórdia nas proximidades de Zaragoza, Espanha. Com o tempo, a pintura se desgastou por causa da umidade nas paredes da basílica e Cecilia Giménez, uma fiel de 80 anos de idade, resolveu dar uma ajudinha na restauração. O resultado final é o “Homem Elefante” que vocês estão vendo na foto.

Analisando a História da Igreja – incluindo os capítulos que estamos escrevendo hoje – constato com tristeza que este é o nosso cliclo vicioso. Percebemos que há algo errado na imagem de Cristo na terra – que é a sua Igreja. Tentamos restaurar algo que se perdeu e as vezes os resultados são catastróficos. Tudo porque nos falta habilidade para traçar as linhas, combinar as cores de maneira eficiente, e a sensibilidade para saber quando pressionar o pincel e quando escorregá-lo de forma mais leve sobre a lona.

Por alguma razão, custa-nos encontrar um ponto de equilíbrio enquanto “pintamos”. Muitos de nós vemos o desgaste na “pintura”, queremos mudança, queremos melhora, mas tudo o que conseguimos fazer às vezes é deformar ainda mais a imagem de Cristo. Nos dias de hoje, saímos do extremo do institucionalismo e caímos no outro extremo da informalidade, da “igreja” casual, das vãs conversas de Starbucks. Saímos do extremo de uma mensagem legalista que só prega o fogo do inferno aos pecadores, para cair no extremo do evangelho “água com açucar” de um deus hippie, um velho gagá “paz e amor”, que não confronta pecados ou prega arrependimento. Saímos do fundamentalismo bíblico literalista para cair no liberalismo teológico que mina nossa confiança na Palavra de Deus. Saímos do extremo da “carismanía”, dos retetés, dos modismos e exageros pentecostais, para cairmos no extremo do cessacionismo e seu intelectualismo estéril que nega o poder de Deus. Da salvação pelas obras, caímos no extremo da graça barata, e assim por diante. Sempre trafegando pelos extremos…

Sou otimista quanto aos tempos em que vivemos. Sou confiante no fato de que Deus, em sua divina soberania, avançará com os marcos da Reforma e providenciará um legado para as gerações posteriores. No entanto, não pelos méritos da carne e do sangue. Todos nós corremos o risco de, a exemplo desta octogenária, superestimar nossas habilidades, seja por nossa idade, seja por nossas experiências passadas, nosso intelecto, nosso conhecimento, pelo carisma que temos com as pessoas, ou pelos dons espirituais que possuímos. Todos corremos o risco de apertar o pincel demais ou afrouxá-lo demais, combinar as cores de maneira equivocada e criar traços toscos e inábeis que venham a estragar a pintura.

Que o Senhor nos ajude a caminhar em equilíbrio, no poder de nossa vulnerabilidade e dependência daquele que sabe pintar como ninguém mais.

Soli Deo Gloria.

© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

 

 

Reforma de Aquário

7 de abril de 2014

Àqueles que renunciam uma postura meramente defensiva com relação ao fenômeno dos “desigrejados”, este é um tempo único para uma reflexão e reavaliação de algumas de nossas práticas “igrejeiras”. Os mais sinceros conseguirão ver brechas nos odres atuais e reconhecerão a necessidade de odres novos. Mas ao invés de buscar odres novos, muitos tentarão remendar os odres atuais. De fato, já há uma tentativa de reforma nos dias de hoje. Alguns, no entanto, estão tentando canalizar isso dentro das instituições religiosas.

Por experiência própria posso dizer que certos princípios de grupos pequenos tornam uma congregação institucional mais dinâmica e viva. Mas mais cedo, ou mais tarde, tais comunidades terão que escolher entre preservar o vinho novo ou manter os odres velhos. E é aí que normalmente os problemas começam a acontecer.

Não posso afirmar que seja impossível uma Igreja institucionalizada se converter totalmente em uma igreja orgânica. No entanto, sou muito pouco otimista quanto a isso. Igrejas institucionais que possuem grupos pequenos normalmente seguem dois caminhos: ou cristalizam seus pequenos grupos em pequenos cultinhos, levando a tradição religiosa dos templos para dentro das casas na forma de uma rígida estrutura clero-laical e liturgica, ou na melhor das hipóteses se tornam congregações esquizofrênicas com o tempo.

Conforme a vida orgânica da Igreja se desenvolve, menos e menos os membros dependem dos aparatos institucionais para viver a Igreja, e os anticorpos da instituição começam a reagir. A instituição tem uma vida própria, e seu instinto de preservação é algo antagônico àquilo que um cristianismo orgânico propõe. E muitos, seja por dependência financeira ou emocional da tradição religiosa, servem como anticorpos institucionais ao mover do Espírito em suas fileiras.

Estas pessoas querem mudança, mas como ainda não estão preparadas para nadar nas correntezas do rio de Deus, preferem criar uma reforma de aquário, que possui características semelhantes ao real, mas que coloca limites e tenta manter o mover em um ambiente humanamente controlado pela tradição clerical-templocêntrica.

Entretanto, não há como dizer que estes movimentos não sejam válidos, pois despertam as pessoas para uma dimensão espiritual de sacerdócio universal e comunhão. Não há dúvida de que representa um progresso quando comparado ao modelo tradicional. Acredito que Deus está usando o movimento celular para despertar os sentidos adormecidos da Igreja. Entretanto, penso que o odre institucional é muito pequeno para conter o vinho novo que Deus quer derramar. E conforme os odres velhos começarem a rachar, crentes famintos crescerão espiritualmente como a borboleta que rompe com seu casulo para bater asas e voar – renunciando sua dependência do sistema religioso para permitir que seus instintos espirituais os levem rumo a uma Igreja mais orgânica. Mas isso envolverá renúncia e auto-sacrifício para nos ajustarmos aos padrões que Deus espera de nossa geração.

© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

Dominadores versus Passivos

7 de abril de 2014

Na questão dos grupos pequenos, há dois tipos de personalidades que merecem atenção especial. Os passivos e os dominadores.

Os passivos vêm com seus dons espirituais adormecidos e estão condicionados a assistirem a reunião somente, não participar. Eles esperam que alguém, um presbítero ou outro irmão “espiritual”, lhes dispense uma bênção (oração, Escritura, profecia), mas não vão às reuniões para ser parte do processo de intercâmbio de graça.

Já os dominadores são pessoas que tomam conta das reuniões por causa de seus dons, na maioria das vezes genuínos, mas que são usados incautamente de uma maneira que encobre ou sufoca os demais dons espirituais presentes no ajuntamento. São como músicos que tocam seus instrumentos fora de harmonia com o Maestro – vivem “bumbando na pausa” e estragando a sinfonia. Muitos “dominadores” são pessoas sinceras, que não se dão conta daquilo que estão fazendo. Já outros pensam que o fato de Deus constantemente lhes dar algo lhes dá o direito de se tornar o centro da reunião (como se mais ninguém recebesse nada de Deus).

Dominadores e passivos se completam como unha e carne em um sistema clero-laical, mas devem ser pastoreados para aprender a sair de seus extremos e serem uma benção no processo de Intercâmbio de Graça dos grupos caseiros.

© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

A Igreja Orgânica e o dom apostólico

7 de abril de 2014

Anos atrás, antes de “Igreja orgânica” virar moda, eu já escrevia no Fórum da Revista Impacto que no futuro (que agora já é presente) muitos grupos caseiros iriam surgir sem um direcionamento apostólico e acabariam se dissolvendo. Atualmente, os críticos do mover estão notando isso e estão usando esses modelos abortivos como munição, em sua defesa a favor do institucionalismo greco-romano (fora do qual “não há igreja”).

As comunidades orgânicas que estão surgindo precisam ser banhadas por um outro mover, que aparentemente ainda está em falta: um mover apostólico que levante irmãos e irmãs de mãos calejadas e com espírito quebrantado, munidos com revelação genuína do funcionamento do Corpo de Cristo, para dar ligamento às comunidades. De outra maneira, aquilo que começa como um mover espontâneo do Espírito acaba se institucionalizando na melhor das hipóteses, ou se desintegrando na pior delas.

Penso, no entanto, que há ramos verdes brotando e, apesar de algumas flores que morrem, a Primavera é inevitável se perseverarmos em intercessão. É a intercessão que refina nossa visão e nos colocar um passo à frente daquele que semeia o joio entre nós.

© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

Hereges

2 de abril de 2014

Historicamente falando, “herege” é todo aquele que desafia o status quo. Os “hereges” são as pessoas mais felizes, mais apaixonadas, mais vibrantes, mais comprometidas e dedicadas, irrestivelmente atraídas por um alvo inalcançavel ou invisível a outros.

“Hereges” são os mais crentes em uma geração de incrédulos, os mais quentes em uma geração de mornos, os mais visionários em uma geração de míopes. “Hereges” são aqueles que clamam quando todos querem se calar, que correm quando todos querem dormir, que voam quando todos se arrastam e que ainda sonham quando todos se recusam a crer. “Hereges” são os que pregam as 95 teses nas portas das velhas catedrais, os que desafiam velhos paradigmas, o que irritam “reis” e “aristocratas” que engordam às custas do status quo.

“Hereges” são aqueles que transformam em boas novas as coisas boas que já haviam ficado velhas. São os chamados “obstinados”, “insubmissos”, “rebeldes”, “subversivos” e “dissidentes”, cuja consciência não está cativa às expectativas alheias, mas somente às expectativas de Deus. “Hereges” são os de braço forte, cujos calos e músculos se desenvolvem no remar contra a maré.

“Hereges” são o que dão à luz aquilo de que antes somente se ouvia falar, os que trazem cor, forma, cheiro e vida ao que estava limitado ao papel e ao mundo das idéias.

Sem profecia o povo se corrompe, e não há um só profeta que não tenha sido “herege”.

© Pão & Vinho

Este texto está sob a licença de Creative Commons e pode ser republicado, parcialmente ou na íntegra, desde que o conteúdo não seja alterado e a fonte seja devidamente citada: http://paoevinho.org.

Recado aos amigos de Pão & Vinho

17 de junho de 2013

Aos amigos de P&V anuncio que o blog está no ar novamente. Como não escrevo regularmente há aproximadamente um ano, resolvi fechar as portas por mais de 40 dias, em reflexão, para saber se valia a pena manter o conteúdo no ar ou não, se era ou não de edificação para a Igreja brasileira.

Você reparará que não há nada de novo. Pensei até em mudar a aparência do site, mas com família, trabalho e faculdade, simplesmente não tenho tempo para estar adaptando e traduzindo novos temas para o português. Então resolvi manter esse mesmo.

A maioria dos artigos está disponível novamente. Somente quero esclarecer uma vez mais que apesar do “angry man” que aparece nos meus textos esporadicamente, definitivamente não jogo no time daqueles que têm “síndrome messiânica”, que demonizam as denominações e acham que somente eles possuem a “verdade”. Entendo que estamos passando por uma transição que envolve uma série de mudanças de paradigmas. Alguns irmãos permanecerão exatamente onde estão. Outros avançarão alguns marcos e manterão outros no lugar. E alguns outros alcançarão e viverão a plenitude da Reforma que Deus quer fazer na sua Casa.  Cada um que saiba discernir qual o seu chamado e seja recompensado segundo a sua fé.

Nenhum dos problemas da Igreja institucional me dá o direito de julgar a fé daqueles que a compõe. Mas o entendimento de que a Ekklesia se encontra também na Igreja institucional não me castra o senso crítico ou me tenta ao conformismo. Que fique claro, porém, que neste blog discuto problemas estruturais, não comportamentais – o que quer dizer não julgo pessoas, somente abordo a eficácia de métodos, tradições e crenças.

Ciente de que meus artigos foram usados no passado por pessoas de cujo espírito sectário não compartilho, pensei em exorcizar o “angry man” dos meus artigos. Mas isso se tornou extremante tedioso para mim. O que escrevi, escrevi. Por conta de meu estilo franco e direto, tenho poucos amigos na rede, mas cheguei à conclusão de que essa é uma das formas autênticas em que me expresso e que, pelo menos no meu caso, veemência não equivale à ódio. Se você não sabe discernir a diferença entre discutir métodos e atacar pessoas, por favor não leia este blog e não use uma linha sequer escrita por mim para embasar sua ira “anti-denominacional”. Não estamos do mesmo lado. Se você é um irmão denominacional, estamos juntos em Cristo, mas se você também não consegue discernir a diferença entre discutir métodos e julgar pessoas, é melhor que tampouco leia meu blog, porque vai se sentir atacado e vai ficar ofendido.

Tenho a convicção de que estar em uma Igreja institucional é como dirigir um FIAT 147: você não se torna um mau vizinho por ter um, mas terá problemas em um futuro próximo, não por questões de caráter, mas por problemas de engenharia e estrutura  – independentemente da qualidade dos passageiros que o ocupam. Não defendo uma determinada eclesiologia em detrimento de outras, visto que a Bíblia não nos delineia a “eclesiologia correta”, somente defendo a premissa de que nossa eclesiologia deve ser “líquida”, moldando-se às necessidades da Igreja local (ao invés de a Igreja local moldar-se às nossas tradições pré-fabricadas) – razão pela qual deve ser revista periodicamente. Essa é a essência da mensagem que este blog comunica.

Assim, em paz com Deus e com minha consciência, volto a disponibilizar o conteúdo de P&V. Se você é novo aqui no P&V, ou se deseja entender melhor a sua visão, leia a série de artigos O que definirá uma Igreja Orgânica nos Próximos Anos – Partes 1, 2 e 3. Se de alguma maneira você se sentir desafiado por aquilo que este trabalho comunica, terei então cumprido meu propósito na blogosfera.

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